01/09/14

É errado repetir orações?

É prática litúrgica de católicos e ortodoxos a repetição de orações, geralmente de memória. A oração mais difundida de todas entre os cristãos de todas as épocas é conhecida como 'Pai Nosso', ensinada por Jesus, no Novo Testamento, em duas versões (Mt 6:9-13 // Lc 11:2-4). Mas há muitas outras orações baseadas em textos bíblicos; a primeira metade da oração católica “Ave Maria” é retirada do Evangelho de Lucas (e, de fato, é a segunda parte que o protestantismo considera problemática), ao passo que entre os ortodoxos é comum a repetição de uma oração baseada na do publicano da parábola (Lc 18:13).

Essa prática também é feita por luteranos, anglicanos e protestantes de linha histórica mais tradicional. Entretanto, para membros de igrejas mais modernas (como evangélicos de linha carismática, pentecostal e neopentecostal), repetir orações é algo muito estranho, e por vezes explicitamente condenado com base na interpretação de um texto bíblico específico, abaixo comparado em duas versões:

7  E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos.
(Mateus 6:7, ACF)

7 E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos.
(Mateus 6:7, NVI)

Essas são duas versões protestantes: uma clássica e uma contemporânea (por vezes coloquial). Não é difícil ver que, nesse texto, a tradução ACF é superior à NVI, no que diz respeito à clareza da leitura. Podemos discutir quando uma repetição é vã (inútil, sem sentido) e quando não é; a incerteza diz respeito à situação concreta, e não ao texto. Mas a NVI não é clara quanto ao texto: o que se condena é repetir (não fiquem sempre repetindo, portanto orem sempre diferente) ou usar sempre a mesma repetição (não fiquem sempre repetindo, só repitam às vezes)? Essa incerteza é típica da linguagem coloquial que a NVI adota.

A clareza da tradução não indica por si qual é a mais correta, ainda que seja uma característica esperada de uma boa tradução (refiro-me à tradução do versículo especificamente, já que a NVI costuma ser superior à ACF em grande parte do Antigo Testamento). Talvez o texto original seja ambíguo, de modo que a melhor tradução será a que preserve a ambigüidade. De fato, o verbo utilizado no texto original, battologeo (que não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento), guarda certa ambigüidade, ainda que o sentido principal seja o de fazer discursos sem sentido, balbucios.

No entanto, o leitor sem conhecimento da língua grega não precisa desesperar-se diante de um texto assim. A doutrina cristã exige não apenas obediência às palavras de Jesus e dos apóstolos, mas também aos seus atos, os quais servem como explicação e explicitação das palavras. Obediência também é imitação. A pergunta é: Jesus, em algum momento, repetiu orações? Não é difícil encontrar resposta no mesmo evangelho:

44 E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
(Mateus 26:44, ACF)

Semelhantemente ocorre na crucificação, onde ocorre a famosa exclamação:

E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
(Mateus 27:46, ACF)

Os salmos serviam de orações litúrgicas para os judeus. Jesus repete, nesse momento, a introdução do Salmo 22 (e talvez o salmo todo), em uma versão aramaica, que era sua língua diária (em hebraico teria soado como Eli, Eli, lamá 'azavtani). Assim, em pelo menos dois textos, Jesus faz repetição de orações, significando que não há problema em repeti-las. Podemos acrescentar mais um exemplo fácil: se Jesus participava do serviço da sinagoga (Mt 4:23; 9:35; 12:9; 13:54; etc), sem dúvida fazia todas as orações litúrgicas.

