22/12/14

O único Sola Scriptura que pode haver

Fui questionado recentemente por um católico tridentino. Tridentino é um daqueles católicos romanos que, no espírito do Concílio de Trento (que em latim se chama Tridentum), querem ver o protestantismo abolido, destruído, por ser uma terrível heresia, um ensinamento diabólico. Esse espírito é bem distinto daquele presente no Concílio do Vaticano II. Para o tridentino, o Deus de amor odeia o protestantismo e eventualmente lançará os protestantes no inferno, por se recusarem a se submeter à autoridade da “mãe e mestra”, a Igreja Católica Apostólica Romana.

Eu poderia chamar o católico tridentino também de católico florentino, visto que esse espírito não é diferente daquele do Concílio de Florença (1431-1449), que condena às chamas eternas todos os “judeus, heréticos ou cismáticos” que não se unirem à Igreja Católica até o fim de suas vidas. Mas dar ao tridentino o nome de florentino não seria adequado. Afinal, o tridentino não parece querer brincar com flores, mas com tridentes...

É claro que nem todo católico romano é um tridentino, ou um florentino. Há católicos romanos que, ignorando totalmente o Concílio de Florença, pensam ser possível a salvação de protestantes e outros cristãos (ou não cristãos). Tais católicos são liberais sem o saber, e são evidência concreta do modo como a ICAR muda sua doutrina com o passar do tempo, preservando a aparência de imutabilidade dogmática, requisito essencial de sua autoridade. Basta esquecer que houve o Concílio de Florença! A ignorância histórica é “mãe e mestra” do argumento de autoridade.

Pois bem, o sujeito apontou-me o tridente e discutiu aquele ponto que todo tridentino quer discutir: o princípio Sola Scriptura. Porque grande parte das diferenças entre católicos e protestantes está no lugar que a Escritura ocupa em doutrina, é claro. O raciocínio era mais ou menos o seguinte: o princípio protestante, “Sola Scriptura”, significa que “tudo” deve estar na Bíblia; mas na Bíblia não há nenhum “Sola Scriptura”; portanto, a crença protestante contradiz a si mesma. Se Sola Scriptura é o princípio do “castelo protestante”, então o castelo caiu. É de se lamentar que uma coisa tão bela quanto um castelo possa ser destruída como palavras. Ein feste Burg ist unser Gott!

A lógica do argumento tridentino está perfeita. Mas a definição de Sola Scriptura usada é inaceitável.

Embora haja protestantes, especialmente entre os menos instruídos em Teologia, que afirmem tal coisa, ou seja, que “tudo deve estar na Bíblia”, na realidade a coisa não funciona assim, e não pode funcionar assim. Isso é teologia de fundo de quintal. Há uma infinidade de verdades que não estão na Escritura, e, aliás, muitas dessas verdades são necessárias para entender da própria Escritura. Pense só na quantidade de temas que a Escritura simplesmente não discute!

Isso é parte do círculo hermenêutico: para entender um texto, eu preciso entender todo o contexto no qual ele foi escrito, e vice versa. E não apenas o contexto lingüístico (o significado das palavras dentre de um dado uso lingüístico, seja social, seja individual), mas também o condicionamento social, cultural, científico, filsófico e religioso inerentes à cosmovisão do autor e do “leitor ideal”.

Eu não posso entender o que a Escritura fala sobre o Sol se eu não tenho um conhecimento não-bíblico sobre o Sol, e isso vale para todo o mais. Não posso identificar uma metáfora como metáfora, ou uma ironia como ironia, sem algum conhecimento não-textual daquilo que está “em jogo”. O princípio Sola Scriptura não quer dizer que "tudo deve estar na Bíblia". É óbvio que há uma infinidade de verdades que não estão na Escritura. Qualquer protestante com um mínimo de instrução hermenêutica sabe disso.

