04/04/15

A Natureza da Profecia


Recentemente encontrei o texto de Ezequiel 26:7-14 numa lista de “profecias bíblicas não cumpridas”. A proposta da lista era descaracterizar os oráculos bíblicos: como as profecias da lista não se cumpriram, estava fatalmente provado que não havia uma revelação de Deus no texto das Sagradas Escrituras. O texto de Ezequiel é um dentre muitos pesos contra as nações: profecias de destruição, em que Deus anuncia um castigo severo a um povo ou a uma cidade, em razão dos seus pecados. Desta vez, era Tiro. Pelas palavras da profecia, Nabucodonosor derrubaria os muros da cidade, mataria seus habitantes, e a cidade “jamais ser[ia] edificada“ (v. 14).

A cidade de Tiro existe até hoje; não foi destruída por Nabucodonosor.

O livro de Deuteronômio fornece dois critérios para o reconhecimento da profecia verdadeira: ela não pode induzir ao pecado (Dt 13:1-3) e deve se cumprir (Dt 18:21,22). Uma profecia que se cumprir realmente, mas leve o povo à idolatria, deve ser reconhecida como falsa profecia, e aquele profeta, como falso profeta. Por outro lado, a profecia de Deus sempre se cumprirá.

O detalhe é que nem sempre a profecia de Deus se cumpre como parece que ela deveria se cumprir. Isso se dá porque a profecia bíblica não é uma predição do futuro. O núcleo essencial da profecia hebréia é o chamamento ao arrependimento, a um retorno à lei de Deus (cf. Pv 29:18). Em geral, os profetas são homens escolhidos por Deus, de qualquer classe social, idade ou gênero (e, às vezes, de fora do povo hebreu), para anunciar ao povo o castigo pelos seus pecados.

MIQUÉIAS 3
8 Eu, porém, estou cheio do poder do Espírito do SENHOR, cheio de juízo e de força, para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel, o seu pecado.

Nesse sentido, a profecia hebréia é um juízo divino sobre a realidade presente; o prenúncio do juízo futuro está diretamente ligado ao pecado atual. Por isso, há na profecia bíblica o que sói chamar “condição implícita”, e que é claramente apresentada por Jeremias, num texto muito lido, mas cujas conseqüências escapam à maioria dos leitores:

JEREMIAS 18 (ARA)
1 Palavra do SENHOR que veio a Jeremias, dizendo:
2 Dispõe-te, e desce à casa do oleiro, e lá ouvirás as minhas palavras.
3 Desci à casa do oleiro, e eis que ele estava entregue à sua obra sobre as rodas.
4 Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu.
5 Então, veio a mim a palavra do SENHOR:
6 Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o SENHOR; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.
7 No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar*, derribar* e destruir*,
8 se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe.
9 E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar* e plantar*,
10 se ele fizer o que é mau perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.
11 Ora, pois, fala agora aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém, dizendo: Assim diz o SENHOR: Eis que estou forjando mal e formo um plano contra vós outros; convertei-vos, pois, agora, cada um do seu mau proceder e emendai os vossos caminhos e as vossas ações.

Os verbos “arrancar”, “derribar”, “destruir”, “edificar”, “plantar” repetem as palavras do chamado de Jeremias (1:10; cf. 31:28; 42:10; 45:4); referem-se, portanto, aos juízos proféticos, prenunciados pelos profetas e cumpridos por Deus. É claro que, no texto, o “arrependimento” (do bem e do mal que houvera dito que faria) é um antropopatismo: atribui-se a Deus uma característica humana. Ademais, o “mal” e o “bem” realizados por Deus não tem conotação moral, como se Deus pudesse praticar o mal, mas refere-se sempre, nas Escrituras, a algum juízo de Deus em razão do pecado humano (cf. Ex 32:9-14; Jr 21:10; 26:3; 32:42; etc).

