04/03/15

Meios da Graça



Um dos conceitos mais felizes da eclesiologia e da teologia sacramental é o de “meios da graça”. Os nomes alternativos não tão exatos, não vão direto ao ponto. O latino sacramentum expressa apenas o aspecto de santidade dos meios da graça, o que certamente é essencial, mas não explica suficientemente sua função e seu lugar na salvação; o grego mystērion, por outro lado, embora seja esteticamente melhor e aponte para uma primazia apostólica (1Co 4:1; ōs... oikonomous mystēriōn theou), é demasiado genérico.


A definição clássica de sacramento, que em última instância deriva das palavras de Agostinho no De catechizandis rudibus (caps. 19 e 26), é a de que ele é o “sinal exterior de uma graça interior”. Essa definição é igualmente utilizada por católicos e protestantes; está presente literalmente no Concílio de Trento (13ª sessão, cap. III), assim como é parafraseada nos 39 Artigos de Religião da Igreja Anglicana (art. XXV) e na Confissão de Fé de Westminster das igrejas presbiterianas (cap. XXVII, 1), além de ser consistente com a definição da Confissão de Fé de Augsburgo das igrejas luteranas (art. V).


Há discussões sobre a relação entre o “sinal exterior” e a “graça interior”, mas creio que elas se apoiam em incompreensão: a doutrina católica romana é interpretada como se implicasse em algum poder mágico no sacramento (porque o protestante, pensando na fórmula ex opere operato, coloca na definição de sacramento o conceito monergístico de graça). O católico enfatiza a promessa divina atrelada ao sinal, independente da santidade do ministro; o protestante enfatiza a fé necessária para o gozo da graça concedida. A duas coisas são verdadeiras: estão lado a lado em Colossenses 2:12 (cf. Rm 6:1-7). O problema está não no sentido da definição conceitual, mas na definição extensional: quais ações confiadas à Igreja são sacramentos e quais não são.

A expressão “meios da graça”, ao mesmo tempo que atinge o núcleo essencial desses sinais genericamente considerados, é tão simples que quase dispensa explicação, além de permitir uma maior confirmação nas Escrituras. Desde que entendamos o que é um “meio” e o que é “graça”, a coisa se dá por explicada: os “meios da graça” não estão em competição com a “graça livre”. Pelo contrário, são formas de encarnação da graça: Deus concede à Igreja a administração de meios pelos quais os homens chegam à graça. Meio da graça é, então, qualquer veículo em que a graça de Deus se transmita; ela não está limitada a esses meios, mas está vivamente e eficazmente presente neles. Por exemplo:

EFÉSIOS IV
29 Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.

A palavra de edificação, isto é, a exortação, a parênese, transmite a graça de Deus aos que ouvem; quando o Evangelho é anunciado, ele é o veículo pelo qual Deus prometeu realizar sua graça. É um meio da graça. Isso se aplica não apenas à exortação, mas também a todos os dons que Deus concedeu à Igreja, que devem ser ministrados aos demais (1Pe 4:10,11; cf. Ef 3:2).

Qualquer adepto da doutrina batista do memorialismo (segundo a qual a Comunhão é apenas um memorial, e não confere graça, mas apenas a comemora), deparando-se com Efésios 4:29, deve meditar: se a ordenança da Ceia do Senhor “anuncia” ou “evangeliza” a morte de Jesus (ton thanaton tou kyriou kataggellete; 1Co 11:26), então ela é o meio iminentemente qualificado a “conced[er] graça aos que ouvem”. É claro que isso não resolve toda as questões da teologia sacramental, mas abre ao memorialista as portas para uma compreensão realista das palavras do Apóstolo Paulo em 1ª Coríntios 10:16,17.



(G. M. Brasilino)

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