21/06/14

Contra o fundamentalismo evangélico

O fundamentalista divide o mundo em duas categorias: cristãos ortodoxos e não-cristãos. Ele crê que há um núcleo de doutrinas, fundamentos, nos quais o cristão deve obrigatoriamente crer; quem crer nesse núcleo de doutrinas é ortodoxo, e portanto cristão; quem não crer, não é realmente cristão, incluindo-se aí os hereges.

Mas nem todo fundamentalista é tão sectário a ponto de delimitar o cristianismo nos entornos de sua própria denominação evangélica. Na realidade, poucos são. A maioria dos fundamentalistas reconhece como cristãos aos outros evangélicos que apresentam teologias distintas. É comum que fundamentalistas de diferentes tradições (evidentemente não todas) reconheçam-se mutuamente como cristãos. Isso porque o fundamentalista separa pragmaticamente daquele núcleo de fundamentos um conjunto de interpretações teológicas para as quais dá uma margem de liberdade à medida que sejam possivelmente justificáveis na Escritura (ou seja, a possibilidade de justificá-las respeitando-se o princípio protestante da sola scriptura).

Essa separação, como dito, é pragmática. Não é uma separação teórica rigorosa, exatamente porque o fundamentalista evangélico adota (em tese) a sola scriptura. Isso significa que esse núcleo de fundamentos, que não podem ser negados, deve proceder da própria Escritura. E, no entanto, onde está esse núcleo de fundamentos na Escritura? Onde a Escritura a ele se refere?

É um problema insolúvel: não há um critério bíblico para diferenciar doutrinas que devem ser cridas (fundamentais) de teologias particulares (não-fundamentais, portanto). Qualquer critério apontado pelo fundamentalista deve ser necessariamente um critério não-bíblico, ainda que faça referência à Bíblia. Nesse caso o fundamentalista talvez apele para uma tradição ou para um consenso entre Igrejas evangélicas — incorrendo numa falácia de circularidade, porque o que deveria identificar uma Igreja evangélica é justamente a aceitação do fundamento (o fundamentalista não incluirá em seu consenso os católicos, os ortodoxos orientais calcedonianos, os não-calcedonianos, as seitas americanas surgidas no século XIX, etc). Esse tipo de fundamentalista (há outros) é na realidade um tipo de católico que trocou o catecismo pelo sola scriptura. E, nisso, o fundamentalismo destrói a si mesmo, porque apela para um fundamento que está fora da Escritura.

O fundamentalista com uma inteligência um pouco maior fará um recurso hermenêutico, metatextual: os fundamentos são as doutrinas claras (e que, por serem claras, não podem ser negadas, sob pena de estrita heresia); as teologias particulares, por seu turno, baseiam-se naquilo que não está claro na Escritura, e que por isso pode ser interpretado de um modo ou de outro, desde que em coerência com os fundamentos. Esse argumento é mais inteligente que o apelo ao consenso, posto que recorre ao que, não estando escrito no texto, está implícito na relação entre o leitor e o texto.

Todavia, não é difícil notar o que há de falacioso nesse segundo recurso. A “clareza” é a um só tempo uma função das aptidões tanto do leitor quanto do escritor, e não só deste apenas. Um escritor claro pode tornar-se obscuro nas mãos (e aos olhos) de um leitor inapto; um escritor obscuro pode abrir-se perante um escritor suficientemente perspicaz, cultivado e imaginativo. Mostra-se a falácia: o fundamentalista que fala em “doutrinas claras” e “textos obscuros” tem, ele mesmo, que decidir o que é claro e o que não é. Não há nenhuma forma a priori de decidir se um texto é claro; o critério se forma após leitura e dedicação. E assim ele tem, também ele, de recorrer à falácia do consenso: textos claros são aqueles que consensualmente (por um consenso delimitado a priori) se tratou como claros. Pior: isso não serve para separar fundamentos e teologias particulares, porque o calvinista fundamentalista acredita que os princípios do calvinismo são claros, ao passo que o arminiano fundamentalista geralmente pensa o mesmo de sua própria doutrina particular.

Tal problema tem uma solução no catolicismo, no qual existe uma instituição, o magistério, responsável por continuar o trabalho apostólico e por decidir hoje o que é heresia e o que não é. (Se as decisões do magistério são corretas e se são coerentes e consistentes é um problema totalmente diverso.) Um dado dogma católico torna-se claro porque quem o julga não são indivíduos, mas uma continuidade histórica eclesiástica; em certo sentido, é claro até para os idiotas. O católico assume o recurso a uma autoridade, enquanto o fundamentalista evangélico o encobre sob as malhas de uma sucessão de falácias.

***

O fundamentalista evangélico é um estrito literalista. Literalismo é um vício dos que detestam o estudo e o esforço. Quando falo em literalismo, não quero dizer que o fundamentalista interprete toda a Escritura de modo literal. Ninguém há que interprete toda a Escritura de forma literal. Nenhum fundamentalista interpreta o texto da última ceia de modo literal, ou, do contrário, teria que aceitar a presença real e física do corpo e do sangue do Senhor na Comunhão. Também não se encontrará um fundamentalista que interprete literalmente todas as parábolas de Jesus — a menos que tenha algum problema cognitivo particularmente sério. (Há certa ambigüidade no uso da expressão “literal”, que tem sentidos diferentes nos dois exemplos aqui dados. Não pretendo discutí-lo aqui. Doravante, no texto, “literal” significa “histórico-concreto”.)

O que me preocupa é a falta de sutileza na interpretação fundamentalista. Ele raciocina deste modo: o livro do Gênesis, que é parte da inspirada Palavra de Deus, nos fala sobre a origem do mundo; Jesus citou o livro de Gênesis, inclusive utilizando-o como referência de sua própria doutrina (como quando explicou a origem casamento); portanto, o livro de Gênesis deve ser interpretado literalmente. O mesmo vale para o livro de Jonas também, por exemplo. O fundamentalista acredita que, como a Escritura é seu fundamento, deve ser fundamento para tudo, incluindo-se História e Ciência Natural. Por isso o fundamentalista nega por princípio qualquer afirmação feita por qualquer cientista (“feita pela Ciência”, como diz) que não se encaixe nessa interpretação literalista. Assim, o fundamentalista não quer de fato saber; ele já sabe.

Mas é evidente que esse raciocínio não merece nenhum crédito. Se a Escritura é fonte de conhecimento científico absoluto, como quer o fundamentalista, então este deve pensar que a semente da mostarda é a menor semente da terra:

"É como um grão de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a menor de todas as sementes que há na terra;" (Marcos 4:31)

Para o fundamentalista, as sementes da orquídea não existem, são ficções heréticas. Deveria ser assim, mas nenhum fundamentalista pensa desse modo. O fundamentalista que sabe que há de fato sementes menores que a da mostarda argumentará que a mostarda é a menor semente naquela região em que Jesus vivia. Mas foi isso que Jesus disse? Não; Jesus disse que é a menor semente que há sobre a face da terra (epi tēs gēs). E se quer continuar sendo literalista, é bom que arranque os próprios olhos.


(G. M. Brasilino)

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