16/02/14

A fé é um salto no escuro?

Um ponto de acordo entre ateus militantes e um bom número de cristãos é que a fé é um salto no escuro. Crer significaria apostar em Deus, como que sem provas, como que sem evidências, como que sem qualquer demonstração ou fundamento senão o mero desejo de crer. Converter-se seria um passo da vontade sobre a razão.

A própria metáfora é contraditória. Como pode um mesmo caminho ser de luz e escuridão? É assim que a Escritura trata a fé? Deus não dá prova de si? A doutrina cristã é dominada pelo conceito de revelação. O cristianismo (assim como o judaísmo e o islamismo) reivindica ser uma religião revelada, significando que seu conteúdo é atribuído a uma ação do próprio Deus em mostrar-se ao homem. Primeiro ocorre o revelar-se de Deus; a fé vem em seguida.

Não entendo o que pode haver de salto no escuro em uma conversão como a do apóstolo Paulo (Atos 9:1-8), tão paradigmática, na qual impera o fato que era (para o apóstolo) inegável: o perseguido Jesus de Nazaré estava ali diante dele, perante o qual Paulo não poderia fazer coisa alguma além de se render. Foi assim que o apóstolo passou a crer em Cristo como o Messias ressurreto e como o Senhor sobre sua vida. Não é um salto no escuro. É muito mais uma queda do cavalo, nos dois sentidos. Ou dirão que o apóstolo que mais falou sobre a centralidade da fé não tinha fé? Nem todo cristão tem uma conversão como a de Paulo. Não obstante, se é fé aquele render-se a Deus que Paulo teve, ela não pode ser um salto no escuro.

Instado acerca da natureza de sua pregação, o apóstolo Paulo apelava àquilo que Deus fazia por suas mãos: milagres. Como missionário e pregador do Evangelho, e mesmo como argumentador (Atos 18:4,28; 19:8 etc), o apóstolo não esperava que a fé daqueles que se convertiam se baseasse em sabedoria humana. Deveria se basear, antes, em demonstrações visíveis de que Deus o confirmava (1 Coríntios 2:4,5). Deus trata os seus milagres como provas, o que ocorre tanto na peregrinação do povo de Israel (Deuteronômio 4:34; 7:19; 29:3) quanto na ressurreição do no Senhor Jesus Cristo (Atos 1:3), dois eventos que constituem centros gravitacionais da teologia bíblica, um do Antigo Testamento e outro do Novo.

O chavão de que a fé é um "salto no escuro" é persistente ao ponto de moldar a forma como lemos a Escritura. Livrar-se de pressupostos dogmáticos é parte essencial do processo hermenêutico. Dois textos que costumam ser lidos dessa forma são:

"Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram." (João 20:29)

"Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem." (Hebreus 11:1)

Os dois textos falam sobre "crer sem ver", e aí imediatamente o fideísta pensa ler "textos-prova" do salto de fé. Mas essa é uma leitura equivocada em ambos os casos. Os versículos têm um elemento em comum. A situação em que Tomé se encontrava não era nada parecida com um "escuro". Tomé já andava com Jesus há um bom tempo, já o tinha visto operar inúmeros milagres, inclusive ressuscitar aos mortos. O testemunho dos Evangelhos sinóticos é de que Jesus prometera ressuscitar. Assim, se após três dias, ele ressuscita, salto no escuro é não acreditar. Tendo visto um homem diante do qual se dobram os poderes da natureza, da vida e da morte, e do qual o próprio Deus Pai testificava, acreditar era simplesmente dar ouvido à evidência.

O mesmo ocorre com o texto de Hebreus, que dá abertura ao que se convencionou chamar "galeria dos heróis da fé", repleta de exemplos de homens que colocaram toda a sua confiança em Deus, mas que não o fizeram sem ter visto concretamente a ação de Deus. Como começou a história de fé de Abraão, senão com o fato de que Deus lhe apareceu? A fé de Abraão não estava em saltar no escuro, mas em arriscar tudo que tinha confiando na bondade de Deus. Parece-me que o mesmo pode ser dito de todos os outros exemplos de fé de Hebreus 11. As "coisas que se não vêem" são o cumprimento futuro das promessas de Deus; todos eles morreram sem ver o cumprimento daquilo que Deus prometia pela fé, mas não morreram sem ver a ação do Deus que prometia. Deus se fazia continuamente presente, fundando e fortalecendo a fé. Sem isso, todos eles teriam fracassado.

Não nego que na nossa realidade humana por vezes nos sintamos assim mesmo, como que sem ver. Mas é errado permitir que esses constantes assaltos de dúvida (por um afastamento em relação Deus) dominem a forma como interpretamos nossa relação para com o Salvador. Não, nossa relação com Deus não é essa, e é bom que sempre nos lembremos disso! A fé não é um salto no escuro, mas um salto para fora do escuro, em direção à clara luz de Deus. É continuar olhando diretamente para essa luz sem fechar os olhos.


G. M. Brasilino

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