06/09/14

Teologia e Relacionamento

 Certa vez, em uma conversa sobre a vida prática na Igreja, ouvi uma pessoa dizer, quando o assunto da doutrina surgiu, algo assim: “Eu não me preocupo muito com doutrina. Eu foco no meu relacionamento com Deus e com o meu próximo.”

Tenho certeza que a intenção não foi má. É provável que ela se refira a minúncias teológicas, que são, de fato, incomparavelmente menos importantes que uma vida sincera de oração, adoração e serviço. Mas se a intenção é boa, ela revela um equívoco no modo como se usa a expressão “doutrina”. O que dizer de uma disjunção entre doutrina e relacionamento com Deus?

29 E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
30 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento [dianoia], e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
(Marcos 12:29,30)

A regra maior do nosso relacionamento com Deus é esse mandamento. A forma tradicionalmente repetida. “Amar a Deus sobre todas as coisas”, não é incorreta, embora não seja bíblica. A forma utilizada por Jesus (citando uma versão de Dt 6:5), porém, é muito mais forte que a repetição tradicional. Pensar no amor como um sentimento, algo que se dá nas “emoções”. Isso não está errado, mas o amor é na verdade bem mais que isso. O mandamento exige não apenas que amemos a Deus mais do que todo o resto, mas amemos a Deus com tudo o que nós temos: cada ação, cada pensamento, cada sentimento, cada esforço deve ser empregado em amor a Deus. O primeiro mandamento de todos exige nada menos que compromisso total.

Doutrina (e Teologia) nada mais é que a tentativa humana, mas sob a graça de Deus de que cada um de nossos pensamentos sejam cativados por Cristo (2 Co 10:5), de que a nossa mente seja coberta das imagens da história da salvação, de que possamos pensar todas as coisas à luz da revelação divina.

O modo como Deus se revelou nas Escrituras através dos profetas e através do seu Filho é primeiramente narrativo. A discussão conceitual (como quando falamos em imutabilidade, em providência, etc) é abstrata, no sentido próprio da palavra: é extraída da história, dos atos divinos. Uma comparação entre o Credo Apostólico e o Credo Niceno mostrará facilmente que o primeiro é principalmente uma história (uma história teológica), enquanto o segundo é um incremento abstrato à primeira.

Nós somos tão acostumados a pensar abstratamente, que, quando perguntados sobre o que é necessário crer para receber a salvação em Cristo, falamos sobre “Trindade”, sobre “justificação”, etc. O apóstolo Paulo disse: “...Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10:9). Duas coisas são exigidas: confessar a Jesus como Senhor e crer que Deus o ressuscitou dos mortos. Tanto o senhorio quanto a ressurreição de Jesus são acontecimentos. “Senhor” (em boa parte do Novo Testamento) não significa “Deus” ou “onipotente”. Assim como “Messias” (Cristo), “Senhor” é um título de autoridade; Jesus se tornou Senhor pela ressurreição (Rm 14:9; cf. Mt 28:18; At 2:36), ainda que já fosse Deus antes (Jo 1:1; 8:58). O paralelismo entre a divindade e o senhorio de Cristo encontram a mais bela expressão em Fp 2:5-11.

Doutrina é pensar-se como parte dessa narrativa que vai desde a Criação, passando pela inteira vida de Jesus Cristo, culminando nos Novos Céus e Nova Terra, remetendo tudo a esse referencial eterno. Discussões mais abstratas são importantes para fixar em poucas palavras uma história tão grande.

Assim como qualquer outra atividade da Igreja (a pregação, a oração, o culto, o ministério, etc), a doutrina pode se tornar um ídolo, quando não é feito para a glória de Deus e como resultado da ação do Espírito Santo. A doutrina pode facilmente enveredar por discursos inúteis, mas o mesmo pode ocorrer em nossas orações. Pode alimentar o orgulho, como podem as práticas espirituais de corações não convertidos.

Mas a discussão mais abstrata não é uma criação de teólogos por cima das narrativas bíblicas. A discussão sobre o tema da eleição divina em Romanos (capítulos 9-11) está cheia de abstração. O que o apóstolo Paulo faz é observar a narrativa em que Deus faz aliança com Abraão, Isaque (rejeitando Ismael) e Jacó (rejeitando Esaú), da qual ele extrai (abstrai) uma regra: a eleição divina não se dá pela descendência carnal, mas pela promessa divina (pela graça, não pelas obras).

A conclusão de Paulo não é inútil, mas uma lei divina fértil em consequências: se a eleição é pela graça, não pela descendência carnal, a salvação está disponível para todos os que a graça alcançar; não está limitada a nenhum povo. Como sabemos, lendo Atos e Gálatas, esse era um problema muito agudo no início da igreja, quando todos eram judeus e a conversão dos gentios eram um problema. A acusação que o apóstolo Paulo faz aos seus compatriotas judeus, que não compreendiam a salvação dos gentios, é: tinham zelo (compromisso radical com Deus), mas sem entendimento (Rm 10:2).


G. M. Brasilino

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