22/08/13

Amnésia Celestial

Eu já cansei de ouvir entre evangélicos sobre como "esqueceremos tudo no céu". Digo com toda sinceridade: considero tal ideia simplesmente horrível! Um pesadelo!

Não sei que nome dar a essa doutrina. Lavagem cerebral escatológica? Amnésia celestial? Não sei se alguém deu um nome antes; talvez ele mesmo tenha esquecido o nome. Também não tenho certeza sobre quando ou como se originou tal crença, mas imagino que seja o resultado de uma leitura que julgo excessivamente pobre: a interpretação literalista de um texto poético. O pior de tudo é que se trata de um texto isolado em toda a Escritura.

"Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão." (Isaías 65:17)

Porém os literalistas não são tão literais. Uma interpretação realmente literal implicaria em esquecimento total - de coisas boas e más que tenham nos acontecido. Ora, poucos estão dispostos a afirmar que nos esqueceremos literalmente de toda as coisas. Não nos esqueceremos, certamente, da salvação que recebemos em Cristo. Então esse tipo de leitura literalista acaba sendo atenuada, significando apenas que nos esqueceremos dos eventos maus, daquilo que pode nos trazer dor ou sofrimento.

Mas isso ainda é um erro!

Eu diria, pelo contrário, que lembraremos muito melhor do que hoje. Entenderemos o passado muito melhor do que entendemos hoje. E perdoaremos ao passado muito melhor do que o fazemos hoje.

Temos que considerar o que pode significar "esquecer". Quando a Escritura assevera que Deus se esquece dos nossos pecados (Isaías 43:25), não quer dizer com isso que sejam apagados da memória divina tais acontecimentos. Deus se recorda deles perfeitamente - do contrário, nem mesmo saberia que está perdoando. Como Deus esquece? Deus não trata mais ao homem conforme aqueles pecados a que perdoou. A ação de Deus para com o perdoado não é mais guiada pela maldade do pecado do indivíduo (ou do povo), mas pela bondade de sua graça. O passado não é mais trazido ao presente como passado terrível. O evento-perdão dá um novo significado ao evento-pecado.

De fato, muitas vezes o tema do esquecimento é tratado na Bíblia, não em sentido propriamente cognitivo, mas nesse sentido prático de tratar algo como se não tivesse acontecido.

"Então disse o Senhor a Moisés: Escreve isto para memória num livro, e relata-o aos ouvidos de Josué; que eu totalmente hei de riscar a memória de Amaleque de debaixo dos céus." (Êxodo 17:14)

O texto acima é quase uma contradição consigo mesmo. Deus planeja apagar a memória de Amaleque (ou seja, a lembrança que se tem dele), então o que Deus faz? Manda Moisés escrever um livro que trata de Amaleque. Isso não implica em um esquecimento cognitivo, mas em um esquecimento prático, e, no texto acima, em um esquecimento social da pessoa de Amaleque. Riscar seu nome é jogá-lo na vergonha, porque os reis devem ser lembrados. Por isso mesmo os bons reis de Israel eram enterrados junto com seus antepassados, como sinal de honra, enquanto os maus reis não.

Voltemos aos céus. O estado de glória é um estado de perfeição. Nós não seremos, como indivíduos, reduzidos em nada, senão em nosso pecado. As nossas imperfeições serão removidas. Seremos seres perfeitos, segundo a perfeição que Deus planejou para nós (que não é idêntica à perfeição dele mesmo). Assim, nossas faculdades não serão reduzidas, mas melhoradas, engrandecidas pelo estado de glória. O esquecimento é uma imperfeição da criatura. A glória não abre espaço para imperfeições.

Lembrar é importante. Aquilo que nós somos não faz sentido sem nossa própria história. Carregamos sempre conosco nosso próprio passado, como parte da constituição do nosso ser - queiramos isso ou não, lembremo-nos disso ou não. Isso é especialmente verdadeiro quanto aos eventos dolorosos. Entendemos a nós mesmos na medida em que estamos conscientes de nossa própria história, de toda as circunstâncias nas quais passamos. Somos feitos pelas dores que enfrentamos.

Cristo não esquecerá os sofrimentos que suportou pela humanidade. É óbvio que ele não se lembrará desses sofrimentos com dor e pesar, mas com imensa alegria. Tais sofrimentos são a sua glória. Aquilo pelo que passamos não mais nos trará sofrimento, desonra ou pesar, assim como não trará saudades. Embora não sejamos capazes de apreender perfeitamente hoje a tal estado de perfeito perdão, temos dele uma imagem quando já hoje sentimos indizível alegria e paz ao perdoar ao que nos faz mal ou a suportar a dor pelo nome de Cristo e pela sua justiça.

É por isso mesmo que não se exige de nós esquecer os pecados alheios no sentido cognitivo, mas perdoá-los, esquecer deles no sentido vivencial prático, da mesma forma que Deus se esquece dos nossos pecados em seu comportamento sem se esquecer deles em sua mente. Seremos mais inteligentes! Quão grande será a nossa felicidade quando nossa lembrança do passado for melhor e tivermos maior prazer do que temos hoje no perdão!

Os defensores da amnesia celestial se esquecem de que a própria Escritura traz em si muitos eventos tristes acontecidos aos salvos. Isso significa que tais salvos na glória excelsa se esquecerão de parte da Escritura? Ou, pior ainda, que todos se esquecerão? A Escritura nos diz que Paulo era perseguidor da Igreja de Jesus Cristo antes de converter-se. Ele esquecerá esse texto bíblico escrito por ele mesmo para a edificação da Igreja? Aqueles perseguidos por Paulo esquecerão a perseguição que sofreram?  É absurdo!

Na realidade, os proponentes da amnésia celestial fazem uma separação entre boas e más recordações que é impossível de se concretizar na realidade, em um mundo onde o bem e o mal estão tão próximos. Grande parte de nossas recordações são um misto de bem e mal. Um mesmo acontecimento pode ser doloroso e glorioso ao mesmo tempo.

O martírio é o exemplo máximo. Aquele que morreu como torturado por amor a Cristo esquecerá a dor que passou? Esquecerá a face do seu torturador? Ou antes se lembrará de tudo isso com o máximo de perdão? Não devemos nos esquecer que os sofrimentos que os mártires passam por Cristo são concessões da parte de Deus (Filipenses 1:29): a comunhão nas aflições de Cristo (Filipenses 3:10; cf. Colossenses 1:24). Ademais um mesmo acontecimento pode ser doloroso para um indivíduo e indiferente ou feliz para outro, ambos testemunhas dela. Isso significa que esses indivíduos estarão, pela eternidade, proibidos de tocar no assunto?

Pelo contrário: durante a eternidade nada mais daquilo que passamos nesta vida nos afetará. Toda dor que passamos nessa vida se transformará em gozo na próxima, se estivermos em Cristo. Todas as nossas más recordações se converterão em boas recordações quando, na glória, pudermos finalmente entender que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8:28).

(G. M. Brasilino)

Um comentário:

  1. Concordo plenamente! Se fosse para nos esquecermos de tudo, o preço da nossa salvação teria sido sem propósito? Estaríamos no Céu, sem saber que fomos salvos e de onde viemos? Creio, sim, no que a Palavra é bem explícita: toda lágrima será enxugada, e não haverá mais dor. Seremos plenos na glória de Deus, assim como Ele o é! Teremos ciência de nossos pecados e de nossa vida passada na Terra, porém, sem o sofrimento pelas perdas de pessoas queridas, pois, seremos evoluídos, e não, obliterados da memória de todos.
    Parabéns pelo texto!

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