20/02/15

O Governo Episcopal



 A Reforma Protestante levantou muitas questões de natureza doutrinária (o que a Igreja deve ensinar), litúrgica (como a Igreja deve adorar) e ética (como a Igreja deve agir), mas também administrativa: como a Igreja deve funcionar. Ela perguntou: a hierarquia católica romana medieval reproduz aquilo que se observa no Novo Testamento, ou as mudanças descaracterizaram a forma original?

O protestantismo histórico conhece três modelos: o governo congregacional, o governo presbiteriano e o governo episcopal. Essas formas de governo guardam uma óbvia relação com o governo secular: o governo congregacional é democrático, o governo presbiteriano é aristocrático, o governo episcopal é monárquico. Enquanto o governo congregacional e o governo presbiteriano foram imaginados e criados pelos Reformadores (a partir de uma certa interpretação das Escrituras), o governo episcopal é uma herança da Igreja anterior, que não conhecia outra forma de governo.

Afirmo aqui que a forma bíblica de governo da Igreja é episcopal. Com isso não quero dizer que o governo episcopal seja igualmente claro em todo o Novo Testamento, nem que ele tenha sido o governo da Igreja desde o começo. Houve desenvolvimento durante a era apostólica e houve desenvolvimento após a era apostólica. Por fim, não quero dizer que o governo episcopal seja o melhor em todas as situações, nem que outras formas eclesiais sejam espiritualmente vazias. Quero dizer apenas que as notas fundamentais do governo episcopal são bíblicas, e as notas fundamentais dos dois outros modelos não são. O argumento, porém, é resumido, e não é de modo algum inovador; repete superficialmente alguns elementos da defesa do bispo Ray Sutton, anglicano (ver aqui).

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O governo episcopal é caracterizado por três ordens, em ascendência de autoridade: diáconos, presbíteros e bispos. O que caracteriza o governo episcopal não é o uso dos três nomes clássicos (diácono, presbítero e bispo), mas a existência orgânica dessa relação entre funções. As igrejas metodistas, por exemplo, podem chamar ao membro da terceira ordem de superintendente, sem que isso deixe de ser um governo episcopal. Nas Igrejas romanas e ortodoxas de língua portuguesa, o presbítero é chamado padre; nas Igrejas anglicanas em países de língua inglesa, ele é chamado priest (sacerdote). O que está em jogo não é a nomenclatura.

Sem esse esclarecimento, não é possível observar o governo episcopal no Novo Testamento, porque a nomenclatura neotestamentária diverge da nomenclatura tradicional. Não obstante, a divergência de palavras mantêm uma identidade de forma fundamental. Pretendo utilizar a nomenclatura ocidental clássica e simplificada.

Dentre essas três ordens, a figura fundamental é o bispo. Cada diocese (ou bispado, ou eparquia) tem um bispo governante, como um monarca. É costume que a diocese corresponda a uma região do governo secular: Diocese de tal lugar. Abaixo do bispo, respondendo a ele, há um número de ministros responsáveis pela supervisão espiritual, litúrgica e sacramental (principalmente batismo e comunhão, mas também confissão) de congregações, chamados presbíteros (ou párocos). Uma congregação (paróquia) pode ter um ou mais de um presbítero, de acordo com as necessidades. Além disso, um presbítero pode ser responsável por outra função não paroquial necessária à Igreja, como auxiliar diretamente o bispo.

Sendo o mundo dividido em dioceses, cada bispo é responsável pela Igreja daquela região. Então há congregações (paróquias), pastores das congregações (presbíteros) e um pastor dos pastores (bispo). O bispo é responsável pela admissão e ordenação (por imposição de mãos), assim como pela disciplina (por má conduta), desses presbíteros. Há, além disso, figura do diácono, um ministro ordenado responsável pelo serviço da Igreja, especialmente na administração de seus bens e no cuidado dos necessitados, de modo que os pastores possam se dedicar mais diretamente às necessidades espirituais do rebanho. As três formas de governo reconhecem a figura do diácono, então o foco do argumento deve estar na distinção e relacionamento entre presbíteros e bispos.

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Jesus escolhe doze discípulos, dá-lhes instrução, autoridade e uma missão: evangelizar o mundo (“ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”, Atos 1:8). Eventualmente um dos doze trai a Jesus e se suicida; segundo as Escrituras, ele é posteriormente substituído por outro que andara com Jesus e que poderia testemunhar de sua ressurreição (Atos 1:21-26). A figura dos doze é especial no Novo Testamento: seu número está diretamente relacionado à sua função como Novo Israel enquanto símbolo das doze tribos (Mt 19:28; Lc 22:30), e são lembrados de modo especial na Jerusalém Celeste: “E o muro da cidade tinha doze fundamentos, e neles os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro” (Ap 21:14).

Mas o Novo Testamento reconhece como apóstolos e missionários não somente os doze, mas também muitos outros; o mais famoso é Paulo, diretamente comissionado por Jesus. Essas figuras eram responsáveis pelo avanço do Evangelho e implantação de novas igrejas locais. Não se deve enfatizar exageradamente o uso a etimologia do “apóstolo” como “enviado” (do verbo apostellō); muitas vezes trata-se deu um nome “técnico”: Jesus lhes “deu o nome de apóstolos” (apostolous ōnomasen, Lc 6:13). A maior prova disso é Tiago, irmão do Senhor, também chamado apóstolo (Gl 1:19); não há evidência de que ele haja saído da Igreja de Jerusalém como missionário.

Juntamente com esses que são diretamente chamados apóstolos, há um conjunto de outros corresponsáveis por implantação de Igrejas e evangelização, nomeados “cooperadores “ (synergoi) principalmente nas epístolas paulinas (Atos 13:5; Rm 16:3,9,21; 2Co 8:23; Fp 2:25; 4:3; Cl 4:10,11; 1Te 3:2; Fm 1,24). Nessas listas temos os nomes de João Marcos, Priscila, Áqüila, Urbano, Timóteo, Tito, Epafrodito, Clemente, Aristarco, Jesus Justo, Filemom, Demas, Lucas, mas certamente havia muitos outros. Para efeitos do que se discute aqui, os synergoi mais importantes são Timóteo e Tito, porque nas epístolas pastorais (1 & 2 Timóteo, Tito) eles adquirem relativa independência, discutida abaixo.

Um traço comum une os apóstolos e cooperadores: na maior parte do tempo eles estão em movimento. Jesus deu-lhes uma ordem: ser testemunhas “até os confins da terra”. Por isso, as igrejas locais, fundadas por esses apóstolos, precisariam ser pastoreadas por outras pessoas, que receberam, por imposição de mãos, autoridade espiritual. A essas pessoas o Novo Testamento chama anciãos ou presbíteros (presbyteroi) ou bispos (episkopoi). Essas duas expressões são coincidentes no Novo Testamento. O apóstolo Paulo chama bispos às mesmas pessoas que o narrador chama presbíteros/anciãos: os pastores da Igreja de Éfeso (Atos 20:17,28). O próprio apóstolo Pedro chama si mesmo presbítero (1Pe 5:1), o que valeria também para João (2Jo 1; 3Jo 1). Essas são apenas algumas evidências da identidade.

É aqui que ocorre a confusão de palavras: presbyteroi (anciãos) e episkopoi (supervisores) eram expressões sinônimas na linguagem do cristianismo primitivo, os defensores de formas de governo não episcopais deduzem que só havia um ofício: o de presbítero. Isso anularia a distinção “posterior” entre bispos e presbíteros, característica do governo espicopal.

Mas esse argumento é falho, exatamente porque presume que o governo episcopal só é bíblico se o Novo Testamento utilizar a mesma linguagem do episcopado histórico e clássico. Mas a linguagem do Novo Testamento é fluida e dinâmica em todos os aspectos de sua teologia. Pode-se utilizar o mesmo argumento para dizer que só há uma ordem, visto que o apóstolo Paulo chama a si mesmo diakonos, fazendo o mesmo com respeito aos cooperadores do evangelho e Jesus (Rm 15:8; 16:1; 1Co 3:5; 2Co 3:6; 6:4; 11:23; Ef 3:7; 6:21; Cl 1:7,23,25; 4:7; etc). O importante não é qual palavra era utilizada, mas a estrutura real em que a hierarquia eclesiástica se definia.

É verdade que o Novo Testamento conhece uma bifurcação ministerial entre episkopoi e diakonoi (Fp 1:1), os primeiros responsáveis pela palavra e pela oração, enquanto os últimos pelo serviço da Igreja, em analogia com os sacerdotes e levitas do Antigo Testamento. A analogia só é perfeita, porém, quando lembramos da figura singular do sumo sacerdote.

Quando observamos o Novo Testamento, vemos que são chamados presbyteroi todos aqueles que trabalhavam na pregação do Evangelho: apóstolos, cooperadores, ministros locais. Entretanto, é óbvio e patente que eles não estavam todos no mesmo nível. Os presbyteroi de Jerusalém não estavam no mesmo nível de Tiago (At 21:18s). Do mesmo modo, aqueles ministros locais, ordenados por Paulo e Barnabé (At 14:21-23), não se tornaram, da noite para o dia, presbíteros de mesmo grau; eles ainda estavam debaixo da autoridade apostólica.

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Como podemos ter certeza de que era exatamente esse o governo da Igreja, planejado mesmo para o período posterior à morte dos doze apóstolos (que claramente tinham autoridade superior à dos presbyteroi ordenados por eles)? Há duas evidências interessantes, que creio serem : uma delas vem do livro do Apocalipse, e a outra das cartas pastorais.

A Igreja de Éfeso tinha vários presbyteroi/episkopoi (Atos 20:17,28), que eram, sem dúvida, pastores dos cristãos daquele lugar. Mas quando lemos o livro do Apocalipse, notamos que aquela Igreja, assim como todas as outras seis Igrejas locais, tem apenas um anjo, que responde por toda aquela região. A única forma de manter a identificação do aggelos de cada Igreja com o seu pastor (o ministro de Deus responsável por aquele lugar) é concluir que, dentre os presbyteroi, deve haver um de maior autoridade, o que posteriormente se chamaria bispo. Essa identidade é especialmente importante quando observamos que a estrela é, ao mesmo tempo, símbolo desses pastores únicos (Ap 1:16,20) e dos apóstolos (Ap 12:1).

A nomenclatura utilizada pelo livro do Apocalipse é inteiramente coerente tanto com os escritos mais antigos do Novo Testamento, reconhecendo a unidade de todos os cristãos de uma localidade (“igreja dos tessalonicenses”, 1Te 1:1; 2Te 1:1; “igreja dos laodicenses”, Cl 4:16), isto é, a existência de uma Igreja geograficamente unida, assim como a prática da Igreja do século II, da união de paróquias em uma diocese. A Igreja de Laodicéia era composta de uma pluralidade de congregações, incluindo-se aquela na casa de Ninfa (Cl 4:15), que deveria ter seu próprio pastor; mas, segundo o Apocalipse, toda a cidade tinha apenas um anjo.

Mas quando tratamos do livro do Apocalipse especulamos desde fora. Nas cartas pastorais, vê-se que Timóteo e Tito, tratados como synergoi pelo apóstolo Paulo, tinham uma autoridade especial e distinta daquela dos presbyteroi/episkopoi comuns (“párocos”). Timóteo é incumbido de Éfeso, e Tito foi deixado em Creta. Como já mostrado acima, Éfeso tinha vários presbyteroi/episkopoi; Timóteo recebeu a incumbência de ordenar mais deles, e tinha autoridade para, sozinho, fazê-lo por imposição de mãos (1Tm 5:22). O mesmo ocorre com Tito em Creta. Claramente Timóteo e Tito tinham uma autoridade especial sobre os presbíteros desses lugares. Timóteo tinha o controle do tesouro da Igreja de Éfeso, pois decidia quais viúvas poderiam receber auxílio (1Tm 5:9,16) e a remuneração dos presbíteros (1Tm 5:17); ele inclusive era capaz de decidir e aplicar disciplina aos presbíteros por má conduta (1Tm 5:9,20).

Timóteo e Tito, como os demais, eram presbíteros de segundo grau, com um poder maior, mesmo sobre igrejas que eles não fundaram, mas que foram fundadas por um apóstolo com quem cooperavam. Os apóstolos chamavam aos demais presbíteros de segundo grau (“bispos”) com um termo não técnico, cooperadores, synergoi. Mas esse termo só faz sentido enquanto os apóstolos estavam vivos. Com a morte dos apóstolos, surgiu naturalmente a necessidade de um nome mais específico e estático para esse grupo de pessoas com poder de ordenar ministros, um nome que expressasse sua função. Entre presbyteros e episkopos, este último tem grande preferência, dada à noção de superioridade transmitida pela preposição epi (“sobre”, equivalente ao latim super, como em supervisor), de modo que o próprio Deus é chamado de episkopos de nossas almas (1Pedro 2:25).

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Inácio de Antioquia, discípulo do apóstolo João que viveu não muito tempo depois do período neotestamentário, já distinguia os três ministérios e utilizava a terminologia clássica. Assim, não é difícil ver a correspondência por trás da diversidade de nomes:

ERA APOSTÓLICA (séc. I)
ERA PÓS-APOSTÓLICA (séc. II)
Apóstolos, cooperadores, episkopoi, presbyteroi, diakonoi
episkopoi (bispos)
episkopoi, presbyteroi, diakonoi
presbyteroi (presbíteros)
diakonoi
diakonoi (diáconos)

Os apóstolos nunca deram instrução direta e escrita sobre o modo como a Igreja deveria ser governada posteriormente; tudo é tratado tangencialmente. Eles simplesmente não estavam preocupados com a forma de governo, porque os seus synergoi iriam continuar a obra. Como observado, Timóteo e Tito tinham autoridade especial equivalente ao que posteriormente se chamou bispo, uma autoridade que outros presbíteros não tinham; é absurdo afirmar que essa autoridade especial desapareceu quando os demais apóstolos morreram.


É claro que ocorreram mudanças na transição do século I para o século II, mas essa mudança não distorceu a forma de governo original. No começo da Igreja, dada a necessidade de avanço do evangelho, os “bispos” eram principalmente missionários, que fundavam igrejas locais, ordenavam ministros locais e então dirigiam-se à próxima região; Tiago, como um “bispo” localmente estabelecido, na “diocese” de Jerusalém, era uma exceção. O que ocorreu, conforme o tempo passava, é que as Igrejas locais foram tornando-se maiores, e o espaço do mundo não evangelizado foi tornando-se menor; o governo que era principalmente um episcopado dinâmico tornou-se principalmente um episcopado estático, em que a maioria das funções da maioria dos bispos está associada a um lugar onde ele deve morar. Mas ainda assim é um episcopado.

(Gyordano Montenegro Brasilino)

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