29/09/14

Pão e Vinho, elementos da Comunhão

A teologia mais diversificada entre igrejas de origem protestante acerca do vinho é o chamado memorialismo; a Comunhão no Pão e no Vinho são apenas lembranças, representações de Cristo. Embora não fosse a teologia de Lutero ou de Calvino, foi desenvolvida por Zuínglio e adotada pelos anabatistas, os antepassados da grande maioria das igrejas ditas protestantes. “O pão e o vinho são apenas símbolos”, é o que geralmente é dito (a palavra “símbolo” usada em sentido incorreto, querendo dizer que o pão e o vinho são apenas sinais).

Essa teologia cria naturalmente um problema que não havia na Bíblia: se o propósito dos elementos presentes na instituição original (pão e vinho) é de que sejam sinais, o que fazer se os sinais deixam de sinalizar aquilo que deveriam? Em culturas diferentes, objetos diferentes sinalizam coisas diferentes. Seguindo essa linha de raciocínio, evidentemente a Ceia poderia ser celebrada com qualquer elemento que fosse tão representativo quanto o pão e o vinho eram quando ocorreu a primeira ceia, na noite em que Jesus foi traído.

O raciocínio aí esboçado é comum nas discussões de Missões Transculturais (Missiologia, Antropologia Missionária, etc): o evangelho deve ser pregado de uma maneira que preserve ao máximo possível a cultura local. Por isso, seria legítimo celebrar a Ceia com tapioca, açaí, biscoito, refrigerante. "Missionário fulano de tal fez assim". Curioso como uma teoria muda o lugar que uma prática tem na nossa mentalidade, e muda assim a própria prática.

Não apenas não há o mais mínimo exemplo bíblico de que a Mesa do Senhor tenha sido ministrada sem pão e vinho, mas também não há a mais mínima permissão a que isso se faça assim. Embora os apóstolos tenham mostrado certa sensibilidade cultural, evitando tudo aquilo que fosse empecilho para a pregação e utilizando a linguagem mais adaptada à situação local, não é fácil afirmar que eles sempre buscaram usar a cultura local como paradigma. Há duas práticas que os apóstolos, sendo judeus, mantiveram mesmo entre os gentios. Repetidas vezes os apóstolos exortam à prática do osculo santo ou ósculo de amor (Rm 16:16; 1Co 16:20; 2Co 13:12; 1Te 5:26; 1Pe 5:14); o apóstolo Paulo também exorta as mulheres de Corinto ao uso do véu (1 Co 11:5,6).

Nenhuma das duas práticas era comum ou regular entre os gentios; são práticas orientais, e permaneceram durante séculos como práticas litúrgicas. Quando queremos nos abster dessas práticas, dizemos (com justiça) que pertenciam àquelas culturas; e, no entanto, os apóstolos não mostraram nem um centímetro dessa preocupação.

Certamente missionários atuais tomariam o máximo cuidado para que costumes ocidentais não invadam este ou aquele campo missionário; os apóstolos não fizeram isso. Eles não tinham nenhum problema em inserir novos símbolos na cultura. Para os apóstolos, simplesmente não havia tal coisa como "cultura"; não apenas a palavra, mas o conceito mesmo de cultura não existia. Porque convocavam os homens não para fazer parte desta ou daquela cultura, mas para ingressar num novo povo, numa comunidade sem limitações nacionais, que tem seus próprios símbolos, que marcam essa unidade: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.” (1Co 10:17).

“O mesmo pão” (ou “um só batismo”, em Ef 4:5) marca a unidade de cada cristão não com a sua respectiva cultura, mas uns com os outros, todos fazendo referência à mesma narrativa da vida, morte e ressurreição Jesus. O que se evidencia, então, é uma eclesiologia deficiente: a falha em perceber a Igreja como um novo povo, não como um ideal ou como uma promessa escatológica, mas de fato. Celebramos a Comunhão com pão e vinho não porque eles tivessem, na cultura de Jesus, algum significado simbólico. Celebramos com pão e vinho porque foi assim que Jesus o fez, dando um significado especial àquilo que não tinha, e confiando aos seus discípulos sua preservação.


G. M. Brasilino


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