28/12/14

A importância da tradução correta das Escrituras

 Quando não compreendemos algo que para nós é importante, somos obrigados a confiar no guiamento daqueles que parecem saber mais do que nós. Confiamos na autoridade deles. A experiência de confiar em alguma autoridade é inerente à vivência social. Antes de tudo, confiamos em nossos pais, muito antes de sermos capazes de entender por que devemos fazer assim e não de outro lado. Provavelmente não teríamos durado muitos dias sem essa autoridade que decide por nós, quando somos crianças.

O mesmo ocorre com o estudo, porque em grande parte dos casos não temos como verificar a veracidade daquilo que nos é ensinado sem que primeiramente o ensino ocorra. Como eu sei se aquele chinês fala mandarim, e não cantonês, se eu não falo nenhuma das duas línguas? Algum outro chinês, em que eu deposite mais confiança, pode decidir por mim. Isso fatalmente ocorre também com a medicina, ou com a psicoterapia. Como eu sei se aquela dose irá me matar ou me curar? Como eu sei se a medicina chinesa funciona? Apenas confiamos, e exercemos alguns juízos precários com base nas nossas experiências prévias, no nosso instinto, no nosso senso de coerência, na voz da sociedade etc. Como eu sei, afinal de contas, que realmente existe um país chamado China, se eu nunca estive lá?

É claro que a maioria dessas dúvidas é bobagem. Confiamos no cálculo de probabilidades: a quantidade de mentira que seria necessária acumular, para inventar um país que não existe, seria simplesmente miraculosa. É mais fácil mesmo que a China exista. Não é possível enganar a todos o tempo todo.

Mas às vezes essas autoridades em que confiamos nos decepcionam. Às vezes elas não merecem tanta confiança quanto pareciam merecer. Às vezes elas fingem que sabem o que não sabem, e às vezes elas apenas acham que sabem o que não sabem. Às vezes nos enganam maliciosamente, e às vezes estão elas próprias entre as enganadas.

Nenhuma confiança deve ser cega, em absolutamente nada. Nem mesmo em Deus. Afinal, foi por algum motivo que Deus nos deu cinco sentidos, nos deu inteligência, e tantas coisas mais. A única confiança cega possível é no diabo, porque ele nele realmente não temos nenhum motivo para confiar. Confiamos em Deus não cegamente, mas com consciência inteira, porque ele nos enche infinitamente de motivos.

Entre os dois extremos, Deus e o diabo, há as pessoas, nossos semelhantes. A coisa pode se tornar imensamente complicada quando envolve religião, quando Deus e o diabo são parte da fala. Afinal, às vezes não temos como decidir se aquele que fala em nome de Deus realmente sabe do que está falando. Falar em nome de Deus é uma forma de levar (forçar?) os ouvintes a confiar. Quanto menos instruída a platéia, menos meios ela tem de testar aquilo que se diz. Quase nunca estamos totalmente às escuras; com exceção de pessoas com problemas cognitivos bastante sérios, podemos sempre fazer o teste da coerência daquilo que se diz. Se há uma incoerência, temos um motivo para duvidar. Mas é muito difícil lutar contra uma autoridade socialmente aprovada quando a evidência que se tem contra ela é tão tênue.

Nisso está a importância de se estudar. Estudar qualquer coisa. Quanto mais estudamos, quanto maior é nossa compreensão geral, menos reféns ficamos de autoridades indevidas. Nunca nos livramos das autoridades, e sempre que embarcamos no estudo de um novo campo, submetemo-nos a uma nova gama de autoridades. Mas conforme nosso conhecimento cresce, tornamo-nos capazes de comparar. Fazemos isso com os jornais (ou deveríamos). Qualquer autoridade que se recuse à investigação de seus fundamentos (como fazem em geral as seitas) é nossa inimiga. Se a autoridade recusa o conhecimento, é provável que ela queira negociar a nossa alma.

***

Não devemos confiar cegamente nas traduções bíblicas. Esse é um problema particularmente sério para protestantes, porque dizemos (ao menos da boca para fora, talvez de todo coração) que nossa “crença” se baseia (inteiramente?) nas Escrituras. Mesmo que creiamos da maneira mais fundamentalista no ditado verbal da Escritura, ainda assim o texto que temos em nossas mãos, em português ou em qualquer outra língua moderna, é uma tradução.

