21/10/14

Por que a noção de “Igreja Invisível” é inaceitável

4 Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação;
5 Um só Senhor, uma só fé, um só batismo;
6 Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.
(Efésios 4:4-6)


A noção de “Igreja Invisível” está explicitamente presente nas teologias sistemáticas de origem evangélica fundamentalista. É um dos muitos dualismos nos quais o protestantismo popular caiu: há a “verdadeira Igreja”, que é invisível e composta de todos os “verdadeiros” cristãos; entretanto, essa “verdadeira Igreja” não corresponde exatamente à “Igreja visível”, ou seja, à Igreja como conhecemos historicamente, a saber, dividida e imperfeita. Essa noção “platoniza” aquilo que deveria ser escatológico: a Igreja presente (militante) é imperfeita, e a Igreja futura (triunfante), perfeita. A conseqüência imediata é: nem todos os membros da Igreja visível são membros da Igreja invisível.
Afirmo diferentemente: a única Igreja que existe é a visível, e são membros dela todos aqueles que visivelmente o são (ou seja, todos aqueles que foram batizados), santos e pecadores igualmente.
Em vão procurar-se-á qualquer texto bíblico que legitime, ainda que implicitamente, a noção de Igreja invisível. Pelo contrário, a mais depravada das Igrejas do Apocalipse, a Igreja de Laodicéia, é claramente reconhecida como Igreja por Cristo, e seu anjo (isto é, seu bispo), como um verdadeiro mensageiro de Deus, ainda que sob a ameaça da condenação. De fato “igreja invisível” é uma contradição: igreja (ekklēsia) significa reunião, assembléia ou convocação. Uma reunião invisível não é uma reunião de maneira alguma; somente a igreja visível se reúne.
O evangélico mediano responde, estarrecido: “Mas nem todos são cristãos verdadeiros!”. É irrelevante: quem disse que todos os verdadeiros membros do Corpo de Cristão são ou serão salvos?
Nesse ponto, a reação evangélica guarda um resquício de sua origem histórica: o predestinarianismo dos reformadores. No desespero ante a situação eclesial que tiveram que enfrentar, os reformadores (de John Wycliffe em diante) platonizaram a Igreja: a verdadeira Igreja é a Igreja dos predestinados, ou seja, daquele que o próprio Deus escolheu para que dela participassem; por trás do plano histórico existe uma ordem providencial perfeita. Reagiram contra um erro, é verdade; mas a reação foi desmedida.
Não que não haja uma predestinação; é claro que há. Mas essa predestinação consiste justamente em que Deus coloque na Igreja visível seus escolhidos (At 2:47; 13:48; etc). A predestinação não é uma definição extensiva da Igreja; é o modo como Deus a faz crescer (em oposição ao modo como o Inimigo a faz inchar).
Por um lado, com a noção de Igreja Invisível, por vezes quer-se enfatizar um ponto importante, e que deve ser mantido: a existência de uma comunhão (mesmo imperfeita) entre cristãos denominacionalmente separados. Essa separação foi fortalecida (ainda que não criada) pelas conseqüências da Reforma. Essa comunhão se dá porque, sob um mesmo batismo, todos os cristãos estão sujeitos ao Senhorio do Filho de Deus e sob a ação interior de um mesmo Espírito Santo, produzindo uma fraternidade verdadeira.
Na realidade, porém, tal conceito só serve para agravar a situação, porque se a verdadeira Igreja é a invisível, não há porque se preocupar com uma união real, concreta, palpável entre os cristãos, para uma proclamação em uníssono. Ou seja, a noção de Igreja Invisível obscurece o fato de que essa comunhão imperfeita é imperfeita, e que a culpa disso é humana. A idéia de “Igreja invisível” não criou a separação entre as igrejas protestantes, mas turva a visão da necessidade de unidade. Unidade, ainda que não signifique uniformidade, significa sempre identidade. Mais que isso, essa idéia desresponsabiliza os trabalhadores pelo mal serviço ministrado à Vinha do Senhor.
Uma Igreja dividida não pode cumprir com a sua missão perfeitamente; nenhum corpo pode funcionar havendo separação entre seus membros. A Igreja não pode ser, por um lado, a manifestação concreta do Reino de Deus e, por outro, invisível.

G. M. Brasilino

12 comentários:

  1. "O evangélico mediano responde, estarrecido: “Mas nem todos são cristãos verdadeiros!”. É irrelevante: quem disse que todos os verdadeiros membros do Corpo de Cristão são ou serão salvos?"
    Como é possível que um membro do Corpo de Cristo não seja salvo?

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    1. E por que seria impossível?

