06/08/13

Deus faz como ele quer

E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.”
(1 Coríntios 14:29)

"Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo."
(2 Timóteo 2:13)

"Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação."
(Tiago 1:17)


O significado dos enunciados se modifica conforme as relações que eles estabelecem com o que os cerca - mesmo que implicitamente. As crenças implícitas de um dado grupo modificam a forma como a mente individual apreende o significado dos enunciados. Na situação aqui abordada, são estabelecidos dois níveis de significação. Um nível mais superficial é o do significado geral que aquele enunciado tem para o falante médio daquele idioma, mais propriamente gramatical. O nível mais profundo é aquele que o enunciado tem para um membro daquele grupo, mas que do qual esse indivíduo não está totalmente consciente. Não me refiro a nada subliminar. Trata-se das "entrelinhas". É algo que o ouvinte percebe, mas com o que ele não se importa, porque lhe parece natural, óbvio.

Não trato exatamente da interpretação de textos bíblicos, ainda que também se aplique. O enunciado problemático é o do título: Deus faz como ele quer. Trata-se de uma frase aparentemente inofensiva - ao menos para quem está do lado de Deus. Não há como discordar disso. Realmente Deus faz como ele quer. Ele é aquele que "que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade" (Efésios 1:11). Que significa isso? Que ninguém ou nada pode impedir Deus de fazer aquilo que ele quer fazer, e que ele tem poder para fazer o que ele bem entender. Deus usa o meio que ele quer para chegar ao fim que ele quer. Em outras palavras: onipotência, a potência universal.

Entretanto, essa frase pode assumir um significado mais profundo, associado à doutrina metafísica chamada "voluntarismo". De forma simples, significa dizer que Deus decide o que é certo e errado; o que quer que Deus decida, será certo. E como ninguém tem acesso direto aos pensamentos divinos, a entrelinha é a incognoscibilidade absoluta dos seus atos. Se Deus é quem decide o que é certo e errado, no fim das contas Deus poderia agir de qualquer forma. Esta concepção sobre Deus implica em dizer que ele não apenas agiria por motivos misteriosos e por meios desconhecidos, mas agiria arbitrariamente. "Deus faz como ele quer" passa a significar alguma coisa como "Deus é totalmente imprevisível". Por isso, qualquer acontecimento, por mais absurdo que seja, poderia ser atribuído a Deus.

Obviamente, ninguém (ou quase ninguém) leva tal "crença implícita" às suas últimas consequências, atribuindo a Deus a praticaria o mal. Nenhum cristão afirmaria que Deus mentiu ou mentiria. Mas a mente humana tem a excepcional capacidade de ser incoerente - de aplicar um padrão de pensamento a um conjunto de ideias e aplicar o padrão oposto a outro conjunto de ideias, sem qualquer explicação razoável para tanto. Embora seja difícil encontrar um voluntarista completo, abundam os voluntaristas parciais. A maior dificuldade é que o sujeito não tem consciência de que é voluntarista, exatamente por não ser um voluntarista coerente, total.

Embora Deus possa agir de modo incompreensível, ele jamais age em contrariedade a princípios que estão nele mesmo. Deus não pode agir de maneira injusta. Para compreender a questão, é necessário fazer uma distinção. Há dois tipos de normas: normas estabelecidas por Deus e normas não estabelecidas por Deus. As normas estabelecidas por Deus são fruto de seu arbítrio.

Um exemplo de norma estabelecida por Deus é a circuncisão da Lei Mosaica. É algo que Deus estabeleceu, e que por isso ele pode desestabelecer, sem qualquer contradição. É algo que Deus, em sua perfeita sabedoria, estabelece para um momento certo, para um lugar certo, para condições certas.

Mas nem todas as normas divinas são estabelecidas pela vontade de Deus, ainda que sejam reveladas ao homem pela vontade de Deus e ainda que em consonância com essa mesma vontade. Elas se originam na própria essência de Deus. Um exemplo disso é a norma segundo a qual não se deve mentir. A mentira não se tornou má porque Deus quis que fosse julgada má. Antes está na excelsa essência de Deus o não mentir. É um valor que se origina nele mesmo, a partir de seu ser, e que, conforme concebido pela mente divina, está em consonância com a sua vontade. Ora, se tais valores se originam no ser de Deus, eles são imutáveis. Deus é amor; não pode deixar de sê-lo. E se não pode, então o amor não pode deixar de ter o lugar que tem.

