02/03/15

Uma contradição do credobatismo


Chama-se credobatismo a posição que vincula o batismo à fé. Para os credobatistas, não se pode batizar ninguém que não creia em Jesus Cristo; conseqüentemente, não se pode batizar crianças. Qualquer pessoa que tenha sido batizada quando criança deve ser rebatizada; aliás, falar em “rebatismo” seria inadequado, visto que não houve batismo algum. Essa posição foi pela primeira vez defendida pelos anabatistas (“rebatizadores”) do século XVI.

A vinculação do batismo à fé suscita imediatamente um problema: como o batizante pode identificar a fé do batizando? Como saber se ele tem fé? Nesse momento, o credobatista muda seus termos: o requisito do batismo não é mais a fé, mas a profissão de fé, isto é, a evidência verbal da fé. É o que diz, por exemplo, a Confissão de Fé Batista de 1689 (29.2). Em sua Teologia Sistemática, no capítulo que trata propriamente do Batismo (49), Wayne Grudem o confirma (grifo meu):

"A posição defendida nesse capítulo é "batística", isto é, que o batismo é devidamente administrado apenas aos que fazem uma profissão de fé em Jesus Cristo digna de crédito" (p. 814)

Não qualquer profissão de fé; apenas uma em que se possa acreditar. Uma fé em que o batizante possa acreditar. O juízo subjetivo do batizando é substituído pelo juízo subjetivo do batizante.  Esses sucessivos recuos do credobatista são consequências da impossibilidade de vincular a fé ao batismo; a regra é continuamente falseada e restrita. Todas essas restrições, porém, acabam por fazer com que a prática credobatista acabe se desvinculando inteiramente da retórica credobatista, que busca justamente provar que o batismo está vinculado apenas à fé.

Então aparece a inconsistência: deve-se "rebatizar" quem, algum tempo após o batismo, disser que sua confissão não foi realmente consciente, isto é, que não cria realmente? Quantas vezes isso deve acontecer? Seja qual for a resposta verbal do credobatista, na prática não há rebatismo quando o primeiro batismo foi em idade adulta; somente quando foi ministrado a uma criança.

O credobatista invalida o batismo infantil, porque a criança não crê.

O credobatista não invalida o batismo adulto quando o adulto não crê.

Nesse momento, a fé desapareceu por completo da questão. Tudo se tornou profissão de féOu seja: a posição credobatista é uma criação ad hoc; é uma argumentação que serve unicamente para invalidar o batismo infantil. Até onde eu sei, somente a seita adventista tem uma teologia credobatista consistente nesse ponto: batiza e rebatiza qualquer um que se converta à sua doutrina, e rebatiza os que queiram retornar à sua doutrina, mesmo já tendo sido batizados.


(G. M. Brasilino)

Nenhum comentário:

Postar um comentário