22/10/13

Amar à Igreja

 O maior elogio feito à Igreja no Novo Testamento é o retratá-la como a Plenitude de Cristo (Efésios 1:22,23). Todos nós, de todos os povos, tribos, línguas e nações, servimos a Deus em Cristo através da Igreja. Não que a Igreja seja um medidor; ela é a plenitude do único mediador. Isso viola um instinto individualista muito presente no protestantismo, um tipo de falácia que opõe Cristo à Igreja. “Eu sou a Igreja”, pensa o individualista, mesmo que a Bíblia nunca tenha dito tal coisa. Mas quando foi a última vez que se viu, em uma Igreja protestante, dizer que a Igreja é a Plenitude de Cristo? Há muito tempo? Nunca? Se o mais elevado elogio que a Escritura faz à Igreja é desconhecido da própria Igreja, é um sinal terrível de que a Escritura foi esquecida por aqueles que professaram fidelidade para com a Palavra de Deus.

A pergunta mais exata e urgente a se fazer não é “Eu preciso da Igreja?”, mas “O que eu posso fazer pela Igreja?”. Deste ângulo fica claro que as duas perguntas são faces da mesma moeda. Nenhum de nós se basta. Recebemos muitas coisas diretamente da mão de Deus, mas muitas mais Deus nos dá através das mãos dos nossos irmãos. A Igreja é um meio da graça, e não podemos presumir que nossa vida espiritual seria a mesma sem a Igreja. Jamais podemos presumir que hoje estariamos em Cristo se Deus não houvesse colocado a Igreja como pedra providencial no caminho. Uma palavra, um auxílio, uma repreensão, uma oração, e Deus nos põe de pé, mesmo quando não estamos conscientes. Essa é uma das maravilhas da Igreja: há outras pessoas acordadas quando você não está acordado, e você pode estar acordado quando alguém mais não está. Nossa obrigação é amar à Igreja. E mesmo a palavra “obrigação” não diz tudo. Amar à Igreja é parte do nosso amor para com Deus. O amor sacrificial de Cristo pela Igreja deve ser nossa imitação constante; não pode dizer que imita a Cristo quem não quer amar à Igreja com o mesmo amor com que ele a amou, muito antes dela corresponder.

Escrevo com pesar. O que me motivou a tanto foi o texto de título 'Discípulos de Jesus ou Discípulos da “Igreja”? Faça o Teste!' (clique aqui). O texto é profundamente herético, mas o que mais me preocupa é que as pessoas não percebam a heresia. Lêem o texto como se fosse uma bela exortação a obedecer a Cristo, a ser seu discípulo. O texto não é nada disso, malgrado tenha sido essa a intenção da autora. O problema não está somente no texto, mas muito mais no tipo de visão que subjaz ao texto. Portanto, o propósito aqui não é expor à autora, nem argumentar contra o texto, mas usá-lo como o 'exemplo' de um grande erro. Trata-se de uma dissecação, não de uma luta. Tal heresia não foi inventada pela autora; o fato de que as pessoas tenham dificuldade de reconhecer a heresia mostra como esse tipo de visão está disseminada.

O nome da heresia é donatismo, que é a expressão doutrinal de um tipo de 'soberba espiritual'. Donatista é aquele que desobedece o “Não” de Mateus 13:29. O ápice de donatismo no texto é a declaração: “são a verdadeira Igreja”. Quem é a verdadeira Igreja? Segundo o texto, são pessoas que tem todas aquelas virtudes apresentadas no primeiro parágrafo: eles perdoam, amam a Deus, não invejam, não difamam, são perseguidos (aliás, donatismo casa muito bem com mania de perseguição), são injustiçados, não se vingam, e muitas outras coisas. Do outro lado, a autora do texto pinta a um diabo. São essas as duas classes de pessoas apresentadas: os santos discípulos de Jesus e os ímpios discípulos da “Igreja” (o próprio título do texto já denunciava o veneno). E você pertence a um desses dois grupos.

A oposição entre uma “verdadeira igreja” e uma “falsa igreja” é totalmente artificial. A Bíblia em si jamais apresenta tal oposição. Na Bíblia, a Igreja são os cristãos e ponto final. Jesus chama à Igreja de Laodicéia de falsa Igreja? Mesmo sendo a Igreja mais maldita do Novo Testamento, Jesus a trata como Igreja, e confessa por ela o seu amor.

Não, não existe uma “verdadeira igreja” e uma “falsa igreja”. Existe unicamente a Igreja de Cristo. E não, essa Igreja não é feita de pessoas com aquelas qualidades. Essa Igreja de Cristo, essa noiva de Cristo, é feita de pessoas que não perdoam, feita de pessoas que difamam, feita de pessoas que não amam aos seus inimigos, pessoas gananciosas. Há todos esses tipos de pessoas na Igreja de Cristo, todos filhos de Deus, todos por quem Deus declara o seu amor. O que os define em primeiro lugar é sua , mas suas obras variam muito.

