10/12/14

Doutrinas essenciais?

 Quem define o que é essencial à fé cristã e à salvação?

Na Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) e na Igreja Ortodoxa (IO), a resposta é clara: a hierarquia da Igreja (o magistério) define o que é "essencial" e o que não é. Esse magistério, através de decisões oficiais, decreta que tais e tais coisas devem ser cridas, e que a negação explícita dessas coisas (heresia) coloca o indivíduo fora da Igreja. Além dessas coisas, a Igreja define um campo onde há liberdade para discordância. [É claro que o que a ICAR define não corresponde em todos os pontos a que a IO define, mas isso é outra questão.]

O protestante, por outro lado, responde coerentemente com o princípio Sola Scriptura: a Bíblia define o que é essencial e o que não é. Colocando assim, o protestante tira de si a responsabilidade de decidir qual seja o essencial. É Deus quem define! Muito justo. A resposta é muito bonita, mas é preciso faze duas perguntas: 1) A Bíblia realmente define quais doutrinas são essenciais e quais não são? 2) É realmente assim que funciona nas igrejas protestantes, ou esse é apenas o discurso?

É fato sabido por todo protestante que há discordância entre as igrejas protestantes (e dentro das igrejas) em suas interpretações da Bíblia. É natural que seja assim: é um texto escrito, e, por isso, sujeito a vários interpretações. Diferentemente do que os protestantes menos intelectualizados poderiam supor, não há nenhuma promessa bíblica de que Deus impedirá os crentes verdadeiros de cometer erros de interpretação.

Mas não para aí. Não é apenas na interpretação da Escritura em si; os protestantes discordam entre si sobre quais sejam as doutrinas essenciais. A maioria dos protestantes crê no dogma da Trindade; entretanto, mesmo entre esses há discordância sobre se essa crença é ou não essencial à salvação. Uma coisa é crer que é verdadeiro; outra coisa é crer que é necessário. Do mesmo modo se dá o criacionismo: diversos ministérios fundamentalistas ensinam que o evolucionismo é uma heresia, enquanto outros ministérios protestantes dão liberdade para crer no criacionismo, evolucionismo e qualquer outra versão que se julgar compatível com a existência de Deus. Quem procurar duas ou três listas de “doutrinas essenciais” notará facilmente (a menos que tais listas sejam fornecidas por uma mesma hierarquia ministerial) que as listas simplesmente não batem. A lista fornecida por uma pessoa difere da lista fornecida por outra pessoa.

Há, é claro, alguns elementos que estarão geralmente presentes: a ressurreição de Jesus (em respeito a Rm 10:9) certamente deve estar em todas as listas. Mas a coisa se complica enormemente quando se discute doutrinas mais abstratas: a Trindade, a divindade de Jesus, a salvação pela graça, etc. Tanto católicos quanto protestantes confessam que a salvação é pela graça, mas isso significa coisas um tanto diferentes na boca de ambos.

Eu encontrei, empiricamente, uma tendência (não uma lei!): quanto menos intelectualizada uma pessoa (um protestante) é, maior é o número de doutrinas que ela pensa ser essenciais. Isso não é difícil de explicar: quanto maior o grau de estudo teológico, mais consciente se torna uma determinada pessoa de que, por um lado, há um grande número de dificuldades na interpretação da Escritura, sendo difícil, em grande parte dos casos, definir se uma determinada doutrina é correta ou necessária; e que, por outro lado, a maioria dos nossos juízos sobre doutrinas é diretamente condicionada pelo modo como um determinado ministério cristão (do qual somos membros) nos ensinou a ler a Bíblia. Ademais, a educação consiste, em grande parte, em aprender o diferente, em desacostumar-se a ouvir a mesma ladainha de sempre, rezada na cartilha. A verdadeira educação teológica prima por uma humildade hermenêutica.

Ou seja: entre os ministérios cristãos, define-se diferentemente o que é essencial e o que não é. E mesmo os ministérios mudam, com o passar das gerações. A querela entre calvinistas e arminianos já foi motivo para muitas acusações de heresia; hoje, na maior parte dos casos, a questão é tratada como mera divergência. O ministério do qual faço parte pode, hoje, ensinar que um determinado número de coisas é essencial, mas, no futuro, isso pode mudar. (Isso se dá, aliás, até dentro da ICAR e da IO, ao contrário do que os membros dessas denominações pensam.)

Ninguém lê a Bíblia inteira primeiro para só depois de vários meses (o tempo que levar para ler a Bíblia inteiramente) concluir que tais e tais doutrinas são essenciais (ou mesmo que são corretas); ele aprende, na sua denominação, que deve crer naquele número de coisas. Fato é que a maioria dos cristãos morrerá sem ter lido a Bíblia inteiramente; e como esses cristãos sabem em que crer? Alguém lhes disse no que devem crer. Talvez esse alguém tenha até mostrado textos bíblicos justificando isso; mas se essa pessoa não leu a Bíblia inteiramente, como pode saber se a interpretação que lhe é ensinada está correta? E quanto aos outros textos bíblicos que ela não leu?

Essa teologia das “doutrinas essenciais” é fortalecida pelo clima contemporâneo de mais reconhecimento mútuo entre as igrejas protestantes, o que eu gosto de chamar de “ecumenismo evangélico”. Se essas igrejas devem se reconhecer mutuamente como plenamente cristãs, devem concordar (ou ao menos assim pensam) em crer num determinado número de doutrinas. Assim, essas doutrinas essenciais são um cinturão que define quem é uma igreja verdadeira e quem não é. Isso está diretamente ligado ao raciocínio dos reformadores: a doutrina correta é uma das características da Igreja verdadeira (notae ecclesiae). Mas esse cinturão fatalmente fracassa: os protestantes não são capazes de concordar sobre quais sejam as doutrinas essenciais.

Com isso não quero dizer que a Bíblia não define o essencial da doutrina cristã. Ela nos diz, por exemplo, que é anticristo aquele que nega a encarnação de Jesus (1Jo 4:3; 2Jo 7). Mas ela não diz isso sobre um grande número de doutrinas que os protestantes podem considerar essenciais.


(G. M. Brasilino)

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