04/05/15

Abuso das metáforas

 Uma parte essencial da inteligência é a capacidade de perceber conscientemente as semelhanças e as diferenças. Sendo nosso vocabulário limitado diante da imensidade e mutabilidade do mundo, utilizamos as mesmas palavras para se referir a coisas diferentes, tomando por base a semelhança perceptível entre elas; há várias figuras de linguagem responsáveis por classificar esses modos de semelhança.

Podemos dizer que uma montanha é muito alta, e dizer que um determinado pensamento é muito alto; não é difícil perceber que "alto", nos dois casos, não quer dizer exatamente a mesma coisa. É fácil explicar o que é uma montanha muito alta: está provavelmente fora do nosso alcance, será difícil escalá-la. Dizemos que um determinado pensamento é alto por motivos semelhantes: ele é difícil de acompanhar, talvez exija algum treinamento específico, muito esforço, não é para qualquer um. Chama-se tertium comparationis essa semelhança que serve para a comparação figurativa entre duas realidades quaisquer. Na símile, o tertium comparationis é explícito: "fulano é forte como um touro", e a força é o tertium comparationis. Mas se dizemos: "fulano é um touro" (metáfora), o tertium comparationis é (talvez) a força; não o formato corporal, a cor, a inteligência ou qualquer outro atributo do touro.

Um erro comum de interpretação da Escritura está em buscar extrair de alguma metáfora algo que está fora do seu tertium comparationis; extrapola-se o sentido original do texto. Embora aqui se refira a metáforas, esse tipo de extrapolação aparece também com outras figuras de palavras, como a alegoria (entendida como uma narrativa de metáforas) e a símile. Dá-se com essas figuras de linguagem um tipo de abuso semelhante ao das parábolas, condenado por toda a erudição bíblica desde que a obra de Adolf Jülicher foi absorvida: procura-se dizer mais do que o texto diz, procurando um significado por trás de cada detalhe.

No Novo Testamento, é em geral muito fácil identificar o tertium comparationis, porque ele costuma estar explícito. As perguntas a se fazer são: qual é, no contexto, a intenção do autor? O que ele busca demonstrar? O que ele quer atacar? Essas perguntas precisam ser conscientes; costumam ser levadas pouco a sério, e por isso há tantos abusos das metáforas bíblicas. Porque é da natureza da metáfora ser elástica, podendo ser usada, em contextos e situações culturais distintos, para expressar ideias diferentes. A serpente pode ser um símbolo da astúcia, mas também da peçonha!

Se abusarmos das figuras como quisermos, cairemos em milhares de contradições. Um exemplo é o uso calvinista dos textos que falam do velho homem como morto: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,” (Ef 2:1). O calvinista extrai conseqüências que jamais são ditas no próprio texto: o morto não é capaz de tomar decisões, de agir. Portanto não é capaz de decidir se aceita ou rejeita a salvação (e, nessa hora, parece que a parte que diz “em ofensas e pecados” passa a ser lida como se dissesse “por causa do pecado original”).

Mas é claro que há outras figuras que implicam em vida, e não em morte, para o estado anterior à conversão: se nós morremos com Cristo (Rm 6:8), consequentemente estávamos vivos antes. Isso porque “vida” e “morte” não são símbolos sem ambigüidade. Era o propósito de Paulo negar o livre arbítrio quando escreveu o que escreveu? Há algo no texto que faça referência ao livre arbítro? Não e não. A intenção de Paulo era simplesmente tratar sobre as conseqüências de “ofensas e pecados”, a morte, em comparação com a conseqüência da graça, a vida. Não há necessidade de inventar um tertium comparationis que não está em jogo no contexto.

Dois outros exemplos servem: o primeiro é o do templo do Espírito Santo (metáfora), e o segundo é o da vinda como um ladrão (símile).

I. Templo do Espírito Santo: Há dois textos:

I CORÍNTIOS 3
16 Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?
17 Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.

I CORÍNTIOS 6
18 Fugi da prostituição. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo.
19 Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?
20 Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.

Não é improvável que o leitor já tenha visto esses textos serem usados para pregar que o cuidado da saúde é um mandamento, e que tratar a saúde relaxadamente é um pecado.

