22/02/15

O pecado contra o Espírito Santo não é a obstinação




Jesus disse que há um pecado para o qual não há perdão: a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12:24-32; Mc 3:22-30; Lc 12:10). A julgar por seus escritos, a maioria dos cristãos de toda as épocas — católicos, ortodoxos ou protestantes — parece crer que o pecado a que Jesus se refere é a obstinação, a recusa de arrepender-se diante do chamado divino e da ação divina. Essa interpretação é sugerida pelo Catecismo da Igreja Católica nas seguintes palavras:

§1864. «Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada» (Mt 12, 31) (100). Não há limites para a misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo (101). Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna.

Essas palavras representam o mesmo sentido dado ao texto pelos protestantes e ortodoxos de todo o mundo e de todas as épocas. Não há nada no texto que indique ser essa a interpretação correta. Ela é uma forma de alegorização muito próxima daquele tipo de interpretação alegórica praticado por alguns dos pais da Igreja: faz-se com que um texto que trata de um tema específico expresse alguma dimensão da proclamação cristã em geral.

Os textos estão na tabela sinóptica a seguir. Um detalhe importante para a leitura é que Lucas divide em duas partes o texto: de um lado, a resposta de Jesus aos fariseus sobre a origem de seu poder de expulsar demônios (11:15-23); de outro, a sentença sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo (12:10). Ademais, há um conjunto de detalhes que Mateus e Lucas adicionam conjuntamente ao texto.


MATEUS 12:24-32
MARCOS 3:22-30
LUCAS 11:15-23; 12:10
24 Mas os fariseus, ouvindo isto, diziam: Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios.

22 E os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: Tem Belzebu, e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios.
11:15 Mas alguns deles diziam: Ele expulsa os demônios por Belzebu, príncipe dos demônios.



16 E outros, tentando-o, pediam-lhe um sinal do céu.
25 Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.
26 E, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino?
23 E, chamando-os a si, disse-lhes por parábolas: Como pode Satanás expulsar Satanás?
24 E, se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode subsistir;
25 E, se uma casa se dividir contra si mesma, tal casa não pode subsistir
26 E, se Satanás se levantar contra si mesmo, e for dividido, não pode subsistir; antes tem fim.
17 Mas, conhecendo ele os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino, dividido contra si mesmo, será assolado; e a casa, dividida contra si mesma, cairá.
18 E, se também Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Pois dizeis que eu expulso os demônios por Belzebu.




27 E, se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam então vossos filhos? Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes.
28 Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus.

19 E, se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos filhos? Eles, pois, serão os vossos juízes.
20 Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente a vós é chegado o reino de Deus.
29 Ou, como pode alguém entrar em casa do homem valente, e furtar os seus bens, se primeiro não maniatar o valente, saqueando então a sua casa?
27 Ninguém pode roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa, se primeiro não maniatar o valente; e então roubará a sua casa.
21 Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem;
22 Mas, sobrevindo outro mais valente do que ele, e vencendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que confiava, e reparte os seus despojos.
30 Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.

23 Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.
31 Portanto, eu vos digo: Todo o pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens.
32 E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro.
28 Na verdade vos digo que todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, e toda a sorte de blasfêmias, com que blasfemarem;
29 Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo
12:10 E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoada, mas ao que blasfemar contra o Espírito Santo não lhe será perdoado.

30 (Porque diziam: Tem espírito imundo).



O pecado é descrito como:

* Mateus: “falar contra o Espírito Santo” (eipē kata tou pneumatos tou hagiou)
* Marcos: “blasfemar contra o Espírito Santo” (blasphēmēsē eis to pneuma to hagion)
* Lucas: “blasfemar contra o Espírito Santo” (to hagion pneuma blasphēmēsanti)

Enquanto Marcos é mais genérico (“todos os pecados... e toda a sorte de blasfêmias”), tanto Mateus quanto Lucas colocam o referido pecado em oposição a dizer “alguma palavra contra o Filho do homem”. Há algo no texto sobre negar o arrependimento? Há algo sobre a salvação oferecida no Espírito Santo? Algo se diz sobre recusar a misericórdia de Deus? Nada, nada, nada.

O texto não impõe absolutamente nenhuma dificuldade textual: em Mateus, em Marcos e em Lucas (mesmo que neste o confronto de Jesus contra os fariseus/escribas esteja deslocado), a questão não é um “pecado contra o Espírito Santo”, mas a “blasfêmia contra o Espírito Santo”. Mateus parafraseou Marcos, mas incidiu no mesmo sentido. Aquele que falar contra o Espírito Santo jamais será perdoado.

Como é possível que um texto tão claro, sem qualquer dificuldade textual, sem qualquer dificuldade de tradução, sem linguagem truncada, tenha recebido de tantos teólogos de todos os tempos um sentido tão diferente, em que “falar contra o Espírito Santo” na realidade significaria “resistir ao Espírito Santo”?

É um escândalo: blasfêmia realmente significa... blasfêmia.