Há dois tipos mais comuns de erros que podem estar em uma tradução bíblica: há o erro fruto da ignorância (ou da situação) do tradutor, um erro em sentido estrito; há, por outro lado, aquele que é um erro no sentido estrito, mas é uma adaptação “tosca”, por não ser possível, nos limites da língua do tradutor, fazer nada melhor. Como sabe qualquer um que domine ao menos duas línguas, não há tradução perfeita. Não há duas línguas no mundo que se correspondam exatamente em tudo. Toda tradução é sempre uma adaptação; oferece-se um equivalente. Mas às vezes simplesmente não há um equivalente perfeito, e então se fornece um equivalente imperfeito.

Além disso, é também possível que, do tempo do tradutor até nós, a palavra tenha mudado seu significado em nossa língua, o que também pode nos induzir a erro.

Creio que o exemplo mais famoso, no que tange à tradução bíblica, seja o de Mateus 3:2 e textos correlatos. João Batista (seguido por Jesus e pelos apóstolos) diz “arrependei-vos” (metanoeite), mas Jerônimo, o tradutor da Vulgata Latina, verteu a expressão como “fazei penitência” (poenitentiam agite). Como a Vulgata Latina se popularizou (e posteriormente se tornou a Bíblia oficial da Igreja Romana), substituindo versões latinas anteriores, seu texto incorporou-se ao modo de pensar dos padres.

É evidente que esses textos serviram para fortalecer a prática católica romana da penitência, colocando-a na boca de João Batista, de Jesus e dos apóstolos. Qual prática? A de receber, de um padre, uma “pena” (poena) pelos pecados cometidos, para que sejam expurgados. O católico menos instruído entenderá: João Batista, Jesus e os apóstolos nos ordenam ir aos padres para receber o perdão dos pecados.

Assim, pela mágica das palavras, dá-se a impressão de que a última novidade é na realidade muito antiga. O texto vira pretexto. O livro teológico mais influente da Idade Média (mais influente depois que a Idade Média “acabou”) é a Suma Teológica de Tomás de Aquino, que serviu (e serve) de manual para a educação teológica em seminários católicos. Nela, Tomás de Aquino cita diversos textos bíblicos nos quais aparece o mesmo erro de tradução, fundamentando a prática romana da penitência.

Mas eu estou do lado de Jerônimo, o tradutor da Vulgata. Jerônimo não errou (como também não errou no uso do latim lucifer em Isaías 14:12). Erraram aqueles que, num tempo posterior ao de Jerônimo, continuaram aceitando como tradução válida e divinamente chancelada aquilo que induzia a erro, por terem as palavras mudado de sentido.

Poenitentia pode perfeitamente indicar arrependimento. Quando Tertuliano (secs. II e III d.C.) escreveu sua obra De Poenitentia, a palavra latina ainda retinha seu sentido clássico: poeniteo é arrepender-se, é sentir-se mal por ter feito algo, como a leitura da obra claramente identifica. Não está limitada ao sacramento. Mas como a palavra passou a ser dominada pela prática da penitência, o sentido do texto se desloca. Assim, é admissível que Jerônimo tivesse algo diferente em mente; afinal, ele sabia grego.

Quem errou foi o Concílio de Trento, mil anos depois de Jerônimo, quando utilizou esses mesmos textos bíblicos em defesa da prática da penitência, interpretando incorretamente o texto e mostrando-se inteiramente filho da ignorância do seu tempo. (A Sessão XIV do Concílio de Trento, que trata deste tema, pode ser lida em inglês e em latim aqui, ou apenas em inglês aqui, ou apenas em português aqui.)

Os “apologistas” tridentinos às vezes argumentam que, não fosse a Igreja Romana, os protestantes jamais teriam a Bíblia. Esse argumento é risível para qualquer um que, tendo lido o Concílio de Trento, note que aquilo que ali se faz é tudo, menos preservar o texto bíblico. Serviu, pelo contrário, para preservar um erro de tradução de um texto bíblico. Como é infalível esse Concílio...

Mas chutar o Concílio de Trento é chutar cachorro morto. O problema se torna mais sério quando o erro de tradução está na Bíblia do próprio protestante. É um desafio encontrar uma Bíblia em que, por exemplo, a primeira conjunção de Romanos 3:29 esteja realmente traduzida. (É curiosos que Jerônimo acertou a tradução, mas uma versão baseada na Vulgata, como a Douay-Rheims, errou.) Traduzir a conjunção modifica totalmente o sentido do versículo anterior, e portanto modifica inteiramente o que chamamos de “justificação”, mas como o protestante está em geral interessado em preservar sua doutrina da justificação (assim como o católico está interessado em preservar sua prática da penitência), fica por isso mesmo.



(G. M. Brasilino)

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