Há, portanto, valores imutáveis, e a vontade divina é resultado do seu próprio ser. Do contrário, seria sem sentido dizer que Deus é justo. Se o justo é justo por mera decisão, dizer que Deus é justo significa apenas dizer que Deus decidiu que ele mesmo é justo. Esse absurdo é resultado do voluntarismo. Antes, o justo é justo porque Deus é justo. Deus é justo antes de qualquer ato de justiça ter sido praticado e julgado. A decisão não faz a justiça; a justiça faz a decisão.

Assim, é verdade que Deus age como quer, mas também é verdade que Deus quer o que é bom, justo e santo, e que isso nunca mudará, porque Deus não mudará. A nossa fé na palavra de Deus está alicerçada nessa verdade: Deus nunca mentirá a nós. Não haverá nenhum momento futuro em que Deus decidirá que mentir é certo. Se a Palavra de Deus é aquilo pelo qual conhecemos o que há de melhor, mais justo e mais santo, conclui-se naturalmente que Deus nunca fará um absurdo tal.

Um problema do voluntarismo é a ausência de qualquer critério para se definir o que é um ato de Deus e o que não é. Se o ato de Deus é imprevisível e se o ato puro de vontade de Deus define o que é certo e o que não é, então não há como saber. Qualquer acontecimento poderia ser atribuído a Deus. Os danos para a vida cristã são incalculáveis. Embora talvez não se chegue ao ponto de atribuir a Deus uma mentira, pode-se acabar atribuindo a Deus qualquer "acontecimento" espiritual. Qualquer tipo de êxtase. Não é sem razão que já se veja hoje em igrejas ditas pentecostais e neopentecostais uma completa destruição da ordem litúrgica e da mansidão sob a prerrogativa mais "espiritual", sob o argumento mais "santo": Deus quis fazer desta forma hoje. Quem não crer, não tem fé.

É necessário entender que Deus não age de uma forma contrária à sua palavra. Se Deus não é Deus de confusão, não acontecerá esse dia em que Deus agirá com confusão - ao menos no meio do seu povo. Deus de fato causa confusão na seara dos seus inimigos, daqueles cujo coração não está nele.

A incognoscibilidade não é um atributo divino absoluto, mas relativo. Deus não é incognoscível para si mesmo, mas apenas para nós. E, mesmo para nós, Deus não é totalmente incognoscível. Deus é, a um só tempo, um Deus que se oculta e um Deus que se revela. Em parte compreendemos, pois ele se revela, mas em parte não compreendemos, pois somos limitados. A essência do cristianismo é a revelação de Deus na face de Jesus Cristo. O Senhor Jesus nos revela quem Deus de fato é. Naturalmente nós nunca entenderemos a Deus por completo. Seremos sempre limitados, mas constantemente crescendo nesse conhecimento.

As correntes místicas do cristianismo sempre enfatizaram a incognoscibilidade divina - uma ênfase bastante romântica. Deus nos assombra pelo seu poder grandioso e terrível, terrível e maravilhoso. Essa ênfase é a chamada "teologia apofática", desde a mística medieval até os sermões pentecostais modernos. Não há erro em adorar a Deus por ser ele o Deus que se oculta (Isaías 45:15), e por seus pensamentos serem incomparavelmente superiores aos nossos (Isaías 55:9). Mas o apofatismo só é concebível à luz da revelação. Só sabemos que o amor de Deus é incompreensivelmente grande porque podemos compreender o que significa amor e o que significa grande, e porque podemos ver isso na cruz de Cristo.

É evidente que o voluntarismo destrói o critério revelado, e com isso ocorre uma crise: como decidir entre o que é ato de Deus e o que não é? Sem um critério objetivo, restam apenas os critérios subjetivos: o “sentimento”. O povo de Deus “sente” que algo é ou não é de origem divina; o Deus “revela”. Isso somente afasta a pergunta, não a responde. Ora, se o “sentir” acaba sendo critério, então como definir se o sentir foi causado por Deus ou não?



G. M. Brasilino

6 comentários:

  1. ENROLATION + CONTRADIÇÕES + FALÁCIAS.

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    1. Então vou ser mais claro:

      ENROLATION + CONTRADIÇÕES + FALÁCIAS + MITOLOGIA.

      Pronto, agora sim! kkkk

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  2. Nem tds conseguem entender.Mas eu gostei.

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