21/07/14

Elementos de Teologia da Revelação (I)

A Teologia tem a obrigação de ser radical. Dizendo “radical”, não se faz referência aos modos como essa palavra já foi usada na recente história teológica cristã: aqui não se endossa nem a Reforma Radical (séc. XVI), nem o Criticismo Radical (séc. XIX), nem a Ortodoxia Radical (sécs. XX e XXI). Ser radical significa, para a Teologia, ir até a raiz, radix, daquilo que a sustenta e anima, não apenas elaborando verbalmente sobre o dogma, mas retrocedendo do dogma à revelação. A Revelação é a raiz da Teologia Cristã.

Revelação, Relato, Registro, Dogma, Dogmática. Essas cinco palavras representam os cinco passos que vão desde o ato divino originador até a crença ministerialmente ordenada. É próprio da ingenuidade teológica confundir esses pontos ou suprimir alguns deles. Cada um desses pontos demanda um questionamento próprio: Qual é a Revelação correta? Qual é o Relato correto? Qual é o Registro correto? Qual é o Dogma correto? Qual é a Dogmática correta?

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Revelação é a manifestação de Deus feita por ele mesmo — e, nele, de tudo mais. É o ato divino de dar-se a conhecer. Mas quando dizemos Revelação, em vez de revelação, distingüimos uma revelação especial de Deus, um conjunto de acontecimentos nos quais Deus se fez particularmente conhecido. Esses acontecimentos são reconhecidos pela Teologia Cristã como aqueles em que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó se fez conhecido através dum número de profetas hebreus (especialmente Moisés), e sobretudo “na face de Jesus Cristo” (2 Co 4:6). A realidade dessa Revelação não invalida outras revelações. No entanto, uma vez reconhecida, tal Revelação torna-se nuclear, como um centro em torno do qual todo o mais deve girar. Qualquer experiência cristã posterior deve ser interpretada (ou rejeitada) sob a experiência primeira que é a Revelação; esta deve ser tudo ou nada na hierarquia da experiência. A Revelação é radical.

A Revelação é uma experiência primeira. Diferentemente de várias de suas concorrentes na Antigüidade, a doutrina cristã não se sustenta sobre especulações acerca da essência de Deus. Ainda que não faltem, essas especulações são ramos tardios, e não a própria raiz. A doutrina se sustenta, antes, sobre experiências: experiências concretas, acontecimentos presenciados, sobre aquilo que foi visto, ouvido, tocado (cf. 1 Jo 1:1). Mas quem presenciou?

A Teologia Cristã clássica distingue entre uma Revelação Geral e uma Revelação Especial. A Revelação Geral seria um conhecimento universalmente disponível acerca de Deus (assim como das implicações que daí se dão), ao lado da Revelação Especial à qual me referi acima. A Revelação Geral, através da operação da inteligência sobre a realidade (e disponível a todos, daí ser Geral), se limitaria a um conhecimento da existência de Deus e de suas perfeições. Trata-se, portanto, de um conhecimento metafísico de Deus, acessando apenas as chamadas verdades necessárias, e por isso não diria respeito a nenhum ato específico de Deus além da Criação e Sustentação de todas as coisas. Tal conhecimento estaria na origem de todas as demais crenças religiosas, que interpretaram esse conhecimento com graus variados de correção e sutileza.

A relação entre Revelação Geral e Revelação Especial é a transposição para o terreno do conhecimento da questão entre Natureza e Graça, que encontra respostas diferentes no Catolicismo e no Protestantismo como classicamente concebidos. A despeito dessas diferenças, a mais violenta interpretação protestante do Pecado Original, a que coloca no homem um ódio natural a Deus, deve admitir ao homem algum tipo de conhecimento de Deus — do contrário, não poderia odiá-lo. Algum conhecimento natural correto deve ser admitido, ainda que termine tomando roupagem idolátrica.

No entanto, “Revelação Geral” é quase uma contradictio in adjecto. Embora o conceito seja admissível, o nome nos induz ao problema: que significa falar numa Revelação que é Geral? Revelar não é justamente revelar o que está, de algum modo, oculto? Se a Revelação é Geral, não pode haver nada oculto, podemos concluir. O que há, na realidade, é um potencial para o conhecimento de Deus através da inspeção da natureza. Não é uma revelação em sentido estrito, e por isso jamais pode se colocada ao lado da Revelação cristã sem confusão, ainda que ambas admitam algum tipo de testemunho.

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Relato é o testemunho originário, primeiramente verbal, do acontecimento da Revelação. Como somente um certo número de indivíduos presenciou os eventos nos quais Deus se fez conhecido em Cristo (valendo o mesmo para Moisés e os profetas do Antigo Testamento), esse conhecimento é passado adiante o anúncio, que se diz kerugma (κήρυγμα) em grego e que podemos chamar Querigma em português. Chamamos de Querigma o núcleo essencial daquilo que os apóstolos testemunharam em Cristo: sua pessoa, seus milagres, sua morte, sua ressurreição, seu anúncio apocalíptico. É a transmissão, por meio humano (ainda que sob o guiamento providencial), do conteúdo da Revelação. O conteúdo da Revelação, para quem o testemunhou originalmente, faz-se conhecido através do relato.  Ao lado do relato narrativo acerca de Jesus, havia o ensino moral correspondente (didakhē), direcionado aos convertidos.

O relato é substancialmente igual a qualquer testemunho. Todos os conhecimentos que temos são ou imediatos (e esse é o conhecimento das testemunhas originais) ou mediados. O historiador ou o juiz de direito não tem meios de observar o passado senão através do testemunho de quem presenciou este ou aquele conhecimento; seu conhecimento do passado é mediado por aquilo que há de presente. A despeito da fundamentalidade de nossos conhecimentos imediatos, a esmagadora maioria daquilo que sabemos é mediada, é conhecido através de autoridades que transmitem aquele conhecimento. Nenhuma ciência seria possível sem isso, e nem tampouco o é a Teologia.