A interpretação literal é incômoda, porque parece levar a conseqüências indesejadas. Como é possível que o único pecado imperdoável seja um ato de fala, algo que pode ser feito num momento de irresponsabilidade? A obstinação não é muito mais séria? Como lidar, no processo de evangelização, com os não cristãos que tenham já dito algo contra o Espírito Santo? Não é muito fácil que algum ateu militante já tenha “falado contra” o Espírito Santo? O que fazer com alguém que, sendo hoje cristão e demonstre os frutos do Espírito Santo, já tenha anteriormente “falado contra” o Espírito Santo? Diremos ser mentiroso alguém que expresse arrependimento após ter blasfemado contra o Espírito Santo? Condenaremos?

Pretendo apresentar uma alternativa que ao mesmo tempo leve a sério o significa das palavras do texto bíblico e que evite essas conseqüências indesejadas. Tanto a interpretação tradicional quanto a eu pretendo fornecer a seguir são especulativas. Os intérpretes tradicionais especulam que “blasfemar contra o Espírito Santo” ou “falar contra o Espírito Santo” na realidade significa resistir à ação do Espírito Santo, obstinar-se contra o Espírito Santo, recusar a ação salvífica do Espírito Santo. Assim, essa especulação produz uma tautologia: aquele que recusar definitivamente a salvação será condenado.

Ambas as opções lidam com a frase: “se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado...”. A interpretação tradicional especula um significado alternativo para o “falar contra”. Afirmo que “falar contra” significa realmente falar contra; aliás, os contextos de Mateus e, principalmente, de Marcos, deixam-no absolutamente claro: o que motivou a Jesus foi que seus interlocutores “diziam: Tem espírito imundo.” (Mc 3:30). Se é verdade que esses interlocutores resistiram à ação salvífica do Espírito Santo (“vós sempre resistis ao Espírito Santo”, At 7:51), também é verdade que esse assunto não é discutido em nenhuma parte do texto.

Assim, não há nenhum motivo textual para achar que “falar contra” ou “blasfemar” não signifiquem exatamente, e há motivos a favor. Creio que o problema se encontre não no “blasfemar”, mas no “perdoar”. É óbvio que o agente do perdão é Deus (passivo divino), mas creio que esse texto se refira ao perdão dos pecados cometidos por ignorância: Deus pode perdoar uma blasfêmia contra o seu Filho cometida ignorantemente, mas não uma blasfêmia contra o Espírito Santo cometida ignorantemente. Ainda assim, todo pecado, inclusive uma blasfêmia contra o Espírito Santo, pode encontrar perdão mediante o arrependimento; não há pecado que o sangue de Cristo não possa limpar. Assim, esse seria o único pecado que não acharia perdão sem arrependimento.

Parece estranho falar em perdão sem arrependimento. Sabemos que devemos nos arrepender de todos os pecados, e que qualquer pecado não arrependido pode nos condenar. Mas não é difícil observar casos de perdão sem arrependimento: o salmista pede a Deus que o purifique dos pecados cometidos ignorantemente (Sl 19:12); para esses pecados não é possível um arrependimento atual, embora haja certamente, por trás dessa petição, prontidão para o arrependimento, um arrependimento potencial.
Mas em alguns momentos as Escrituras esboçam o conceito que poderíamos chamar confissão vicária ou arrependimento vicário (esta última expressão é problemática, por não se tratar de um arrependimento literal, embora haja um pesar pelo pecado). Ocorre várias vezes nas orações dos profetas e sábios do Antigo Testamento, como Salomão, Jeremias, Daniel ou Neemias: o homem de Deus pede que Deus perdoe um pecado que ele não cometeu, geralmente o pecado disseminado entre o povo israelita. De fato, esse era o trabalho do Sumo Sacerdote do Antigo Testamento, que intercedia pelo pecado de todo o povo.

No Novo Testamento, tanto Jesus quanto Estêvão oram para que Deus perdoe e não impute pecado àqueles que os matavam (Lc 23:34; At 7:60). Orar pelos pecados alheios é um elemento essencial da missão sacerdotal da Igreja, uma exigência fundamental da doutrina do sacerdócio de todos os cristãos (1Pe 2:4-9; Ap 1:4-6; 5:6-10). Se todos os cristãos são sacerdotes, todos tem função de interceder pelo pecado alheio, incluindo o pecado daqueles a quem não podemos exortar ou repreender diretamente.

15 E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe fizemos.
16 Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore.
17 Toda a iniqüidade é pecado, e há pecado que não é para morte.
(1João 5:15-17)

Embora o conceito de “blasfêmia contra o Espírito Santo” não esteja presente em nenhum texto da literatura joanina (o Evangelho e as epístolas), esse texto se encaixa perfeitamente na interpretação aqui proposta. Há um pecado para a morte; o discípulo amado não nos diz que pecado seja esse. Mas diz-nos que, pelas nossas orações, os nossos irmãos que pecarem encontrarão graça. A exceção é somente esse pecado.


(Gyordano Montenegro Brasilino)

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