Há algo nesses dois textos que indique a saúde como tema? Não, absolutamente. No primeiro texto, a conseqüência que Paulo extrai da noção de “templo de Deus” diz respeito à santidade do templo, isto é, ao fato de que o templo é propriedade de Deus (santidade = separação), e que ele guarda essa propriedade. No segundo texto, também se enfoca a santidade do templo, dessa vez em sentido moral: não se pode ser santo e praticar a prostituição (santidade = conduta reta). Esse é o tertium comparationis nos dois textos: a santidade! Portanto, esses dois textos não podem servir de amparo para afirmar absolutamente nada sobre saúde.

Isso não quer dizer que seja correto o descuido para com a saúde. Quer dizer apenas que esses textos não tratam de saúde, como não tratam de uma infinidade de outras coisas.


II. Ladrão de noite: Embora não seja a mais freqüente, é das figuras mais dispersas e características da Igreja primitiva: está nos evangelhos, em Paulo, em uma das cartas gerais e no Apocalipse. Jesus virá como um ladrão de noite. O abuso cometido é usar esse texto para pregar o “arrebatamento secreto”, isto é, a doutrina segundo a qual Jesus levará secretamente para os céus os cristãos fiéis, enquanto o resto do mundo segue a vida aqui na terra, sem ter visto Jesus. Os textos indicam ser esse o tertium comparationis, isto é, o fato de que será uma “vinda secreta”?

MATEUS 24
42 Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor.
43 Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa.
44 Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis.

LUCAS 12
37 Bem-aventurados aqueles servos, os quais, quando o Senhor vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará assentar à mesa e, chegando-se, os servirá.
38 E, se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e os achar assim, bem-aventurados são os tais servos.
39 Sabei, porém, isto: que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, e não deixaria minar a sua casa.
40 Portanto, estai vós também apercebidos; porque virá o Filho do homem à hora que não imaginais.

Qual é o problema do ladrão? Ninguém sabe a hora da sua vinda. Portanto, deve-se estar acordado.

I TESSALONICENSES 5
1 MAS, irmãos, acerca dos tempos e das estações, não necessitais de que se vos escreva;
2 Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite;
3 Pois que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão.
4 Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão;
5 Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas.
6 Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios;

Qual é o problema do ladrão? Ele pode surpreender. Portanto, deve-se estar acordado.

II PEDRO 3
3 Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências,
4 E dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.
5 Eles voluntariamente ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus, e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste.
6 Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio,
7 Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios.
8 Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia.
9 O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.
10 Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão.

Qual é o problema do ladrão? Acha-se que ele não virá mais, por sua “demora”. Portanto, deve-se guardar a promessa.

APOCALIPSE 3
3 Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.

APOCALIPSE 16
15 Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam as suas vergonhas.

Qual é o problema do ladrão? Não se sabe a hora de sua vinda. Portanto, deve-se vigiar!

Note-se: nenhum dos textos realça o fato de que o ladrão não é visto. Todos realçam o fato de que o momento de sua vinda é desconhecido. Certamente há algo de secreto nesses textos; mas o secreto não é o “aparecimento do ladrão, mas o dia e a hora do aparecimento.

Portanto, inventar uma “vinda secreta” nessa metáfora do ladrão é como dizer que Jesus recomenda sermos peçonhentos como serpentes, quando ele manda-nos ser astutos como serpentes; trocou-se o tertium comparationis por outro que abstratamente seria possível para aquele objeto (a serpente pode ser um símbolo de peçonha, o ladrão pode ser um símbolo de furtividade), mas que não foi utilizado. Por si só, a análise desses textos não indica se essa vinda é secreta ou não. O que se indica é que a símile do ladrão não pode ser usada para defender um arrebatamento secreto.

G. M. Brasilino

4 comentários:

  1. Respostas
    1. sou leigo me explique por favor essa passagem. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. Mateus 24:27

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    2. Mateus 24:27 se refere à Segunda Vinda de Jesus. O "relâmpago" é geralmente um símbolo de resplendor e de manifestação da glória de Deus, na Bíblia (cf. Mt 28:3; Lc 11:36; Ap 4:5; 8:5; 11:19; 16:18). Quer dizer que a segunda vinda de Jesus não será como a primeira, andando pela terra, mas será gloriosa, visível nos céus.

      Marcos 13:26
      E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória.

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