18/01/15

Ouça a Igreja. Mas qual?

Alguns apologistas do catolicismo romano, doravante chamados tridentinos (expressão que não aplico a todos os católicos romanos), acusam o protestantismo de ter abandonado um Papa em troca de infinitos papas: cada protestante é o seu papa, ou cada pastor é o papa de sua congregação. Seria de se pedir aos tridentinos que se decidissem: não é possível que cada protestante seja seu próprio papa, e, simultaneamente, cada protestante tenha um papa na figura de seu pastor. Isso porque, no sentido tridentino da expressão, um mesmo sujeito não pode ter dois papas, ele mesmo e o seu pastor.

Mas é óbvio que se trata de generalizações grosseiras, fruto muito mais de um ódio ao protestantismo que de uma observação da realidade. Mas a essas generalizações subjazem certas verdades, e é muito útil (para o protestante tanto quanto para o anti-protestante) identificá-las. Por mais mal intencionadas que sejam tais acusações, qualquer protestante pode reconhecer nelas algum grau de veracidade.


I. Cada protestante é seu próprio papa?

Essa acusação aponta para o problema da consciência individual. No protestantismo, admitir-se mudança de opinião em termos de doutrina e teologia. É o mesmo que dizer: se percebo que havia algo de errado em minhas crenças, posso me arrepender do meu erro e continuar no meu percurso em direção à verdade. O tridentino vêm com horror esse tipo de mudança, como se “o mesmo erro de sempre” estivesse mais perto da verdade que “um erro diferente a cada dia”.

Outra caricatura que o tridentino impõe ao protestante: mudar de doutrina todo dia. Diferentemente do que pensa o tridentino, a maioria dos protestantes não está interessada em discutir doutrina, e por isso raramente muda de opinião sobre questões mais substanciais. Muda, sim, a interpretação de um texto bíblico específico, mas isso também acontece no catolicismo romano ou na ortodoxia (nos três casos, dentro de certos limites); basta comparar-se o que os comentários que diferentes pais da Igreja fazem ao mesmo texto bíblico.

O único espírito compatível com o protestantismo é o de abertura perpétua à verdade, e perpétua possibilidade de mudança. (Longe de supor que concretize facilmente na vida moral individual!) Não quer dizer que deva-se mudar de opinião todo dia, mas que deve-se fazê-lo sempre que a evidência apontar.

Percebendo qualquer erro na doutrina, o fiel católico romano ou ortodoxo é induzido à dissonância cognitiva, a uma crise: ou torna-se um liberal (sob ameaça da excomunhão), ou deixa sua Igreja, ou cala a voz de sua própria consciência. Um trilema. O protestante não precisa deixar de ser protestante, embora possa eventualmente ter de mudar de denominação. Ou reformá-la.


II. Cada pastor é um papa?

É impossível deixar a consciência individual entregue a si mesma. É necessário que haja autoridade. Não se pode presumir que uma analfabeto, uma criança ou um deficiente mental sejam capazes de tratar de questões doutrinárias com sutileza necessária e sem desembaraço. Por outro lado, nem todo mundo está nessas categorias. A doutrina não é óbvia, como se qualquer um pudesse extraí-la das Escrituras numa simples leitura.

Dependemos da autoridade na medida em que ela alcance algo que não podemos alcançar por nós mesmos; a Igreja existe (e Igreja significa Igreja, não Magistério), em parte, para isso mesmo: para que as deficiências de um sejam supridas pelos dons do outro, de modo que todos possam crescer em unidade. Eu não tenho toda a evidência diante de mim, então necessito tanto daquele que concorda comigo quanto daquele que me desafia, porque todos estão olhando à mesma verdade (quando o estão...), em maior ou menor grau, em diferentes ângulos. A consciência individual é uma responsabilidade coletiva.

Assim, é provável que haja uma predominância da autoridade, em detrimento da consciência individual, nas igrejas protestantes cujos membros sofram de uma educação geral e de uma educação teológica deficientes — o que no Brasil, infelizmente, é regra. Mas isso é apenas provável. Qualquer pessoa que haja conversado com um bom número de pastores notará que a coisa não é tão simples quanto o tridentino quer que seja. Há uma gradação que o tridentino prefere não achar que existe, para que sua acusação venenosa continue surtindo o mesmo efeito.


III. Nenhum papa infalível, na realidade.

Esses dois elementos de verdade por trás das acusações tridentinas, a consciência individual e a necessidade da autoridade, estão em permanente tensão no protestantismo. Na realidade, a história do protestantismo é o drama de se manter assim esses dois princípios, os quais, por vezes, se entrelaçam no problema correlato: a dialética entre carisma (o novo, o movimento) e instituição (o antigo, a estabilidade).

O apologista tridentino talvez ache que a autoridade é suficiente para resolver o drama, desde que ela seja infalível — como se diz que o papa é, ao menos algumas vezes. Mas esse drama não é uma criação protestante; é a realidade em que vivemos, como seres humanos. O protestantismo apenas torna explícito esse drama, e interpela o indivíduo com a responsabilidade individual, ao passo que o tridentino prefere achar que esse drama só existe fora dos muros de Roma.

