07/03/15

Morto antes da fundação do mundo? Mais uma vez.



Resolvi escrever outro texto para tratar de Apocalipse 13:8 (leia o anterior clicando aqui). A postagem de dois anos atrás não tratava detalhadamente do raciocínio por trás da correta interpretação e tradução do texto. Há alguns detalhes que, não presentes no texto anterior, permitem ao leitor uma maior certeza da interpretação que aqui se defende.

Antes disso, o leitor precisa se aperceber de uma regra hermenêutica que está o tempo todo por trás de nossa leitura: deve-se reconhecer como correta a interpretação (ou tradução) mais provável. Isso não é uma tautologia, como se eu dissesse que é mais provável ser correta a interpretação mais provável. O que afirmo é exatamente aquilo: a correta é a mais provável. A menos provável é a incorreta. A “pouca probabilidade” não indica que talvez aquela interpretação fosse a certa. A pouca probabilidade indica que com toda certeza aquela tradução não é correta. Tudo, é claro, depende de se identificar qual é mais provável (portanto, a certa) e menos provável (portanto, a errada).

Por que é assim? O fato é que não existe interpretação ou tradução absolutamente correta, que não possa deixar qualquer dúvida, ou que não possa ser torcida em um sentido destoante da intenção do autor original. E o problema realmente não está no tradutor ou intérprete, mas no escritor: a palavra escrita não é capaz de veicular, com toda precisão, tudo aquilo que se pode pensar e que se queira dizer. Sempre que escrevemos um texto, temos uma intenção por trás daquelas palavras. Um texto é claro quando, dentre o conjunto de interpretações possíveis daquelas palavras e sentenças, a mais provável (para o leitor ideal) corresponde à intenção do escritor. Quando a intenção do escritor corresponde a um sentido que é menos provável, o escritor falhou, isto é, não conseguiu se expressar.

Nossa premissa é de que o autor bíblico conseguiu dizer o que queria. Portanto, o sentido de suas palavras é o mais provável dentre os possíveis.

***

O livro do Apocalipse é a representação escrita de um conjunto de visões de João. Os verbos “olhar” e “ver”, tendo João como sujeito, acompanham o leitor do primeiro ao último capítulo. Eles representam não meditações de João, não um ensino doutrinário de João, mas um conjunto de visões com um determinado sentido. Embora essas visões do Apocalipse possam promover nossa meditação, nossa doutrina, nossa teologia, o livro não é isso; é um relato de visões, em que anjos e o próprio Deus se expressam, com poucos comentários por parte do autor.

APOCALIPSE I (ACF)
11 Que dizia: Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o derradeiro; e o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia.

APOCALIPSE XXII (ACF)
7 Eis que presto venho: Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro.
8a E eu, João, sou aquele que vi e ouvi estas coisas.

O Cordeiro, tema de 13:8, é introduzido no capítulo 5:

APOCALISPE V (ACF)
1 E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos.
2 E vi um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos?
3 E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele.
4 E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele.
5 E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos.
6 E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete pontas e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra.

É anunciado um Leão. João olha e vê... um Cordeiro.

A língua grega é rica em particípios, em várias combinações de tempo gramatical e voz. Nossa língua portuguesa, por outro lado, é mais analítica. Sendo distintas as categorias gramaticais pelas quais determinada noção se expressa nas duas línguas, por vezes o tradutor é forçado a verter um particípio em um gerúndio (no caso de particípios ativos) ou em uma oração subordinada.

Havendo sido morto” é tradução do particípio perfeito passivo esphagmenon. Seu sentido literal seria o de assasinado, morto, imolado: “um cordeiro como morto” (arnion … ōs esphagmenon). A composição verbal (três verbos!) fica por conta do tradutor; o propósito é expressar a temporalidade gramatical que é perdida no particípio “morto”.

De toda forma, o que interessa é que este é o texto em que o particípio é introduzido, no livro do Apocalipse: João vê um cordeiro como que morto. A identidade do Cordeiro é óbvia; mas o que interessa não é a identidade, mas a representação do Cordeiro na visão, no seu aspecto gramatical. O texto segue:

APOCALIPSE V (ACF)
7 E veio, e tomou o livro da destra do que estava assentado no trono.
8 E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.
9 E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação;
10 E para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra.
11 E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos animais, e dos anciãos; e era o número deles milhões de milhões, e milhares de milhares,
12 Que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças.


Nesse momento, João introduz introduz o título que depois repetirá em 13:8: to arnion to esphagmenon. O uso atributivo grego acomoda a repetição do artigo definido neutro (to). Aqui, o sentido é: O Cordeiro Morto, O Cordeiro Assassinado, O Cordeiro Imolado. Novamente o tradutor prefere preservar a temporalidade gramatical, embora sacrificando a coesão do relato da visão (pois João não viu a morte do Cordeiro).

Mas a coesão é clara, no texto grego: o v. 12 é dependente do v. 5. João vê um Cordeiro, e passa a chamá-lo “O Cordeiro Morto”, porque é exatamente o que ele . E esse mesmo título ele repetirá em 13:8:

APOCALIPSE XIII (ACF)
8 E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida [?]do Cordeiro que foi morto[?] [?]desde a fundação do mundo[?].

