12/01/15

Nota Inconclusa sobre Teologia Natural

 Lutero expressou um axioma da interpretação quando disse: Qui non intelligit res non potest ex verbis sensum elicere – Quem não entende a coisa, não pode extrair o sentido da palavra.

Ao contrário do que parece crer grande parte dos filósofos contemporâneos, a linguagem não é um sistema fechado e autorreferente. Embora seja verdade que a linguagem verbal não seja capaz de, de si e por si, apontar para a realidade que lhe é “exterior”, a comunicação não é possível sem essa referenciação, que é efetuada não pela língua, mas pela consciência: a capacidade de preencher as palavras com “conteúdos intencionais”. A diferença entre ler um texto e apenas observar os riscos em uma folha de papel (ou as cores numa tela de computador) está nessa capacidade de preenchimento.

Como indicado por Bultmann, não posso entender o mandamento que diz “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” se não sei o que é “amor” e se não sou capaz de sondar, em mim mesmo, o que seja esse “como a ti mesmo” (o amor próprio), isto é, sem algum tipo de introspecção. Embora um texto possa me ajudar a realizar essa parturição cognitiva, ela precisa efetivamente ocorrer “na” minha consciência. Ninguém ensina uma criança a falar dando-lhe um dicionário. É possível aprender uma nova palavra por meios intralingüísticos e é possível fechar a linguagem em um sistema fechado (artificial!) de referências cruzadas, mas não sem que algum conteúdo prévio esteja dado.

Isso vale para a palavra “Deus” ou qualquer que lhe equivalha: Dios, Dieu, God, Gott, El, Allah. Qualquer pessoa que tenha sido apresentada à Palavra de Deus, tem que primeiro ter entendido o que significa “Palavra de Deus”, e, portanto, o que significa “Deus”, ou do contrário ela simplesmente não foi apresentada, porque não fala aquela língua. Mesmo que, quando apresentado à “Palavra de Tupã”, o ouvinte insira aí todos os atributos da divindade como concebida por uma dada etnia, atributos não de todo compatíveis com uma concepção cristã, algo deve ser atingido. É necessária uma apreensão prévia, provisória.

O ouvinte ocidental, mais afeito a uma linguagem metafísica (hoje não tanto), tem como apreensão prévia, talvez, a noção de Deus como um ente não material, bondoso e de poder supremo (ao que, por vezes, se associa à imagem de um Pai ou o sentimento do mysterium tremendum no sentido de Rudolf Otto). Isso é carregado para dentro do “ouvir”. Saja pela apresentação de uma armadura ontológica, seja por analogia com alguma divindade superior de uma dada mitologia, essa apresentação atinge algo de concreto, de cognitivo, mesmo ainda que negativo. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio (Atos 17:23b).

Chama-se Teologia Natural à elaboração dianoética, racional, conceitual dessa apresentação prévia, com respeito à essência (o que Deus é?) e com respeito à existência (Deus existe?), no contexto da Teologia Cristã, mas também se refere à Teologia que não é parte de uma “religião revelada”, que não emana de uma revelação no sentido estrito, mas de especulação, como quando Leibniz chama théologie naturelle às especulações religiosas dos chineses sobre o divino e sua relação com o humano. Ainda assim “teologia natural” é uma expressão cunhada por teólogos cristãos, e subentende a existência de uma teologia de origem sobrenatural. De todo modo, a Teologia Natural compreende o conjunto das especulações sobre Deus feitas na perspectiva daquilo que se pode saber de Deus sem recurso a uma revelação em sentido estrito. Por esse motivo, há grande semelhança entre a teologia natural feita por cristãos e o kalām maometa, a despeito das diferenças entre suas teologias "reveladas" e de suas concepções sobre Deus.

(G. M. Brasilino)

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