Sola Scriptura significa que nenhum cristão deve ser constrangido a crer, em matéria de dogma, em nada além daquilo que possa ser diretamente “extraído” da Escritura. Não é o princípio do "castelo" protestante. É preciso primeiro ser cristão, para ser protestante, e não o contrário; não se pode inverter a ordem histórica. Sola Scriptura é um princípio formal da Reforma, mas não é o princípio fundamental. O princípio fundamental é a revelação de Deus em Jesus Cristo conforme testemunhada pelos apóstolos. Não há outro fundamento além de Jesus Cristo. O princípio material Solus Christus é a base do princípio formal Sola Scriptura, não o contrário! Por isso, seria exato dizer que Solus Christus é, ao mesmo tempo, princípio formal e material. Não há como comprometer-se com a revelação da Escritura sem que antes se esteja comprometido com a pessoa real chamada Jesus Cristo.

No seu devido contexto histórico, Sola Scriptura significa: não há obrigatoriedade em crer em nada além daquilo que Jesus e os apóstolos ensinaram. Como sabemos o que Jesus e os apóstolos ensinaram? Não há nenhum meio historicamente seguro além daquele que é o de verificar os documentos escritos pelas primeiras gerações dos seguidores de Jesus. Esses documentos chamam-se Novo Testamento. Somente através da Escritura. Não há nenhuma garantia de que a tradição haja preservado o ensino de Jesus e dos apóstolos intacto. As contradições da tradição evidenciam isso.

De fato, se o Sola Scriptura estivesse na própria Escritura, seria um raciocínio circular, como é aquele do tridentino: acredite na tradição, porque a tradição diz que a tradição é verdadeira. O argumento protestante não é circular, mas fundacional: Jesus Cristo é o fundamento, ele é o ponto de partida.


(G. M. Brasilino)

11 comentários:

  1. "Não há nenhum meio historicamente seguro além daquele que é o de verificar os documentos escritos pelas primeiras gerações dos seguidores de Jesus."

    E o que me garante que estes documentos foram escritos por seguidores de Jesus?

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  2. Não há nenhuma garantia apodítica de que os textos do Novo Testamento tenham sido escritos por seguidores de Jesus.

    Não obstante, pode-se afirmar com segurança que:
    1. Foram escritos durante o século I (evidência manuscritológica).
    2. Foram escritos por cristãos de 1ª e 2ª gerações (evidência textual).

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    1. Você não respondeu à pergunta. O que foi perguntado é: porque você acredita que as Escrituras foram escritos por tais e quais seguidores de Jesus, não obstante hajam vários outros supostos seguidores (gnósticos, arianos, donatistas, etc.) que também deixaram escritos que clamam autoridade?

      Simplificando: como os próprios reformados reconhecem, já que as Escrituras são uma lista FALÍVEL de livros infalíveis, porque você se sente tão seguro da Sola Scriptura, seja qual for a definição deste princípio, se não é possível definir o que é Scriptura em primeiro lugar?

      Se houvesse uma resposta protestante para isso, Henry Newman não teria (equivocadamente) se tornado católico e nem teria havido uma guerra entre luteranos e calvinistas. Há somente uma resposta para isso: está na Tradição. Ela, que não é o que os protestantes a entendem por tradição, implica na conclusão de que o Sola Scriptura é um pseudo-problema.

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    2. Vamos por partes:

      MINHA RESPOSTA: "Não há nenhuma garantia apodítica de que os textos do Novo Testamento tenham sido escritos por seguidores de Jesus."

      SUA PERGUNTA: "O que foi perguntado é: porque você acredita que as Escrituras foram escritos por tais e quais seguidores de Jesus (...)"

      O Sr. notou alguma diferença?

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    3. Uma garantia apodítica claramente existe. O Cristianismo existe, isso é óbvio. O que se debate é qual Cristianismo é o legítimo. O que realmente não existe (pelos critérios de Sola Scriptura, não da Tradição) é um critério apodítico para definir o cânon. A questão chave é: como validar o Sola Scriptura, se o critério de inclusão de um livro no cânon não está na Escritura? Como afirmar que ela é a autoridade máxima, se não se sabe por certo quem ela é?

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    4. Sr. Rodrigo, o Sr. mudou a pergunta. Notou ou não notou diferença entre minha posição e a posição que o Sr. atribuiu a mim?