O apologista tridentino, quando alterna entre as duas acusações contraditórias, toca em algo de verdadeiro, mas esquece-se de perceber o contínuo que há entre esses dois extremos. Porque, na os extremos são abusos, e o centro não interessa ao difamador; a caricatura é-lhe mais favorável. Mas abusus non tollit usum.


IV. Mas qual Igreja?

Embora o católico romano e o ortodoxo não possam usar a consciência individual para estabelecer doutrinas uma a uma, eles necessariamente terão de usá-la para se tornarem, ou ao menos para permanecerem, como membros da Igreja. Eu uso a consciência individual para decidir se quero ser católico ou ortodoxo (ou protestante) tanto quanto a uso para decidir se creio na existência do purgatório. A diferença é só que, enquanto o católico e o ortodoxo decidem tudo de uma vez, ao protestante faculta-se mudar de opinião sobre um ponto sem mudá-la sobre outro. (Apesar de que essa escolha pontual apareça também quando o indivíduo converte-se do catolicismo romano para a ortodoxia, e vice versa. Tem que decidir quem está certo na questão do purgatório, na cláusula filioque, na primazia petrina infalível, etc. Em muitos casos, porém, a decisão se dá mais por afinidade estética que doutrinária.)

Ademais, mesmo que o católico afirme “A Igreja, não eu, estabelece a doutrina”, ainda assim ele terá que decidir: mas qual Igreja? É a Igreja Católica Apostólica Romana? Mas na voz de quem? Da SSPX? Da Teologia da Libertação? De alguém mais? Os vétero-católicos, talvez? Ou será a Igreja Ortodoxa? Mas qual: as igrejas ortodoxas calcedonianas ou as não calcedonianas? A Igreja Assíria do Oriente? Há tantas Igrejas, e todas elas afirmam ser a original, apostólica. E dentro dessas igrejas, diferentes vozes.

Qualquer resposta a essa pergunta fará uso do argumento de autoridade; em última análise, apontará para algo que Jesus ou os apóstolos disseram, mas sempre dentro da interpretação que a Igreja escolhida fornece. Os apóstolos disseram que a Igreja é coluna e baluarte da verdade, e isso quer dizer que a Igreja é infalível”; mas quem disse que quer dizer isso? Simples: a Igreja do sujeito disse que significa isso. Eis a circularidade do apelo à autoridade. A Igreja é esta porque esta Igreja disse que é ela, and you better submit! Embora o tridentino provavelmente jamais o diga com palavras tão sínicas, sufocando a circularidade do argumento numa névoa de argumentos desconexos (todos eles dependentes da autoridade hermenêutica), é a isso que seu argumento necessariamente se reduzirá.


V. O apelo à autoridade é circular. Aceita quem quer.

Todo apelo à autoridade é um argumento circular. Isso não quer dizer que toda autoridade seja circular. A verdadeira autoridade é uma exigência da razão: auctoritas ex vera ratione processit. Aceito que o país a que chamo “China” exista, baseando-me exclusivamente na autoridade; jamais estive lá. E, no entanto, eu o faço porque não há nenhuma autoridade opositora, com um testemunho diferente. Mas nenhuma autoridade pode ser transformada em argumento; é nesse momento que ela se torna circular, visto que uma autoridade só faz sentido para quem já está predisposto a aceitá-la, aberto a ela, por decisão própria. A autoridade não canta nos palácios apolíneos da inteligência, mas grita na selva tempestuosa da vontade.

Curiosamente, o apologista tridentino afirma que o protestante não é capaz de chegar à doutrina correta sem uma autoridade infalível (o Papa, o magistério), mas, contraditoriamente, ele tenta convencer o protestante... citando textos bíblicos. Quando convém ao tridentino, o protestante é capaz de entender a Escritura; quando não lhe convém, o protestante não é capaz. Até o tridentino é capaz de apelar à consciência individual.


VI. A Igreja original!

Para os católicos romanos, ortodoxos ou protestantes mais ingênuos, a resposta à pergunta “Qual Igreja?” é óbvia: a original! Case closed. Cada um pintará a Igreja original com as cores litúrgicas de sua própria igreja. Quando as disputas teológicas findam sem resultado, ambos apelarão para argumentos históricos excelentes, verdadeiros e inteiramente inúteis. Simplesmente não é possível voltar no tempo, senão imaginativamente. A história nada diz; seu intérprete fala por ela, ditando-lhe o tom e o compasso.

Qualquer Igreja tem alguma cota de semelhança e continuidade com a suposta Igreja original; a pseudo-história de cunho apologético consiste no descaramento de descrever a Igreja original ressaltando o que ela tem de semelhante com a minha Igreja e o que ela tem de diferente em relação às demais, apontando-se, assim, para uma continuidade e muitas descontinuidades. Desonestidade intelectual!

