14/02/15

Deus odeia alguém?

LUCAS 6
32 E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam.
35 Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus.


Há alguém que Deus odeie? Costuma-se dizer que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. É uma declaração fácil de se fazer, e parece responder à pergunta. Como o gênero humano, à exceção do Filho de Deus, é formado de pecadores (uns arrependidos, outros não), o amor de Deus pela humanidade tem de ser um amor por pecadores (Rm 5:8), ao mesmo tempo em que é um amor que transforma a esses pecadores.

Mas não é difícil encontrar passagens bíblicas em que se fale de ódio da parte de Deus, como Sl 5:6 ou 11:5. Baseando-se nessas passagens, há quem afirme sem qualquer vergonha: Deus odeia os pecadores que não se arrependem. Esse é um dos problemas que surgem quando tentamos fazer Teologia sem sensibilidade para o círculo hermenêutico, sem um conhecimento adequado do pano de fundo histórico, cultural e lingüístico no as Escrituras foram cunhadas. Sem perceber, impomos ao texto bíblico significados que originalmente não estavam lá. O problema se torna ainda mais complexo à medida que o sentido imposto se assemelhe mais ao sentido original, exigindo maior meditação.

É característico do modo hebreu (ou semítico) de expressão o traço que George B. Caird chamou absoluteness absolutidade, que consiste em um uso de hipérboles adversativas, exageros propositalmente colocados para marcar em preto e branco aquilo que na realidade admitiria gradações. Um exemplo paradigmático é “Amei a Jacó e odiei a Esaú” (Ml 1:2,3; Rm 9:13), mas os casos já referenciados de Salmos entram também nessa regra: ali se compara o justo e o ímpio. O modo hebreu de expressar uma preferência, um direcionamento, é a absolutidade. Não implica um ódio no mesmo sentido em que utilizaríamos a expressão em português.

É claro que sempre haverá alguém que, por estar comprometido com certas posições de teologia dogmática, preferirá fazer de conta que não há tal coisa nas Escrituras. O estudo exegético das Escrituras, que respeita os modos de expressão próprios ao escritor, sempre encontrará resistência por parte de quem sempre interpretou um determinado texto de certa maneira e acaba se descobrindo como o imperador nu. Um bom exemplo talvez ajude. O texto de Lucas 14:26 na versão Almeida (Corrigida e Fiel) diz o seguinte:

26 Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
(Lucas 14:26, ACF)

Sabemos que, no português quase arcaico da versão Almeida, “aborrecer” significa odiar, e é uma tradução do verbo grego miseō (“odiar, detestar”). Jesus diz que devemos odiar nossos pais, mães, mulheres, filhos, irmãos, irmãs e a nós mesmos. A leitura desse texto causa imediatamente um choque.

A coisa muda inteiramente de figura quando comparamos este mesmo dito de Jesus noutro evangelho:

37 Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.
(Mateus 10:37, ACF)


Mateus coloca em gradação (amar mais, amar menos) aquilo que Lucas colocou em preto e branco, amor e ódio. A maioria dos leitores simplesmente preferirá deixar o texto de Lucas de lado, dada a estranheza provocada pela exigência do texto (não é, aliás, a única no dificílimo capítulo 14 do Evangelho de Lucas). A versão de Lucas, interpretada literalmente, contradiz o mandamento do amor ao próximo, e não é incomum ver anticristãos usarem esse texto de Lucas 14:26 como um exemplo de contradição bíblica, na tentativa de invalidar o cristianismo.

Esse é o dano causado por traduções que seguem a regra da “equivalência formal”: ateus e cristãos igualmente escandalizados diante das palavras de Jesus. Mas isso é a versão Almeida. A coisa muda de figura quando lemos o mesmo texto na versão NVI:

26 Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.
(Lucas 14:26, NVI)

A versão NVI de Lucas 14:26, no essencial, idêntica à de Mateus 10:37 na versão ACF: temos novamente uma gradação. Jesus não exige que odiemos nossos familiares; não contradiz o amor ao próximo; apenas exige um amor superior. A versão NVI respeitou um traço do pensamento hebreu: não buscou preservar a individualidade das palavras do texto grego, mas o seu sentido, no momento em que era preciso sacrificar uma das duas coisas. A versão Almeida traduz o texto como se ele não fosse um caso de absolutidade.


Gyordano Montenegro Brasilino




NOTA: Os teólogos de plantão talvez fiquem confusos com essa comparação entre Mateus e Lucas, porque talvez tenham aprendido que Mateus é um evangelho judaico, ao passo que Lucas seria um evangelho gentílico. Como explicar que Mateus tenha expurgado a característica judaica e Lucas a tenha preservado? A explicação é simples: Mateus (que escrevia um evangelho judaico helenístico) compreendeu a absolutidade, e a traduziu, e Lucas provavelmente não. Essa comparação evidência a existência de um original semítico (provavelmente aramaico) subjacente aos logia gregos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário