29/09/14

Voto e Promessa

Apesar do título, e apesar de estarmos em época eleitoral, o propósito da postagem não é político.

Prática comum da espiritualidade pentecostal é “fazer voto(s)”. É como fazer promessa a um santo: o sujeito quer algo de Deus e condiciona um determinado “sacrifício” ao recebimento do pedido. A identidade entre as duas coisas não é em vão. Num país como o Brasil, em que o catolicismo popular é tão cheio de tradições, é inescapável que os pentecostais, em grande parte originários do catolicismo popular, carreguem consigo essas mesmas tradições — com um nome diferente, é claro.

São corretos esses votos? O pentecostal, diante dessa pergunta, talvez aponte uma série de textos bíblicos contendo a palavra “voto”, ficando contente com isso, como se a Bíblia confirmasse aquilo que ele chama de voto. É corretíssimo fazer votos! E, no entanto, os votos não são exatamente aquilo que acontece no caso pentecostal (nem são, aliás, aquilo que o catolicismo popular chama de promessas). Mas são parecidos o suficiente para causar confusão.

Votar (heb. nadar) é comprometer-se a fazer (ou não fazer) algo. Em geral, na Bíblia, quem faz um voto não busca nada em troca, diferindo da prática de usar o voto como moeda de troca divina. Há exceções à regra, mas essas exceções são geralmente trágicas. Tudo aquilo que o homem comprometeu-se diante de Deus, deve fazer, e isso independe de qualquer “recompensa” pedida.

2 Quando um homem fizer voto ao Senhor, ou fizer juramento, ligando a sua alma com obrigação, não violará a sua palavra: segundo tudo o que saiu da sua boca, fará.
(Números 30:2)

23 O que saiu dos teus lábios guardarás, e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao Senhor teu Deus, declarando-o pela tua boca.
(Deuteronômio 23:23)

Os textos acima esclarecem como se faz um voto: basta nos comprometermos com Deus em fazer algo, mesmo que não usemos a palavra “voto”. O Novo Testamento é muito silencioso sobre a prática do voto (afirmando, negando ou corrigindo), embora por duas vezes o apóstolo Paulo tenha feito votos, uma das quais, voluntariamente (At 18:18; 21:23-26), devendo nisso ser exemplo para os cristãos (1Co 11:1). Seguindo a definição de Dt 23:23, o voto inclui tudo aquilo que o homem compromete-se, diante de Deus, a fazer; por essa definição, também o jejum (comprometer-se na abstinência de alimento) é um voto, e sobre esse há mais textos no Novo Testamento confirmando a prática (Mt 6:16-18; At 13:2,3; 14:23; 1Co 7:5). No geral, os nossos modelos de voto vêm do Antigo Testamento.

Três casos são importantes:

1. O voto de nazireu (Nm 6). um período especial de consagração a Deus. O que se buscava com esse voto não era nada mais do que a própria consagração. O exemplo mais famoso de nazireu foi Sanção (Juízes 13:7; 16:17).

2. O voto feito por Ana (1Sm 1). Por não ter filhos, ela compromete-se a consagrar o filho que Deus lhe der (1Sm 1:11). Entretanto, no caso de Ana não há uma troca: Ana compromete-se a dar a Deus de volta aquilo que Ele lhe der (o mesmo ocorrendo em Gn 28:20).

3. O caso de Jefté (Jz 11). Como no caso de Ana, os pais israelitas tinham, em razão de sua autoridade, liberdade para fazer (ou desfazer) votos por seus filhos (Nm 30:3-5). Entretanto, o voto de Jefté foi tolo, terminando por sacrificar sua própria filha.

Um conceito fundamental na doutrina cristã é a noção de Graça. O apóstolo Paulo pergunta, retoricamente: “E que tens tu que não tenhas recebido?” (1Co 4:7b). Tudo aquilo que temos é por nós recebido, até mesmo nossa fé (Rm 12:3; Tg 2:5). Por isso a ênfase dos reformadores recaiu sobre a graça: sola gratia, a salvação é exclusivamente pela graça. A bondade divina não pode ser comprada, nem tampouco ela está longe de nós:

7 Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.
8 Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á.
(Mateus 7:7,8)

Aquele que pede crendo, receberá (Mt 21:22), segundo dentro da vontade divina (1Jo 5:14). Diante da promessa de Deus, de que aquele que pede, recebe, não há nada que o ser humano possa acrescentar, nenhum sacrifício a realizar, para “convencer” a Deus. Nesse sentido, qualquer prática desse tipo, que vise receber algo de Deus através de uma “compensação”, deve ser rejeitada pelos cristãos. O modo de discernir entre o voto correto e o incorreto é verificar se o voto é uma barganha, ou se antes ele expressa um interesse sincero em devolver a Deus tudo aquilo que ele nos dá.


G. M. Brasilino

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