Não somente Jesus fazia orações repetidas, mas também foi isso que ele ensinou aos apóstolos. O Pai Nosso não é somente um modelo de oração, mas é uma oração em si mesmo:

1 Certo dia Jesus estava orando em determinado lugar. Tendo terminado, um dos seus discípulos lhe disse: "Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos discípulos dele".
2 Ele lhes disse: "Quando vocês orarem, digam: ‘Pai! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino.
3 Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano.
4 Perdoa-nos os nossos pecados, pois também perdoamos a todos os que nos devem. E não nos deixes cair em tentação’ ".
 (Lucas 11:1-4)

Na versão lucana, diante do pedido dos apóstolos, a resposta de Jesus é “digam”. As diferenças entre a versão mateana (Mt 6:9-13) e a versão lucana mostram como o Pai Nosso não deve ser usado como um talismã mágico, algo que não pudesse ser modificado de acordo com a necessidade. E, não obstante, é essencialmente o mesmo nos dois evangélicos, a essência do ensino de Jesus sobre oração.

Mas o que dizer do texto já citado, Mt 6:7? Qual é seu sentido, diante dos atos de Jesus? Não é muito difícil perceber, lendo os evangelhos sinóticos, que o ensino de Jesus nem sempre consistia em trazer novas doutrinas, mas em convocar retorno à revelação originalmente entregue por ministério dos profetas. Eclesiastes diz algo bastante semelhante:

2 Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras.
(Eclesiastes 5:2)

Jesus condena a prática pagã (dos gentios) de repetir palavras inúteis, retóricas, transformando a oração em uma tentativa de convencer a Deus: ele já sabe do que seus filhos precisam, antes de orarem (v. 8). Colocando o texto de Mt 6:7 no contexto judaico de Jesus (e do escritor do evangelho), ele assume um sentido totalmente diferente, porque os judeus faziam (e fazem) orações repetidas, mas Jesus não os condena por isso (pelo contrário, ele mesmo tinha que participar delas na sinagoga). Ele não diz “não façam assim, como os doutores da lei”, ou “como os sacerdotes”, ou “como os rabinos”, ou "como na sinagoga". Condena explicitamente a prática dos gentios, que, não obstante, poderia se tornar prática dos filhos de Deus.

É evidente que a oração litúrgica não deve substituir a oração espontânea. Mas é importante dizer que a oração espontânea também não deve substituir a oração litúrgica. Ela permite que toda a congregação, “a uma boca”, glorifique “ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15:6). O livro do Apocalipse, que em parte representa a liturgia celeste (com cânticos, adoração e apresentação do sacrifício do Cordeiro), está repleto de orações feitas em conjunto por aqueles que João viu no céu. Orar de coração não significa apenas orar com a vontade, com o sentimento, mas, antes disso, orar com a mente, com o entendimento.

De fato, o Novo Testamento relata várias pequenas orações de grande importância litúrgica. As mais famosas são Amém (“é verdade”, “é confirmado”) e Aleluia (“louvai a Iavé”), ambas parte das orações dos Salmos e da liturgia judaica. Mas podemos falar também em Marana ta (“vem, Senhor!; 1 Co 16:22; cf. Ap 22:20) e Hosana (“salva!”; Mt 21:9,15; Mc 11:9,10; João 12:13). A última, também famosa, aparece na Escritura sempre num coro, seja de anjos, seja na entrada real de Jesus em Jerusalém (repetindo, aliás, a aclamação de Sl 118:26). Como é possível que cristãos gentios entendessem essas palavras, de origem hebraica e aramaica? Elas eram (e ainda são) repetidas por toda a Igreja em sua liturgia.

Não há um único culto cristão que não tenha uma oração repetida. O canto congregacional não é uma oração? Se todos louvassem espontaneamente, não haveria um louvor de toda a igreja. Mesmo as igrejas pentecostais de espiritualidade mais individualista por vezes incluem como fechamento de sua liturgia, como bênção apostólica, uma oração que repete, com alguma variação, 2 Co 13:14: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém.”



G. M. Brasilino

2 comentários:

  1. Outros exemplos de orações repetidas:
    Sl 136; Is 6:1-3; Ap 4:8
    Os próprios Anjos do Céu repetem sem cessar, dia e noite: "Santo, Santo, Santo..." !

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