09/03/15

A Videira Verdadeira (contra arminianos e calvinistas)


O Evangelho de João tem duas alegorias: A alegoria do Pastor (João 10) e a alegoria da Videira (João 15). As duas se assemelham às parábolas dos evangelhos sinóticos em que a imagem é inspirada no ambiente rural (pastoril e agrícola); divergem dos sinóticos na medida em que seu tema não é mais o Reino de Deus encarnado na figura de Jesus, mas o próprio Jesus enquanto fonte de vida.

A imagem da alegoria da Videira é relativamente simples: o Pai é o agricultor. Jesus é a videira, os discípulos são os ramos; se os ramos estão na videira, darão fruto; se são tirados dela, serão cortados (vv. 1,2). Os vv.3-17 são todos uma expansão e um comentário desta imagem básica.

A leitura mais simples desse texto é incompatível tanto com o arminianismo quanto com o calvinismo, as duas propostas soteriológicas mais populares nas igrejas protestantes. O motivo é a sentença do v. 16: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros” (v. 16, ARA).

Os arminianos e vários calvinistas geralmente interpretam esse “vades e deis fruto” como uma eleição meramente vocacional/ministerial: Jesus escolheu, dentre os seus seguidores, aos doze apóstolos para evangelizarem; não teria relação com a salvação individual. Introduzimos no texto o sentido da palavra “fruto” geralmente presente na maior parte do linguajar cristão evangélico.

Essa interpretação é impossível; “frutos” não indica o cumprimento de um ministério particular, e não é difícil comprovar. O mesmo tema é repetido sob vários ângulos do começo ao fim do texto. A comparação entre as repetições mostra o significado de cada um dos seus elementos:

v. 5
(ARA)
v. 7
(ARA)
vv. 9,10
(ARA)
v. 16
(ARA)
5 Eu sou a videira, vós, os ramos.

9 Como o Pai me amou, também eu vos amei;
16 Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros
Quem permanece em mim, e eu, nele,

7 Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós,
permanecei no meu amor.
10 Se guardardes os meus mandamentos,

esse dá muito fruto;


e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça;
porque sem mim nada podeis fazer.
pedireis o que quiserdes, e vos será feito.
permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço.
(cf. 14:21; 16:26,27; etc)
a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.

Foi escolhida a tradução ARA (Almeida Revista e Atualizada) por um motivo simples: as versões ARC (Revista e Corrigida) e ACF (Corrigida e Fiel), cometem um erro, ao traduzir continuamente o verbo menō como “estar”, em vez do correto: “permanecer”, “continuar”. Outras traduções, como a NVI, acertaram o verbo.

Essa comparação estabelece a relação contextual que, como que numa espiral, procede até chegar ao seu cume: a escolha procede do próprio Cristo. Quem permanece na Videira dá muito fruto (v. 5), mas quem não permanece, é lançado ao fogo (v. 6). Aqui repete-se, de certo modo, o tema de Ezequiel 15:5: a madeira da videira é a mais adequada para o fogo, e este é seu destino óbvio, se não der fruto.

Permanecer na Videira → Muito fruto

Não permanecer na Videira → Fogo

Os galhos vivos permanecem e frutificam; os galhos “mortos”, infrutíferos, são destruídos. O fruto, então, representa, na realidade, a salvação em sentido amplo, isto é, com tudo aquilo que ela realiza.

O detalhe importante, já assinalado acima, é que os galhos a serem lançados ao fogo eram parte da Videira; estavam nela. Foram amados pelo Pai e pelo Filho, e por isso são instadas a permanecerem nesse amor. De trás para frente (do centro para as pontas, na espiral): quem guarda os mandamentos, permanece no amor; quem permanece no amor, permanece na Videira; quem permanece na Videira, dá muito fruto; quem dá muito fruto, não é lançado ao fogo. Na Escrituras, o fogo é quase sempre símbolo de destruição (quando não de acrisolamento e purgação, o que não se encaixa aqui).

Há ramos que são parte da Videira, que recebem a mesma seiva, mas que ao fim serão destruídos, por não darem fruto; foram amados pelo Pai e pelo Filho, mas não permaneceram nesse amor. Não permaneceram, isto é, não perseveraram!

Por outro lado, são parte da Videira apenas aqueles que foram escolhidos pelo Pai e pelo Filho. O motivo pelo qual arminianos e calvinistas dão as mãos nessa interpretação (escolha para ) é que, se o texto se refere à salvação, o texto ao mesmo tempo constitui uma afirmação da eleição incondicional e uma negação da perseverança dos santos; nenhum arminiano ou calvinista estaria disposto a esse “movimento”!

(G. M. Brasilino)

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