Mas a mensagem do texto é clara: Deus anuncia que abençoará uma dada nação; se essa nação se corrompe, Deus não a abençoará. Ou Deus afirma que punirá uma nação pelo seu pecado; se a nação se arrepende, Deus não a punirá. Tanto faz se a condição é explicitamente enuncada pelo profeta (Jl 2:13) ou se o profeta nada diz sobre a possibilidade do arrependimento. O que é dito em Jr 18 vale para todas as profecias. O exemplo clássico disso é a profecia de Jonas.

JONAS 3 (ARA)
1 Veio a palavra do SENHOR, segunda vez, a Jonas, dizendo:
2 Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo.
3 Levantou-se, pois, Jonas e foi a Nínive, segundo a palavra do SENHOR. Ora, Nínive era cidade mui importante diante de Deus e de três dias para percorrê-la.
4 Começou Jonas a percorrer a cidade caminho de um dia, e pregava, e dizia: Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.
5 Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor.
6 Chegou esta notícia ao rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco e assentou-se sobre cinza.
7 E fez-se proclamar e divulgar em Nínive: Por mandado do rei e seus grandes, nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem os levem ao pasto, nem bebam água;
8 mas sejam cobertos de pano de saco, tanto os homens como os animais, e clamarão fortemente a Deus; e se converterão, cada um do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos.
9 Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?
10 Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez.

Para efeitos do que aqui se discute, tanto faz se a história de Jonas é histórica ou ficcional/ilustrativa, pois seu sentido literal também é claro: a mensagem de Jonas foi apenas de destruição, sem qualquer menção a um arrependimento possível. Mas os ninivitas entenderam a mensagem; entenderam que Deus não estava preso à mensagem enunciada, de modo que ele poderia revogar seu próprio juízo. E foi o que aconteceu.

De fato, é exatamente isso que escandalizou Jonas: a bondade de Deus, em não exercer o juízo profetizado. Esse é o tema do livro do profeta Jonas. Não a fuga do profeta, não o barco em meio à tempestade, não o monstro marinho, nem mesmo a pregação de Jonas e o arrependimento do povo. O tema é a dureza do coração de Jonas (e daqueles para quem o livro de Jonas foi escrito) em não reconhecer a bondade de Deus em cancelar seu próprio juízo. Suas palavras são dramáticas:

JONAS 4 (ARA)
1 Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado.
2 E orou ao SENHOR e disse: Ah! SENHOR! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.
3 Peço-te, pois, ó SENHOR, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver.

Nesse momento, Jonas repete uma fórmula hebraica já conhecida, que expressa a bondade e a severidade de Deus, e que certamente era conhecida dos seus leitores (cf. Ex 34:6,7; Nm 14:18; Dt 5:9,10; Ne 9:17,31; Sl 86:15; 103:8; 145:8; Jl 2:13; Na 1:3). O profeta sabia que, mesmo anunciando o juízo de condenação, Deus iria trazer o bem, e não o mal, sobre os ninivitas, ainda que não houvesse qualquer condição prenunciada. Porque a condição é implícita, como nos faz crer o texto de Jr 18.

Há outros casos, como o sacerdócio da família de Eli (1Sm 2:30), a doença mortal de Ezequias (Is 38:1-5) ou a profecia de Miquéias (3:8-12; cf. Jr 26:17-19). Este último caso é especialmente importante, porque os anciãos da época de Jeremias entenderam que a profecia de destruição, enunciada por Jeremias, era substancialmente idêntica àquela pronunciada antes por Miquéias, e que, tinha também uma condição (implícita): o arrependimento. Como o juízo estava vinculado aos pecados do povo, o juízo desaparecia quando desaparecia o pecado, isto é, quando o povo se voltava a Deus em arrependimento e penitência.

A conseqüência do que se vê em tais textos é que não se deve necessariamente buscar um cumprimento literal para as profecias bíblicas, especialmente quando dizem respeito a nações. Isso pode enfurecer a alguns intérpretes ociosos, como alguns dispensacionalistas, que querem que todas as profecias se cumpram, mas essa fúria não é diferente da de Jonas.

G. M. Brasilino

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