Essas autoridades, no que tange à Revelação cristã, são os apóstolos de Jesus de Nazaré, “despenseiros dos mistérios de Deus” (1 Co 4:1), oikonomoi musteriōn theou. No Novo Testamento, Jesus jamais ordenou aos seus apóstolos que escrevessem, mas que anunciassem, que pregassem “sobre os telhados” (Mt 10:27), e assim eles fizeram por cerca de duas décadas antes do primeiro escrito neotestamentário.

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Se as palavras de Jesus foram conhecidas na antigüidade pela mediação dos apóstolos, as palavras dos apóstolos nos são conhecidas por pela mediação do registro escrito, a Escritura. No que tange ao que aqui se discute, o registro é a redução das palavras dos apóstolos (feita por eles mesmos ou por algum associado) a um meio suficientemente permanente para que resistam à sua morte. Dito desse modo, entretanto, porém, podemos ser induzidos a um anacronismo. A escrita da maior parte do Novo Testamento se deu enquanto os apóstolos ainda estavam vivos, ainda que datem de duas décadas depois do início do anúncio evangélico verbal. Tanto Paulo quanto os tessalonicenses estavam vivos aquele escreveu o que ficou conhecido como Primeira Epístola aos Tessalonicenses. A permanência do escrito é a nossa perspectiva sobre o seu significado.

Os escritos do Novo Testamento constituem basicamente de narrativas da vida de Jesus e do apóstolos e de cartas sobre como deve ser a vida da Igreja. As narrativas não devem ser interpretadas como biografias modernas. Elas são seletivas; os apóstolos escreveram apenas aquilo que julgaram ser importante para a sua audiência original. Assim como as igrejas de hoje, as igrejas da antigüidade enfrentavam dificuldades e buscavam resolvê-las meditando nas palavras e no exemplo de Jesus e dos apóstolos. Por isso, a seleção que os apóstolos fizeram buscava em parte solucionar esses problemas particulares das igrejas locais, e a linguagem de cada evangelho traduz-se na linguagem local. E isso nos conduz a uma dificuldade: a literalidade histórica das palavras dos evangelhos. Podemos tomar um exemplo dos textos da crucificação:

37 E Jesus, dando um grande brado, expirou.
39 E o centurião, que estava defronte dele, vendo que assim clamando expirara, disse: Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.
(Mc 15:37,39)

46 E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou.
47 E o centurião, vendo o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Na verdade, este homem era justo.
(Lc 23:46,47)

Como negritado, em uma versão o centurião reconhece a Jesus como Filho de Deus (uma declaração cristológica paralela à de Pedro); na outra, como um homem justo (isto é, inocente). Por mais que se alegue que os dois textos não são diferentes quanto ao seu significado dentro da narrativa, fato é que o centurião não pode ter dito as duas coisas ao mesmo tempo, e o mesmo ocorre com as palavras do próprio Jesus. Após contar a Parábola do Semeador (Mt 13:3-9 // Mc 4:2-9) Mateus e Marcos nos contam:

10 E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas?
11 Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado;
(Mt 13:10,11)

10 E, quando se achou só, os que estavam junto dele com os doze interrogaram-no acerca da parábola.
11 E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas,
(Mc 4:10-11)

As duas expressões, “reino de Deus” e “reino dos céus” são sinônimas. “Reino dos céus” é a versão utilizada exclusivamente por Mateus para as mesmas ocasiões (como o exemplo acima) em que Marcos e Lucas trazem “reino de Deus”. Aparece até mesmo na boca de João Batista (Mt 3:2). “Reino dos céus” é parte do estilo redacional de Mateus. Mas quem tentar apenas harmonizar os dois textos, justificando a redação diferente, perde de vista algo que o texto evidencia: assim como na referência ao centurião, é impossível Jesus ter dito literalmente as duas coisas ao mesmo tempo. Disse literalmente uma, ou disse outra, ou nenhuma das duas.

A comparação entre as palavras de Jesus (e, na realidade, de toda a narrativa) nos Evangelhos é chamada problema sinótico. Quem comparar os dizeres de Jesus nos Evangelhos inevitavelmente se deparará com redações diferentes. Compare-se, por exemplo, as parábolas. A Parábola dos Lavradores Maus (Mt 21:33-46; Mc 12:1-12; Lc 20:9-19) é um caso emblemático. O leitor notará muitas diferenças nos detalhes da parábola conforme contada nos diferentes evangelhos, e algo mais: aquilo que em Mt 21:41 é dito por Jesus, em Mc 12:9 é dito pelos seus interlocutores; Lc 20:16 distancia-se ainda mais, pois respondem “Não seja assim!” àquilo que em Mateus era sua fala!

A única possibilidade de harmonização é harmonização do sentido dos textos em geral, não da mera verbalidade. Os evangelhos escritos são primeiramente vox christi (voz de Cristo), e só secundariamente verba christi (palavras de Cristo). O harmonizador talvez apele para Mt 23:35 (// Mc 13:31; Lc 21:33): “as minhas palavras não hão de passar”, como se esse texto dissesse algo do como “minhas palavras permanecerão literalmente escritas”. O fato de que essas palavras estejam agora escritas faz com que o harmonizador se confunda; ele esquece que elas não estavam escritas quando Jesus o disse, nem estão todas escritas até hoje (cf. Jo 21:25), de modo que o texto refere-se ao cumprimento das palavras de Jesus, e não à sua escrita.


G. M. Brasilino

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