13/03/15

Julgamento das Nações: o erro dispensacionalista sobre Mateus 25:31-46

MATEUS XXV (ARA)
31 Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória;
32 e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas;
33 e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda;
34 então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.
35 Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes;
36 estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.
37 Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?
38 E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?
39 E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?
40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
41 Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.
42 Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
43 sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.
44 E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos?
45 Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.
46 E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.


Segundo uma interpretação dispensacionalista de Mt 25:31-46, o texto se aplicaria a um “julgamento das nações”: quando Jesus retornasse à terra para estabelecer seu Reino, reuniria diante de si todas as “nações”. Entrariam no seu Reino Milenial aquelas nações que tivessem apoiado Israel; estariam fora (condenadas) desse Reino as que se opusessem a Israel.

Ovelhas = Nações que Ajudaram Israel -> Reino Milenial

Bodes = Nações que rejeitaram Israel -> Fogo Eterno

Isso se fundamenta na hermenêutica que o dispensacionalista afirma adotar: interpretar as profecias bíblicas o mais literalmente possível. Ora, cada vez que as Escrituras descrevem o Juízo Final, usam linguagens diferentes e inconsistentes. Isso seria uma prova de que essas profecias não deveriam ser tomadas ao pé da letra. Mas como o dispensacionalista insiste que sejam, sua saída é dizer que os textos se referem a eventos diferentes dentro do projeto divino.

O dispensacionalismo é prolífico em multiplicar juízos de Deus: há o Julgamento das Nações, o Tribunal de Cristo, o Trono Branco, e sei lá qual outro. Também, aliás, multiplica ressurreições: há pelo menos três ressurreições de cristãos no sistema dispensacionalista pré-tribulacionista (dos cristãos que morreram antes do “arrebatamento”, dos que se converteram ao fim dos sete anos da “Grande Tribulação”, dos que se convertem durante o “Milênio”). O carnaval escatológico dispensacionalista é uma prova de que essa premissa hermenêutica é falsa.

Mas nenhum dispensacionalista usa a premissa hermenêutica consistentemente; usam quando querem. Aplicada ao texto de Mateus 25:31-46, as conclusões são inteiramente diferentes do que o dispensacionalismo afirma.

Onde está o erro dispenacionalista? O centro do erro é a ignorância sobre a diferença de significado da expressão “nação” entre os tempos de Jesus e os nossos.

Quando dizemos “nação”, hoje, em geral nos referimos a estados nacionais. O estado nacional é uma invenção moderna, fundada na noção de “autodeterminação dos povos”. A idéia é de que cada nação está ligada a um estado. Por isso, quando o dispensacionalista fala em julgamento das nações, pensa nas decisões que os estados tomaram: apoiar ou opor-se a Israel. Introjeta-se na Escritura uma noção que é moderna, e que inexistia na época de Jesus. Havia estados (basileiai) e havia nações (ethnē), mas não havia nenhuma associação rígida entre essas duas coisas, de modo que pensar uma nação implicasse em pensar um estado. A idéia moderna de estado nacional induz o leitor dispensacionalista a uma associação inexistente para o escritor.

No texto, “todas as nações” significa simplesmente “todos os gentios” (panta ta ethnē). Quando Jesus manda aos doze discipular “todas as nações” (Mt 28:19), batizando e ensinando, não quer dizer que se deveria discipular estados; os indivíduos seriam discipulados. É evidente que a expressão traz uma carga nacional, mas não se refere a nações consideradas abstratamente; refere-se aos indivíduos, coletivamente considerados enquanto membros de uma dada nação.

É claro que o dispensacionalista percebe o absurdo em que as nações sejam julgadas genericamente e as ações dos indivíduos, ignoradas. O que acontece com aquele indivíduo que tenha apoiado Israel, mas que seja parte de uma nação contrária a Israel? Diante da flagrante injustiça que a sua “interpretação” atribui ao juízo divino, o dispensacionalista sincero muda automaticamente de discurso: agora é um juízo de indivíduos, não mais de nações. O que o ele não percebe é que isso invalida toda a interpretação dispensacionalista de Mt 25:31-46.

Como se interpreta literalmente o texto acima? O esquema é simples:

Ovelhas = Ajudaram os pequeninos -> Vida Eterna

Bodes = Não ajudaram os pequeninos -> Fogo Eterno

A identidade dos pequeninos é clara alhures: trata-se dos discípulos de Jesus (Mt 10:40-42). Somente uma fantasia eisegética permite supor que esses "pequeninos irmãos" são o estado moderno de Israel. Jesus deixa clara a identidade dos seus verdadeiros irmãos (Mt 12:50).

Para o dispensacionalista, essas “nações” não alcançarão a vida eterna. Durante o reino milenial, elas serão mortais. E, se o dispenacionalista quiser mudar sua interpretação, afirmando que essas nações que apoiaram Israel receberão a vida eterna, tem que mudar toda a concepção dispensacionalista de milênio: não haverá mais mortos durante o milênio. E se não haverá mais mortos, todos os textos que falam de mortos durante esse milênio não podem se aplicar a Mt 25:31-46! Nem faz qualquer sentido Satanás tentar e seduzir pessoas que já alcançaram a vida eterna!

Noutras palavras, quando o dispensacionalista insere um milênio após o julgamento de Mateus 25:31ss, ele rompe com a clara doutrina dos dois séculos (Lc 20:34-36; 1Co 15:22-28,51-55): o presente (onde há morte e casamento) e o vindouro (onde não há morte nem casamento), mediados pela ressurreição e pela vitória sobre os últimos inimigos. E pelo Juízo Final.

(G. M. Brasilino)

Nenhum comentário:

Postar um comentário