Não, não há dois grupos. Há a Igreja, com uma infinidade de pecadores em busca de santificação, muitos deles estagnados, muitos deles se perdendo pelo caminho. Sim, há verdadeiros santos na Igreja, mas os verdadeiros santos não são a verdadeira Igreja. Os verdadeiros santos sabem que eles não são a Igreja sem os seus demais irmãos que não estão tão bem. A Bíblia é muito cuidadosa em só separar ovelhas e bodes no fim dos tempos, nunca no momento presente, porque agora a coisa é indiscernível. Erra quem usa textos como o de Mateus 7:15-20, que trata de discernir falsos profetas, não pecadores.

A pergunta a se fazer é: Mas e a Sra., de que grupo faz parte? É evidente que o autor daquele texto (ao que parece, é uma autora) se considera parte do grupo dos santos. Ela se vê como alguém que ama, que perdoa, que faz tudo maravilhosamente bem. Se sua autoimagem não fosse essa, não teria escrito o que escreveu. Creio que tal autora (assim como todos aqueles que pensam exatamente como diz o texto) jamais diria abertamente que se vê como perfeita. Mas é exatamente aqui em que está o problema. O fato de não se pensar perfeita não a impede de continuar agindo como se fossem realmente dois grupos, como parte do 'grupo melhor'. O texto é um termômetro. De fato o modo como a autora age é totalmente desconhecido, mas o que não é desconhecido é o modo como agem todos aqueles de dividem as pessoas em dois grupos. Eles precisam ler a Parábola do Fariseu e do Publicano.


(G. M. Brasilino)

7 comentários:

  1. Irmão Gyordano, ouço muito nas igrejas sobre orar pelos governantes tendo como base 1 Pedro 2,13-15, mas é correto mesmo com esses governantes corruptos?(Cleide Nascimento)

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  2. Irmão Gyordano, ouço muito nas igrejas sobre orar pelos governantes tendo como base 1 Pedro 2,13-15, mas é correto mesmo com esses governantes corruptos?(Cleide Nascimento)

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    1. Devemos orar por todos os seres humanos, incluindo aqueles que são de autoridade (1 Timóteo 2:1,2), para que eles não impeçam a pregação do Evangelho. Em todas as épocas (desde os tempos bíblicos até hoje) sempre houve homens ímpios e corruptos ocupando posições de autoridade; por isso devemos orar para que eles encontrem a justiça de Deus.

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  3. Irmão Gyordano se possível poderia me ajudar com algumas ocorrencias dificeis de entender, por favor ... umas delas é o caso de Mateus 20:29-30 e Marcos 10:46-47, como entender essa questão dos cegos ?

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  4. Ouço falar que é uma contradição entre quantos cegos foram curados, ouvi um pregador de renome na radio falando que Jesus curou dois cegos na entrada e um na saída. Como entender?

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    1. Não é exatamente uma contradição, mas sim uma discrepância. Contradição seria se um evangelista dissesse que Jesus curou o cego e outro evangelista dissesse que Jesus não curou o cego (ou seja, um texto dizendo o contrário do outro). Discrepância se dá quando um texto sinótico diz algo e outro diz outra coisa diferente. Dois não é contraditório a um, mas é diferente (discrepante).

      As discrepâncias são comuns sempre que um mesmo evento é tratado por mais de um texto bíblico. Isso acontece no caso do Evangelhos e acontece também em outros livros da Bíblia (Crônicas em comparação com os livros de Samuel e Reis, por exemplo). Uma das discrepâncias mais famosas é a da ressurreição de Jesus; cada evangelista conta a ressurreição de um modo um pouco diferente.

      Dizer que Jesus curou dois cegos na entrada e um na saída é absurdo, porque ambos os textos tratam da saída. Nenhum dos dois textos diz que Jesus curou na entrada. Não podemos mudar as palavras da Bíblia para que as coisas se encaixem.

      As discrepâncias são características de testemunhos verdadeiros. Duas pessoas que presenciaram o mesmo acontecimento não relatam-no do mesmo modo. A diferença entre Mateus e Marcos se explica em parte pelas característica de cada autor. Marcos escreveu, em parte, com base no testemunho de várias pessoas que estiveram com Jesus, e ele cita o nome de algumas, como Jairo (Marcos 5:22) e Simão (Marcos 15:21; cf. Romanos 16:13), pessoas que poderiam ser consultadas posteriormente pelos cristãos da época. A preocupação de Mateus, pelo contrário, não é histórica, mas sistemática (a apresentação ordenada dos ensinamentos de Jesus).

      O mais importante de tudo é que essas diferenças só atingem detalhes acidentais e nunca a essência do Evangelho (que Deus preservou).

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