APOCALIPSE XIII (NA27)
καὶ προσκυνήσουσιν αὐτὸν πάντες οἱ κατοικοῦντες ἐπὶ τῆς γῆς, οὗ οὐ γέγραπται τὸ ὄνομα αὐτοῦ ἐν τῷ βιβλίῳ τῆς ζωῆς τοῦ ἀρνίου τοῦ ἐσφαγμένου ἀπὸ καταβολῆς κόσμου.

APOCALIPSE XIII (NA 27 – transliteração)
kai proskynēsousin auton pantes hoi katoikountes epi tēs gēs, hou ou gegraptai to onoma autou en tō bibliō tēs zōēs tou arniou tou esphagmenou apo katabolēs kosmou

João, aqui, repete o mesmo título introduzido em 5:12 e dependente de 5:6: to arnion to esphagmenon, com a diferença de que aqui ele está no caso genitivo (tou arniou tou esphagmenou), ou seja, não “O Cordeiro Morto”, mas “Do Cordeiro Morto”. A locução adverbial temporal da tradução (“desde a fundação do mundo”) não faz referência ao segundo particípio perfeito passivo (esphagmenon, morto), mas ao primeiro (gegraptai, escrito). Como afirmá-lo com segurança?

1. O título to arnion to esphagmenon refere-se não a um conhecimento que João tenha sobre Jesus, mas a visão que ele teve do Cordeiro. João não viu o cordeiro ser morto; viu que o cordeiro parecia ter sido morto. Portanto, dizer que o Cordeiro teria sido morto “desde a fundação” do mundo seria um comentário teológico por parte do próprio João, e não um relato de visão, como o livro pretende ser (Ap 1:11; 22:7,8a). Isso seria, na realidade, uma confusão entre o símbolo (o Cordeiro) e o simbolizado (Jesus), por parte do intérprete.

2. “Desde a fundação do mundo” (apo katabolēs kosmou) não significa “antes da fundação do mundo” (pro katabolēs kosmou, Jo 17:24; Ef 1:4; 1Pe 1:20). Em geral, os que afirmam que a locução adverbial temporal se aplique à morte do cordeiro, parecem ler “antes” onde está escrito “desde” (como que indicando que a morte de Jesus já estava no plano divino antes do mundo ser criado, ou algo do tipo). “Antes” é, a priori, pontual; “desde” expressa uma dilação de tempo em que os efeitos se expressa.

3. Como o tempo perfeito grego (do particípio) expressa uma ação conclusa cujos efeitos perduram no “presente” contextual, e como o sentido da preposição apo é justamente o de enfatizar uma dilação temporal após um determinado evento (indicado pelo genitivo), a implicação seria de que o Cordeiro morreu e está morto desde a fundação do mundo. Absurdo, além de incoerente com a visão do cap. 5. Mas é completamente coerente afirmar-se que os nomes não foram escritos (gegraptai), e, portanto, não estão lá desde a fundação do mundo. Esse sentido está nos demais textos gramaticalmente análogos (particípio perfeito passivo + apo katabolēs kosmou):

MATEUS XIII (ACF)
35 Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas [kekkrymena] desde a fundação do mundo.
Ou seja: As coisas foram escondidas e continuam escondidas (até...).

Mateus XXV (ACF)
34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado [tēn ētoimasmenēn] desde a fundação do mundo;
Ou seja: o Reino foi preparado e continua preparado (até...).

LUCAS XI (ACF)
50 Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado [to ekkechymenon];
Ou seja: o sangue foi derramado e continua derramado (até...).

4. Tentar interpretar a morte “desde a fundação do mundo” como uma referência aos contínuos sacrifícios de cordeiros que se fizeram, buscando respeitar os argumentos 2 e 3 acima, é impossível, pois, novamente, não se enquadra na visão de João (que não tem qualquer relação com sacrifícios do passado, em parte alguma de toda a visão), assim como contradiz EXPRESSAMENTE aquilo que se diz em Hebreus 4:3.

HEBREUS 9:25,26
25 Nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no santuário com sangue alheio;
26 De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.

5. Apocalipse 17:8 é claro sobre a referência de apo katabolēs kosmou, e o contexto é exatamente o mesmo: a adoração da besta. Os dois textos saíram da mesma pena; teria João se esquecido de 13:8 quando escreveu 17:8? Teria sido uma coincidência não intencional?

APOCALIPSE XVII (ACF)
8 A besta que viste foi e já não é, e há de subir do abismo, e irá à perdição; e os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá.

6. Fazer apo katabolēs kosmou referir-se à morte do Cordeiro, e não à escrita dos nomes no livro, faz com que se torne uma informação contextualmente supérflua: uma afirmação sem qualquer ligação com o contexto, com o único propósito de dizer algo sobre o Cordeiro que não havia sido até o momento. Mas se apo katabolēs kosmou refere-se à Escrita, a locução adverbial não apenas se integra no contexto (relaciona-se ao Cordeiro e a nada mais em torno), como também soma-se como elemento de um tema do livro do Apocalipse, enquanto composição literária: o Livro da Vida.

7. Nenhuma outra parte do livro do Apocalipse ou do Novo Testamento ensina tal coisa.

Todos esses motivos gramaticais, textuais, contextuais, literários e canônicos somam-se para estabelecer a tradução correta de Apocalipse 13:8: ...esses cujos nomes não estão escritos, desde a fundação do mundo, no Livro da Vida do Cordeiro Morto.

Há um bônus: essa tradução mostra que é falso e mentirosa a profecia de Ellen G. White, que acreditava ser essa a doutrina correta, conforme o capítulo 4 do livro Patriarcas e Profetas.


(G. M. Brasilino)

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