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    5. Notei, meu caro! Achei-a muito esquisita, pois ela seria feita por um agnóstico. Você não é um agnóstico, é? Se você é, recomendo que você mapeie as relíquias atualmente existentes, como testemunhas históricas em suas pesquisas intelectuais e paro por aqui.

      Mas não estamos discutindo agnosticismo, meu caro. Você mencionou o Sola Scriptura. O seu artigo é sobre Sola Scriptura. Eu tenho uma dúvida: qual Cristianismo, existem vários, é o verdadeiro? Você me diz: Sola Scriptura! Tudo o que se sabe, você me diz, mesmo além da Escritura, deve ser coerente com a Escritura! Eu digo: concordo plenamente! Agora me mostre a sua Escritura! Existem os cânones gnósticos, copta, católico, protestante, ortodoxo, nestoriano, etc. Me indica qual é a Escritura para que eu pratique o Sola Scriptura e me afirma o porquê.

      Eu que já tenho experiência para antecipar a sua resposta, digo-lhe que em nenhum desses cânones há uma escritura apostólica que afirma quais livros exatos compõem o cânon.

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    6. O Sr. atribui a mim opiniões que não são as minhas.

      "Eu tenho uma dúvida: qual Cristianismo, existem vários, é o verdadeiro? Você me diz: Sola Scriptura!"

      Quando eu disse qualquer coisa que se pareça com isso? Jamais!

      Em primeiro lugar, porque eu não acredito que haja vários cristianismos, em qualquer sentido literal. "Vários cristianismos" é uma metonímia. Há várias perspectivas diferentes sobre o cristianismo (houve desde o princípio e haverá até o fim).

      Em segundo lugar, porque eu não acredito que qualquer dessas perspectivas seja "a verdadeira" (em oposição às demais como "as falsas"). Qualquer perspectiva cristã é verdadeira na medida em que é fiel à sua fonte original, e falsa na medida em que distorce, nega ou acrescenta.

      Em terceiro lugar, porque eu jamais afirmei que o princípio Sola Scriptura é o critério de cristianismo verdadeiro. Portanto, eu não disse o que o Sr. afirmou que eu disse. Há um cristianismo verdadeiro na mente e na vida de todos os cristãos simples, de todas as épocas, que se mantiveram fiéis à mensagem de Jesus e dos seus apóstolos, inclusa a primeira geração de cristãos anteriores à escrita do Novo Testamento.

      O que eu afirmo é que o ÚNICO modo historicamente plausível de verificar qual seja a "doutrina dos apóstolos" é método histórico: o estudo das primeiras fontes em seu contexto original. Essas primeiras fontes constituem o Novo Testamento.

      Não há prova de que esses textos foram escritos pelos "autores tradicionais". Não se pode afirmar quem escreveu a Carta aos Hebreus, por exemplo, além de que foi escrito por alguém do sexo masculino (uma indicação que o próprio texto faz, indiretamente). Mas não foi escrito 200 anos depois de Cristo, como foram escritos, por exemplo, os evangelhos gnósticos.

      Se eu quero estudar a vida de Júlio César, é plausível estudar todos os documentos escritos décadas após sua morte. Estudar "fontes" que surgiram mil anos depois não ajuda em nada. O mesmo serve no estudo histórico do Novo Testamento.

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    7. Então pronto. Você é um liberal. Um agnóstico com requinte, digamos assim. Neste caso, volto à minha recomendação inicial de sua busca às relíquias e paro por aqui. Debater com um relativista não tem graça (risos). Além do que, com todo o respeito, sua opinião é apenas uma moda dos últimos dois séculos e não tem a ver com o mainstream passado.

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    8. Em duas postagens o Sr. distorce minha posição. Por que eu pensei que a terceira seria diferente? Relativista? Os risos são mesmo justificados.

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  3. Ótimo texto. Realmente conheço cristãos, tanto protestantes como católicos, que interpretam o princípio do "Sola Scriptura" dessa forma.

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