08/03/14

As igrejas evangélicas têm doutrinas demais

 Cheguei a esta conclusão: as igrejas evangélicas têm doutrinas demais. Não que eu não goste de doutrina; amo debates doutrinários, especialmente quando eles acontecem em um espaço de liberdade cristã. Mas creio que uma quantidade desnecessária de doutrinas é empurrada sobre cristãos que não têm como decidir. Isso impede a esses cristãos de desenvolver uma percepção clara da distinção entre o que é essencial à fé cristã e do que é discussão teológica de importância secundária. Não é incomum ver evangélicos condenando outros como heréticos pelo simples fato de discordarem na interpretação teológica de algum dado da fé, mesmo que concordem em tudo o que é essencial ao Evangelho (a proclamação da salvação em Jesus Cristo). Não há como ser diferente: quanto maior o número de doutrinas denominacionais, mais difícil é fazer a distinção entre o principal e o secundário. Cristãos fiéis aos princípios da Reforma não deveriam aceitar que a denominação obrigasse àquilo que Deus não obriga.

Por que um membro de uma Igreja Presbiteriana tem de crer na teologia reformada em sua totalidade, incluindo os preceitos-chave do calvinismo? Não basta que o sujeito creia que toda a sua salvação é gerada pela graça de Deus e que tudo o que tem deve a Ele, de modo a estar totalmente e irremediavelmente perdido sem a iniciativa da graça divina, como devem crer todos os cristãos? Por que um membro de uma Igreja Metodista deve crer na teologia arminiana? Não basta que ele creia que Deus lhe dá a oportunidade de aceitar ou rejeitar o chamado ao arrependimento, como devem crer todos os cristãos? Tanto faz a veracidade de todas essas afirmações doutrinais; o problema é: por que os membros de uma denominação evangélica devem aceitar uma dada doutrina denominacionalmente estabelecida?

É totalmente falso alegar que todos os arminianos chegaram à conclusão de que o arminianismo é verdadeiro e que todos os calvinistas chegaram à conclusão de que o calvinismo é verdadeiro (cito essas duas correntes por serem majoritárias no mundo evangélico). Arminianos em geral são arminianos e calvinistas em geral são calvinistas não por estudo direto das Escrituras, mas por um estudo direcionado pelos membros da própria denominação, reproduzindo uma interpretação já consolidada naquele meio, e aprenderem essa interpretação bem antes de terem lido a Bíblia em sua totalidade (alguns até morrem sem ter lido toda a Escritura, mas confiantes de que aquela interpretação está de acordo com a palavra de Deus). Como o sujeito pode tomar uma decisão a respeito da doutrina bíblica sem ter lido toda a Bíblia? Não pode. Decidiram por ele.

Mais ainda: por que, cargas d'água, o sujeito tem de ser arminiano ou calvinista (ou amiraldista, ou agostiniano, ou luterano, ou molinista, ou congruísta)? Ele não pode simplesmente não saber, não decidir? A dogmática ministerial coloca o sujeito na situação de ter que decidir por algo que é difícil, espinhoso e intrincado mesmo para especialistas. Pior: a decisão já foi feita para ele, e basta-lhe apenas aprender a repetir a Ave Maria.

Evidentemente há definições doutrinais que devem ser feitas, especialmente no que tange à liturgia e à prática geral. É importante decidir se os ministros batizarão ou não batizarão crianças; é uma decisão inadiável. Também é inadiável saber se a administração será episcopal, presbiteriana, congregacional ou o que for, ou se na liturgia denominacional há espaço ou não há para ministração dos dons espirituais (profecias, curas, etc). Também é inaceitável que um sujeito seja aceito como cristão crer no poder salvador da morte e da ressurreição de Jesus Cristo, ou que não creia na vida eterna.

Mas por que o sujeito tem de crer em uma teoria específica sobre a morte de Jesus (como a Substituição Penal de Calvino, que se difundiu ao ponto de ser tornar majoritária até nas igrejas de linha arminiana)? Por que ele tem de aceitar uma dada escola escatológica? O resultado é que o testemunho público da fé cristã acaba sendo uma exposição fraca de um dado conjunto de teorias, não exposição da fé cristã. Não é incomum ver como evangelistas pentecostais resumem sua mensagem a uma síntese de Substituição Penal e Escatologia Pretribulacional (iminência), que são teorias!

Isso atinge especialmente aos pastores, que ficam em uma situação miserável de ter de aceitar para sempre o monolito doutrinário em que acreditavam quando foram ordenados. Pastores não mudam de ideia? Se todos os pastores de "igrejas dispensacionalistas" continuam sendo dispensacionalistas e todos os pastores "igrejas aliancistas" continuam sendo aliancistas, ou seja, se absolutamente nenhum pastor de nenhum dos lados muda de ideia, o problema é muito grave: significa que os pastores ensinam doutrinas com as quais não se importam, o que creio ser falso. De fato a maior parte dos pastores se submete a isso de bom grado, vestem mesmo a camisa, porque acreditam mesmo que aquela doutrina que receberam é correta. Mas pastores também mudam de ideia, e devem ter esse direito, assim como os membros. O que a denominação tem a ver com isso? Nada.

Consciências não podem ser obrigadas à insinceridade. Ninguém tem absolutamente nenhuma obrigação de continuar crendo em algo por ter sido evangelizado ou batizado a partir de uma dada denominação ou confissão. O sujeito é batizado para ser membro da Igreja de Cristo, não para dentro da Igreja Batista, Presbiteriana, Metodista, ou o que quer que seja. O batismo não pertence a nenhuma denominação evangélica; pertence a Cristo.



G. M. Brasilino

3 comentários:

  1. Ótimo texto!! Infelizmente as pessoas se apegam a religiosidade e se esquecem do verdadeiro sentido de tudo que é Cristo...

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  2. Bela reflexão, Gyordano.

    O problema é que muitas igrejas são "fechadas" demais e não mantém um espaço para que os membros possam assumir uma posição diferente daquela defendida oficialmente pela denominação. Talvez vc mesmo saiba do que estou falando, já que é pentecostal e não assume a interpretação pré-tribulacionista (dogma pétreo do pentecostalismo). O que fazer nesses casos? Mudar de igreja é uma opção viável?

    Abraços!

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    1. No Brasil, as denominações evangélicas são demasiado recentes; não tiveram uma história longa interna de crítica e crise, pressupostos para o amadurecimento teológico. De nossa perspectiva humana, o futuro está aberto. É possível que isso ocorra, e é importante que aqueles que estão dentro sejam parte do processo de correção. As mudanças são muito lentas, mas devem acontecer se queremos que se pregue o Evangelho e apenas o Evangelho. Para as gerações futuras, a crítica perde a força se é feita "de fora".

      Assim, eu não vejo como opção viável "mudar de igreja". A mudança deve ser feita de dentro; cabe a nós apenas testemunhar da verdade irrestritamente. O Senhor da Igreja é apenas Cristo; somos apenas servos.

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