02/03/15

O coração de Faraó



O endurecimento do coração de Faraó é um dos temas mais recorrentes nas discussões sobre a interpretação da doutrina bíblica predestinação, desde que o apóstolo Paulo introduziu esse tema na discussão dessa doutrina no capítulo 9 da Carta aos Romanos, no contexto da salvação dos judeus e gentios.

ROMANOS 9 (NVI)
14 E então, que diremos? Acaso Deus é injusto? De maneira nenhuma!
15 Pois ele diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão".
16 Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus.
17 Pois a Escritura diz ao faraó: "Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda a terra".
18 Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer.

O “endurecimento” de que fala o texto refere-se à conhecida história do Êxodo (caps. 114). O texto necessita de leitura pormenorizada. Resumidamente, Deus manda (pela boca de Moisés) que o Faraó deixe o povo hebreu partir para adorá-Lo, livre da escravidão egípcia; ao mesmo tempo, Deus endurece o coração de Faraó para que este não libere a partida dos hebreus. Mesmo após a partida dos hebreus, Deus endurece o coração do Faraó para que ele persiga o povo. Embora o endurecimento se foque no Faraó, ele se aplica também ao coração dos egípcios em geral (Êx 14:17).

Esses textos são às vezes usados para provar que a maldade de Faraó é causada por Deus. Isso é obviamente inconsistente com a onibenevolência, que não apenas é requerida de todos os cristãos, mas funda-se no próprio caráter de Deus (Sl 145:8,9; Lc 6:31-36; 1Jo 4:8). Mas como explicar esse endurecimento, visto que ele leva Faraó a desobedecer a Deus?

ÊXODO 3 (NVI)
18 "As autoridades de Israel o atenderão. Depois você irá com elas ao rei do Egito e lhe dirá: O Senhor, o Deus dos hebreus, veio ao nosso encontro. Agora, deixe-nos fazer uma caminhada de três dias, adentrando o deserto, para oferecermos sacrifícios ao Senhor nosso Deus.
19 Eu sei que o rei do Egito não os deixará sair, a não ser que uma poderosa [ḥāzaq, adj.] mão o force.
20 Por isso estenderei a minha mão e ferirei os egípcios com todas as maravilhas que realizarei no meio deles. Depois disso ele os deixará sair.

ÊXODO 4 (NVI)
21 Disse mais o Senhor a Moisés: "Quando você voltar ao Egito, tenha o cuidado de fazer diante do faraó todas as maravilhas que concedi a você o poder de realizar. Mas eu vou endurecer [ḥāzaq, v., piel, impf.] o coração dele, para não deixar o povo ir.

ÊXODO 6 (NVI)
1 Então o Senhor disse a Moisés: "Agora você verá o que farei ao faraó: Por minha mão poderosa [ḥāzaq, adj.], ele os deixará ir; por minha mão poderosa [ḥāzaq, adj.], ele os expulsará do seu país".


Por um lado, Deus quer libertar o povo hebreu e empregará o meio necessário para isso: seus feitos poderosos; por outro lado, Deus endurecerá o coração do Faraó para que ele não deixe o povo hebreu partir. Mais do que isso, a mesma raiz tri-consonantal (zq) é utilizada para exprimir tanto o endurecimento do coração de Faraó para a escravidão hebréia (como verbo), quanto o fortalecimento da mão de Deus contra Faraó para a libertação deste povo (como adjetivo)!

O tema, na realidade, não é difícil de equacionar, se levarmos em conta adequadamente o significado da raiz zq, significando, propriamente, “forte” ou “fortalecer” (mesma raiz do nome Ezequias, “Yahweh é forte”). Ela não guarda, jamais, algum sentido de maldade, como se “endurecer” o coração de Faraó significasse “torná-lo mau”, mas, antes “torná-lo obstinado”, no sentido de fazer com que Faraó persevere em sua intenção (anterior ao endurecimento) de manter os hebreus como escravos. Nesse sentido, o “obstinar” de Deus é “fortalecer” o coração do Faraó para que este levasse adiante a escolha que já havia feito.

Qual é o propósito de Deus em agir de maneira não linear, ao mesmo tempo “obstinando” o coração do Faraó e forçando-o a libertar o povo? Mostrar sua glória:


ÊXODO 12 (NVI)
12 E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o Senhor.

ÊXODO 14 (NVI)
17 E eis que endurecerei [ḥāzaq, v., piel, impf.] o coração dos egípcios, e estes entrarão atrás deles; e eu serei glorificado [kābad, nifal, impf.] em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros,
18 E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavaleiros.

Assim, o endurecimento do coração levaria o próprio Faraó a um juízo divino, que incluída também a humilhação dos ídolos egípcios. Os egípcios saberiam que Yahweh é Deus. Um juízo semelhante é anunciado por Jeremias, numa época posterior, contra Faraó e os deuses do Egito (Jr 46:26).

Nesse sentido, o endurecimento do coração é um instrumento de juízo divino. Esse juízo se dá não apenas sobre Faraó, mas sobre toda a humanidade. Após declarar o pecado do gênero humano em transformar o conhecimento de Deus em idolatria (Rm 1:18-23), o apóstolo Paulo expressa o juízo divino (Rm 1:24-32): "por isso... os entregou às concupiscências de seus corações... por isso os abandonou às paixões infames... os entregou a um sentimento perverso..." Deus abandona aos homens em razão dos seus pecados; obviamente que esse abandono leva os homens a pecar ainda mais.

O mesmo pode ser dito, inclusive, sobre o ladrão Judas, que foi abandonado a Satanás, cumprindo um desígnio divino (Lc 22:3,22; At 4:27,28), ou os profetas que foram entregues a espíritos mentirosos para que Acabe fosse punido pelo pecado contra Nabote (1Rs 21:19; 22:1-40).

Esse juízo divino tem também uma dimensão escatológica. Deus envia a operação do erro (energeia planēs) aos que tiverem prazer na iniqüidade, para que eles creiam na mentira:

2 TESSALONICENSES 2 (ACF)
10 E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam [dechomai, 3ª p. pl., aor. ind. m.] o amor da verdade [hē agapē tēs alētheias] para se salvarem.
11 E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira;
12 Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade.

Ou seja: como tiveram prazer no pecado, Deus envia-lhes a mentira. Um detalhe importante está no verbo receber (“não receberam”), que no texto da ACF está ambíguo, levando o leitor a entender que o motivo de todo esse pecado e condenação estaria em Deus: Ele não lhes deu amor.

Na realidade, não é esse o significado central do verbo dechomai, que não significa meramente “receber”, mas “receber bem”, “acolher” (pour n'avoir pas accueilli; BJ), “abraçar”; a língua inglesa tem um verbo perfeito para isso: to welcome (“benvindar”). O mesmo verbo mesmos pessoa, número, tempo, modo e voz tem exatamente esse sentido em todos os outros lugares em que aparece, no Novo Testamento (Lc 9:53; Jo 4:45; At 11:1; 17:11). O pecado não é não receber o amor; é não aceitá-lo, não acolhê-lo.

O “amor da verdade” (hē agapē tēs alētheias) é provavelmente um genitivo objetivo (amor à verdade; NVI) ou atributivo (amor verdadeiro). Para evitar a ambigüidade da tradução literal, a NVI traduz ouk edexanto corretamente como rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar”, porque não acolher significa justamente rejeitar.



(G. M. Brasilino)

Nenhum comentário:

Postar um comentário