Fantasiando essa Igreja original, eu terei que escolher quem é testemunha histórica dela e quem não é. Eu já tomo partido desde o começo. A escolha não é inteiramente arbitrária (entre as testemunhas da Igreja original, uma escolha possível não é Maomé), mas há um grau de arbitrariedade irredutível, de natureza hersiológica. Eu tenho que saber, desde já, quem é herético e quem não é; mas a decisão é sempre tomada por alguém, e então a circularidade reaparece.

Católicos romanos crêem no Purgatório (e nas indulgências); ortodoxos não (embora orem pelos defuntos). Diante dos mesmos pais da Igreja, testemunhas da Igreja original aceitas por ambos, os católicos romanos evidenciam a crença num Purgatório, ao passo que os ortodoxos evidenciam a excepcionalidade dessa crença como uma especulação passageira (e majoritariamente ocidental), não um elemento da Sagrada Tradição, que deveria ser crida em todos os lugares, sempre e por todos (quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est). É necessária muita cara de pau e muita credulidade supersticiosa para se afirmar que todos sempre creram na cláusula filioque, ou que todos sempre creram no Pecado Original. É jurar de pé junto aquilo que não se tem como saber.

Certamente não há nenhum indício histórico de que os cristãos dos dois primeiros séculos acreditassem em algo que se pareça com o princípio protestante Sola Scriptura. Mas também não há nenhum indício de que os cristãos da mesma época praticassem invocação aos santos, que é uma prática essencial do catolicismo romano e da ortodoxia, ou acreditassem na imaculada conceição de Maria. Ou que houvesse na Igreja qualquer coisa que se pareça com a prática ortodoxa do hesicasmo, ou a distinção ortodoxa entre a essência incriada e as energias criadas de Deus.


Qualquer apologia de cunho histórico terá de lidar com o vexame da mudança: mudança na doutrina, mudança na prática, mudança na liturgia. E fará sempre apelo à autoridade no momento de decidir que tipo de mudança é permitida e que tipo não é.


VII. Mas... qual Igreja?

A pergunta permanece: qual Igreja? Diferentemente do apologista tridentino (e de vários protestantes), eu não acredito que seja possível uma resposta radicalmente justificada para essa pergunta. Mas alguma resposta pode-se dar, e minha resposta é tão parcial quanto qualquer outra.

Há que se perguntar: Afinal, para que eu quero uma Igreja? Certamente para encontrar a Cristo (no mínimo, para saber qual é o meio de encontrar a Cristo). Toda a busca pressupõe uma fidelidade a Cristo (no mínimo, uma fidelidade aspirada). Como eu disse num texto anterior, Solo Christo é o fundamento da Sola Scriptura, e não o contrário (embora a Escritura faça, consistentemente, o testemunho do seu fundamento). Cada cristão é fiel à sua própria tradição (católica, ortodoxa ou protestante) porque pensa que, em o fazendo, é fiel a Cristo. A preocupação pela Igreja só existe para quem já ouviu ao chamado do Evangelho, sob alguma forma. Antes de qualquer fidelidade à doutrina, a fidelidade dá-se a uma pessoa concreta: Jesus de Nazaré, o filho de Deus.

Entre as escolhas que se colocam diante de nós, todas as Igrejas “reconhecem” a autoridade do Novo Testamento, e essa autoridade procede ex vera ratione: o Novo Testamento tem todos os motivos para ser considerado como o único testemunho direto e escrito da doutrina dos primeiros cristãos (e, portanto, o melhor testemunho possível da ipsissima vox Christi). Quem, como os marcionitas ou os judaizantes, rejeitar parte dessa autoridade escrita, faz uma escolha arbitrária a priori, contra rationem.

Assim, como cristãos, o que podemos fazer é tentar, no máximo de nossas capacidade, identificar qual Igreja está em continuidade com aquela do Novo Testamento (a mesma estratégia do tridentino para convencer o protestante). Isso não é o mesmo que recomendar Sola Scriptura como princípio (o que seria circular); antes, deve-se analisar a consistência de cada corpo de doutrina, isto é, verificar se há uma contradição entre a autoridade do Novo Testamento e a doutrina de uma dada Igreja. Mas como cada igreja tem seu modo de ler as Escrituras, e coloca as Escrituras num contexto próprio, a nossa conclusão só pode ser, no máximo, provável. Só Deus pode dar uma resposta definitiva. A esse juízo definitivo dá-se o conveniente nome de Juízo Final.


(G. M. Brasilino)




Um comentário:

  1. Minha opinião, o que vale mais é a originalidade histórica quanto mais provas da existência da tal igreja, mais original ela é. A Católica é a mais original pois sua doutrina é construída desde do 1º séc. A prova bíblica de São Pedro(histórica da ida a Roma) e por ser Universal, sempre ter existido desde os Apóstolos são atributos para a igreja verdadeira. Não conheço outra igreja que tem todos esses requisitos. A Ortodoxa rompeu com a Católica, protestantes/evangélicos só passam a existir após o cânon Católico

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