04/03/15

Resistir à tentação (contra calvinistas e arminianos)



Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.
(1ª Coríntios 10:13)


Estou convencido de que o texto de 1ª Coríntios 10:13 traz problemas tanto para calvinistas quanto para arminianos, quando suas conseqüências são analisadas. Os textos bíblicos por vezes colocam problemas para certos sistemas demasiado simplistas, que buscam explicar todo o intrincado agir salvífico de Deus em poucas proposições bem articuladas e consistentes. Dei um exemplo no texto anterior sobre o “Livro da Vida”, que não se ajusta bem a nenhum desses dois modelos. Simplesmente porque não são bons modelos.

Quando eu digo que o texto traz problemas, não quero dizer que sejam problemas insolúveis. Dificilmente se encontrará algum texto que não possa ser torcido e retorcido para se ajustar a alguma interpretação. Quero dizer que as tentativas de ajustá-lo sempre violarão a simplicidade e parcimônia que são exigidas como princípio hermenêutico, ou, ainda mais, como princípio ético: elas representam a sinceridade diante do texto.


Contra Calvinistas:

O texto parece ensinar que Deus nos concede graça suficiente para resistir ao pecado, ou ao menos o pecado para o qual somos tentados. Deus dá-nos forças para resistir, permite sobrevirem tentações que podemos resistir e dá-nos uma forma de fugir da tentação.

Essa graça, porém, não pode ser entendida como irresistível, quando confrontamos a promessa com seu cumprimento, pois sabemos (e podemos claramente ler sobre Corinto!) que os cristãos pecam, embora não todo o tempo. Segundo o texto, o cristão que peca tinha a faculdade de não pecar; Deus lhe concedeu os meios para não pecar. Se a vitória daquele cristão contra aquele pecado precisa ser “decretada infalivelmente” por Deus (como parecem ensinar os calvinistas), o cristão que pecou não tinha o poder de não pecar, ao contrário do que ensina o texto.

A melhor explicação metafísica para o texto acima está na liberdade individual de abraçar ou rejeitar essa graça. Então ao menos em um momento somos livra usufruir ou rejeitar a graça salvífica de Deus: o momento em que um cristão se depara com a tentação do pecado. A distinção calvinista entre uma graça comum (não salvífica e resistível) e uma graça irresistível (salvífica) não se encaixa nesse texto, que nos mostra claramente uma graça que é facultada ao ser humano (não imposta irresistivelmente), mas que é também salvífica, porque o afasta do pecado.


Contra Arminianos:

Conforme a leitura indicada acima, a passagem parece encaixar-se perfeitamente no conceito arminiano de graça, que é resistível: Deus concede graça suficiente para que o pecado seja vencido, com uso do livre arbítrio humano. Simples!

Mas não é tão simples. É uma promessa universal: todos os cristãos têm forças para resistir a todos os pecados que enfrentarão. O problema suscitado é: que lugar deve ter a oração no confronto das tentações? Porque se eu já tenho força suficiente para resistir ao pecado, do que mais necessito? É inútil pedir por mais? Pedir por mais é pedir por mais do que a graça suficiente. Mas o que é esse algo mais, se o uso do livre arbítrio já me livraria daquele pecado?

Esse tipo de oração está presente, por exemplo, nos livros dos Salmos, em que várias vezes se pede a Deus para que ele conduza o comportamento do orante, para que não peque, para que Deus lhe dê um coração mais obediente (cf. Sl 51:10; 86:11; Sl 119:10,36,149). Imagine-se a situação de um mártir cristão, no momento de tortura que antecede sua morte: ele pede a Deus para que aquela tentação não o esmague, para que ele não peque, para que não negue o nome do seu Senhor. Mas, ele já tem toda a força de que necessita para não pecar? Que mais está pedindo?

Quando oramos para que Deus nos dê mais forças contra as tentações, queremos, na realidade, que ele dirija diretamente nossas ações, pedimos que o seu Espírito controle o nosso comportamento. Pedimos para que ele realize em nós tanto o querer e o efetuar. Pedimos, em suma, não apenas a graça que seria suficiente para enfrentar a tentação com anuência do livre arbítrio (gratia efficax ab extrinseco), mas uma graça que dirija nossa própria vontade ao fim que é perfeitamente conforme à lei divina (gratia efficax ab intrinseco), porque sabemos que nossa vontade fraquejará, sabemos que escolheremos o mal, mesmo que tenhamos forças para resistir. Pedimos que nossa ação não dependa do nosso arbítrio.

"Tu me ordenas a continência; conce-me o que me ordenas, e ordena o que quiseres."
(Agostinho)


(G. M. Brasilino)

4 comentários:

  1. Excelente texto! Não me considero arminiano e nem calvinista (isso é complicado pra muita gente entender) simplesmente pelo fato de que não gosto de rótulos, apesar de isso aparentemente estar na contramão do que pensam intelectuais.
    Eu acredito que rotular um ou outro como sendo o “caminho certo” é pelo menos para mim, rasgar partes importantes do texto sagrado. Desejo ao autor deste texto e de outros ótimos que li aqui que siga neste caminho! Trazer conteúdo de qualidade com informações sobre visões diferentes permitindo ao leitor desfrutar da oportunidade da reflexão filosófica sobre os temas abordados é singular, tendo em vista que hoje é muito mais fácil encontrar textos tendenciosos de forma descarada.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A maioria das pessoas que não se consideram arminianos nem calvinistas, "simplesmente pelo fato de não gostar de rótulos", são arminianas.

      Excluir
    2. Discordo, e não entendo a ofensiva! vim aqui elogiar seu texto e é assim que sou recebido? você mesmo já citou outras escolas de pensamento em outros textos! já li bastante sobre Calvinismo e sobre Arminianismo e entendo e defendo partículas dos dois pensamentos o que simplesmente já me afasta de ser rotulado, a proposito tenho direito as minhas próprias interpretações do texto bíblico já que Calvino e Armínio e tantos outros assim fizeram e ainda fazem, como o Sr. por exemplo que sinceramente não sei o que é! se calvino se Armínio ou se outro! Não gosto de rótulos porque vejo falhas em ambas interpretações sem falar em perigos oriundos dos dois ensinamentos dando margem a interpretações da interpretação (espero ter sido claro!) e assim influenciando em comportamentos que tanto uma como a outra escola condenariam, por ser longe de um processo de santificação, (Tem pessoas que justificam seus pecados nessas escolas).

      Excluir
    3. Não há nenhuma ofensiva. É uma constatação empírica.

      É simples de verificar. Já vi vários arminianos dizerem que vêem erros dos dois lados, em tom de condescendência. Mas ficam mudos quando se pergunta: qual é o erro do arminianismo?

      Excluir