      27 Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular.
      (1 Coríntios 12:27)

      1 Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem abuse da mulher de seu pai.
      (1 Coríntios 5:1)

      10 Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.
      11 E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.
      (1 Coríntios 6:10,11)

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    2. Nunca vi tanta confusão em só artigo. O autor não distingue a igreja como organismo (aqueles que participam de Cristo e de seus benefício - Herman Bavinck) e como instituição. Confunde a instituição com o organismo (parágrafo 8°). Confunde os atributos da igreja (organismo) como se o devessem ser expressos unicamente na igreja (instituição). E, por isso, irá discordar da "noção de igreja invisível", pois tem e uma péssima noção eclesiológica.

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    3. Não há distinção real entre o organismo e a instituição. A distinção é meramente lógica. Todos os que são parte da instituição são, em maior ou menor medida, participantes de Cristo.

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    4. Giordano, preciso discordar. O próprio Cristo alega que a distinção é real. Ele afirma que há joio no meio do trigo. Não somos nós quem fazemos tal separação. Para citar Bavinck novamente: "Muitos que estão na comunhão dos sacramentos COM a igreja não estão, contudo, NA igreja". Novamente, há membros da verdadeira igreja fora da igreja visível, tais como os anjos, o ladrão na cruz, e todos os não israelitas que foram salvos antes da vinda de Cristo, pois a religião cristã é tão antiga quanto o mundo (Agostinho, Enchiridion 29; Cidade de Deus XVIII, 23,47; Epistle 102). Orígenes também afirmou: "Às vezes acontece que a pessoa que sai está dentro e a pessoa que parece permanecer está fora". Nós não conhecemos o coração das pessoas. Apenas Deus conhece e apenas Ele sabe se essa pessoa está de fato em Cristo. Esse é o intuito de falar da igreja invisível. Ela compreende não todos os membros, mas todos os eleitos.

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    5. 1. A premissa oculta e errada do seu raciocínio é a de que toda a Igreja desfrutará da salvação final (vida eterna). Isso não é dito nas Escrituras.

      2. Não há nenhuma relação entre a Parábola do Joio e do Trigo e a Igreja. O campo, na parábola, é ao mesmo tempo o mundo e o reino de Deus, não a Igreja. O joio é retirado DO reino.

      3. "[O]s anjos, o ladrão na cruz, e todos os não israelitas que foram salvos antes da vinda de Cristo" são todos visivelmente membros da Igreja no Paraíso, embora não sejam visíveis na terra.

      4. É claro que não conhecemos o coração de ninguém. Mas não é o coração que define a membresia na Igreja. São os meios da graça ou sacramentos (1 Co 10:16,17; 12:14). O direcionamento do coração, movido pela graça, "define" a vida eterna, não a membresia na Igreja.

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  2. Giordano, nós concordamos em conteúdo, mas discordamos na terminologia. Você afirma que nem todos os que estão na igreja desfrutarão a salvação. Como não sou apegado a termos, então abro mão de "igreja invisível". Esse é o ponto central da questão: há o corpo de Cristo que compreende todos os que foram eleitos antes da fundação do mundo. Há ovelhas e lobos (já que recusa o joio e o trigo).

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    1. Nós discordamos no conteúdo. Tanto faz se chama de Igreja ou Corpo de Cristo. O Corpo de Cristo é composto tanto de eleitos quanto de réprobos. Porque o que define o corpo de Cristo, novamente, não é o seu coraçãozinho; é a participação sacramental (1 Co 10:16,17; 12:13).

      A Verdadeira Igreja de Cristo, Seu Corpo, Sua Noiva, é feita de joio e de trigo; é composta de santos e de devassos; de eleitos e de réprobos; de justos e de pecadores; de servos de Deus e de servos de Satanás; de ovelhas e de lobos. Eles são REALMENTE parte dela e são realmente irmãos.

      O problema principal quando se fala em "Igreja invisível" é que isso faz com que o cristão leia "Igreja invisível" onde ele vê "a Igreja" nas Escrituras, quando na realidade essa distinção é inexistente.

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    2. Ok Gyordano. Eu estou convicto e você está convicto. Nenhum de nós será persuadidos e/ou dissuadidos. Suspeito que você seja batista, pois Steve Montgomery, batista, também defende ferrenhamente essa posição. Mas eu sou confessional e, a menos que o Espírito e a Palavra me convença do erro, manterei junto com os pais, a CFW e a tradição reformada a distinção. Abraços e fique na paz!

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    3. Estou satisfeito desde que o Sr. admita que essa distinção jamais é apresentada nas Escrituras e que, por isso, não pode ser usada para interpretar as Escrituras.

      Minha posição é diferente da posição batista clássica, que está destinada ao erro por falhar em reconhecer que a fronteira da Igreja é definida pelos sacramentos.

      Eu defendo apenas aquilo que os cristãos de todas as épocas sempre creram antes de John Wyclif inventar a noção de Igreja invisível: a Igreja Verdadeira de Cristo é um "corpus permixtum" de santos e pecadores.

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