13/05/15

Lex orandi, lex credendi (contra arminianos e calvinistas)

 Existe um princípio da tradição cristã: lex orandi, lex credendi. Estritamente, seria: a lei de orar é a lei de crer. Eu gosto de traduzi-lo como: a lei do culto é a lei da fé, porque aí o orare (no contexto em que Próspero de Aquitânia o enunciou) não se refere especificamente às orações particulares, mas às orações coletivas e litúrgicas da igreja antiga. Essa lei expressa a coerência que deve haver entre o nosso modo de nos colocarmos diante de Deus (orare) e a fé professada (credere).

Um dos motivos pelos quais eu jamais poderia ser arminiano ou calvinista é a profunda incoerência que há entre cada um desses sistemas e a vida prática. Falharemos miseravelmente se as máximas de nossa vida espiritual forem deduzidas dos princípios do arminianismo ou calvinismo.

Orar pela conversão de outras pessoas é uma das práticas mais antigas. O arminiano normalmente ora para que outras pessoas se convertam, seguindo inclusive o exemplo bíblico (Rm 10:1). Quando o arminiano rejeita a capacidade de Deus em converter efetivamente alguém, mas continua orando pela conversão de uma pessoa, está orando como calvinista. Rejeitou sua doutrina no momento da oração. De fato, conheço um arminiano coerente, que me confessou, em termos semelhantes aos seguintes: “Não oro pela conversão de ninguém, porque sei que a pessoa é quem deve escolher.”

Semelhante ocorre com o calvinista. Que sentido há, para um calvinista, em pedir a Deus por perseverança, se Deus já deu perseverança a todos os convertidos e já a negou a todos os réprobos? Dedutivamente, o calvinismo é um sistema em que o cristão não precisa pedir perseverança a Deus. Existe, sim, ações de graça pela perseverança, mas não se deveria rogar por ela, se se quisesse ser coerente com o calvinismo.

Essa incoerência está expressa magistralmente num ditado comum, usado especialmente por alguns calvinistas: devemos orar como calvinistas (isto é, como se tudo dependesse de Deus) e trabalhar como arminianos (como se tudo dependesse de nós), ou devemos ser calvinistas de joelhos e arminianos de pé, ou qualquer outra variação do mesmo tema. Há aí uma incoerência prática, reconhecida quase que como piada. Esse ditado está correto no sentido de nos mostrar como devemos agir; mas a conseqüência deve ser de que, se queremos ser coerentes, devemos crer não como arminianos nem como calvinistas, mas como outra coisa.


G. M. Brasilino

6 comentários:

  1. A teologia calvinista diz que Deus determina os fins como os meios. Um calvinista orar pedindo perseverança não é o meio? Ou seja, pedir que Deus faça sua vontade não é orar como orou o Senhor?

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    1. Eu concordo inteiramente de que a oração seja um meio, pre-ordenado por Deus, para cumprir o fim pre-ordenado por Deus. É isso que diz Agostinho. Mas na teologia agostiniana isso faz sentido, porque nela um convertido verdadeiro pode cair da graça e ser condenado.

      Parece que na teologia calvinista, pedir perseverança é um pedido vazio, porque a perseverança já foi concedida juntamente com a conversão. Pede-se algo que já foi dado. Por isso vai sempre faltar interesse em pedir perseverança.

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    2. A oração é uma forma de se relacionar com Deus, mesmo que peçamos algo inútil, o pedido é válido porque estamos conversando com Deus, apenas expressando um desejo do nosso coração.

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    3. A oração não "apenas expressa um desejo", porque todo desejo é intencional, aponta para ALGO. A oração expressa um desejo DE RECEBER algo que não se tem, e que só Deus pode dar.

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  2. (1º) "Que sentido há, para um calvinista, em pedir a Deus por perseverança, se Deus já deu perseverança a todos os convertidos e já a negou a todos os réprobos?"

    Eu é que pergunto: (2º) que sentido há para um cristão que crê em predestinação, em pedir a Deus qualquer coisa, se Deus já decretou tudo?

    Logo, Sr. Gyordano, se crês em predestinação, que sentido há em suas orações?

    Responda essa pergunta e estarás respondendo a primeira.

    Pode até ser que os calvinistas tenham algumas outras contradições.

    https://www.youtube.com/watch?v=mtQ_W1_x5Do

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    1. O Sr. concorda comigo que há uma diferença entre pedir a Deus AQUILO QUE ELE JÁ DEU (o que é uma contradição, visto que trata a perseverança como já recebida e como não recebida) e pedir a Deus aquilo que ele (talvez) já esteja determinado a dar, mas, na temporalidade humana, ainda não foi recebido? Preciso de um SIM.

      No primeiro caso, há uma contradição. Uma contradição não tem resposta possível. É necessariamente um erro.

      No segundo caso, trata-se apenas de uma questão difícil de responder. Na história da Teologia, há várias respostas para essa pergunta, muitas delas consistentes com as Escrituras; a dificuldade é apenas em saber qual dessas respostas é a correta, posto que as Escrituras não discutem a questão em pormenores.

      Não é possível discutir o tema se não se intuir a diferença entre uma contradição e um quebra cabeça. Por isso, a resposta à sua pergunta NÃO SERVE para responder a minha. Minha pergunta é puramente retórica; o propósito é que o leitor reflita sobre ela, percebendo que o que impossibilita a resposta é uma contradição.

      Ad argumentandum, eu poderia responder à pergunta com a teoria que está mais ou menos associada a Orígenes: Deus, no ato predestinador, leva em conta as orações previstas (eu acrescentaria: que ele mesmo ocasionou), de modo que a oração não altera o curso dos fatos. Essa teoria responde à minha questão, feita ao calvinista? Não, não responde! O mesmo se aplica a qualquer outra teoria.

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