28/07/13

Predestinação e Livre Arbítrio, parte II

I. NATUREZA E PECADO

O mal e o pecado não têm poder criativo. Somente Deus é criador. Assim, o pecado só é capaz de degenerar, corromper, reduzir aquilo que Deus fez. A sujeição ao pecado é uma degeneração imposta à natureza. O mal não é capaz de criar um "bem", ou seja, algo em si mesmo desejável. Só é capaz de corromper aqueles bens que já estavam na natureza antes de sua entrada, torcendo tudo o que é criado em algo menor, em algo de glória inferior. Seu poder é destrutivo, jamais criativo. É o poder do nada, não do ser.

Ora, como o gênero humano foi criado com o propósito de glorificar a Deus, todos os seus desejos naturais devem ser de dois tipos: primeiramente aqueles que glorificam a Deus e, secundariamente, aqueles que preservam a si mesmo como criatura (autoconservação), para que o primeiro propósito possa ser continuamente cumprido. E se o pecado não é capaz de criar, ele não é capaz de criar novos desejos, podendo apenas corromper os antigos. Assim sendo, o pecado faz com que o homem distorça do homem sua visão sobre Deus, colocando qualquer outra coisa no lugar de Deus.

Quando o homem busca adquirir o prazer por meio de uma relação ilícita (e.g. adultério), ele apenas segue um instinto natural de, em primeiro lugar, buscar a felicidade, e, em segundo lugar, de buscá-la através da satisfação sexual. Ora nenhum desses dois desejos é incorreto; incorreto é o meio empregado pelo homem ao fazê-lo, violando o casamento. O pecado distorce a visão do homem para perceber como sua própria felicidade pode ser alcançada, e em que valores essa felicidade não pode pisar. Assim, o pecado não distorce desejos gerais (desejar a felicidade); ele distorce desejos específicos. Leva o homem a ignorar que a verdadeira fonte de sua felicidade está na vontade de Deus, assim como leva o homem a não ter forças para resistir o chamado a pecar e a sentir prazer na violação do mandamento divino.

Estão corrompidos o entendimento do homem, suas forças e a sua satisfação. Nessas condições, como o homem não conhece palavra de Deus (antes é enganado pelo pecado), não tem forças para obedecê-la (isto é, vencer a voz do pecado) e não sente prazer em realizá-la, é-lhe virtualmente impossível sujeitar-se a ela. O homem nessas condições, apesar de seu livre arbítrio, é um escravo do pecado. Ainda que fosse possível que ele desejasse o bem, ele não saberia o que é esse bem, não teria forças para buscá-lo e nem sentiria prazer nele. Deste modo, com a entrada do pecado, o homem torna-se "por natureza filho da ira" (Efésios 2:3), caminhando em direção à perdição como um morto-vivo, completamente cego. Seu corpo está sujeito a obras pecaminosas fora do controle de sua vontade, as "obras do corpo" (Romanos 8:13), com entendimento entenebrecido e coração endurecido (Efésios 4:18). Portanto, o pecado não destrói a natureza humana, mas a desfigura, a torna imperfeita e imprópria para cumprir o fim para o qual a humanidade foi criada.

Nisso concorda-se com a opinião de Agostinho, segundo a qual o homem natural pode, em seu livre arbítrio, desejar a Deus; mas somente com a iniciativa da graça divina este homem de fato usa o seu livre arbítrio para desejar a Deus. Rejeita-se, assim, a posição semipelagiana, segundo a qual há algo de bom no homem natural a partir de que ele é capaz de direcionar-se a Deus, sem que ele seja a isso movido pela graça.


II. NATUREZA E GRAÇA

O chamado à graça de Deus é multiforme. Deus usa meios diferentes com indivíduos diferentes, desde um chamado direto e glorioso como o do Apóstolo Paulo, passando pela experiência de cristãos que são chamados por Deus enquanto ouvem um sermão na Igreja, até aqueles que são chamados por Deus lendo uma parte da Escritura (como Agostinho mesmo) ou algum livro cristão, ou a partir de uma simples conversa com um cristão, ou através da beleza de um cântico, a qual aponta para a glória excelsa, ou através da contemplação de um exemplo de vida santo. Todas essas coisas são meios através dos quais Deus atrai e chama os indivíduos. Deus pode atrair a atenção de alguém que já tem interesse pelo conhecimento mostrando as profundidades de sua sabedoria. Assim como Deus pode usar o medo que os homens tem do Inferno; embora o simples medo do Inferno não tire o homem do Inferno (não é fé verdadeira, que só existe no amor sincero a Deus), pode ser uma forma como um indivíduo ou outro clame misericórdia a Deus, e assim Deus se utilizaria desse meio para salvar aquele indivíduo. Deus simplesmente se aproveita dos disposições naturais características de cada indivíduo e as corrige pela graça, dirigindo-as para o seu fim próprio, que é ele mesmo.

Assim, verdadeiramente a graça não destrói a natureza, antes a aperfeiçoa, corrige a falha implantada pelo pecado. Nos indivíduos naturais, essas disposições estão desgovernadas e confundidas pelo pecado. Mas através da graça, Deus remove essa influência do pecado e atrai o indivíduo por meio de uma dessas predisposições.

Nesse sentido, não creio em "graça irresistível". Não afirmo que Deus não tenha esse poder de controlar as vontades dos indivíduos. Ele certamente tem. Afirmo apenas que esse não é o meio pelo qual Deus opera na Escritura, e ainda afirmo que esse meio é desnecessário. Quando Deus atrai os indivíduos, mostra-lhes a Cristo e dá-lhes forças para vencer a amarra do pecado e crer nele, levando-os graciosamente a amá-lo e a abominar o pecado, e, em suma, quando Deus mostra que tudo aquilo de que eles necessitam e tudo aquilo que lhes traz felicidade está nele, é consequência que eles livremente o aceitem. Mas é uma consequência livre. Os indivíduos ainda estão em condições de rejeitar a oferta e voltar ao pecado. Mas os eleitos em algum momento aceitarão, porque Deus prescientemente e antecipadamente os coloca na posição mais favorável para que eles livremente o aceitem. Asim, não há necessidade de supor uma graça irresistível (conceito alheio às Escrituras) para que haja predestinação. Não é necessário determinismo para que haja predestinação.

Mas além disso, é fácil provar que o determinismo divino não faz justiça à riqueza e complexidade das situações encontradas no texto bíblico. Quando lemos textos como João 6:37-44, somos facilmente impelidos a pensar em um esquema determinístico. Sim, o texto fala de predestinação, não há a menor dúvida. Somente aqueles que são atraídos pelo Pai chegam a Cristo, e Cristo os ressuscitará. O texto em si não deixa nenhuma outra opção. Entretanto, se lido dentro do contexto maior do Evangelho de João, a coisa se torna mais complexa. Jesus se utiliza da mesma linguagem em João 17:12, mas aqui ele abre uma exceção: Judas, o Filho da Perdição, se perdeu de Cristo. Ele É um dos que foram dados pelo Pai ao Filho, um dos quais Cristo disse que nenhuma maneira o lançaria fora. Mas Judas caiu na condenação. Isso significa que é possível, sim, que um daqueles que o Pai deu ao Filho se percam, caiam. Nada disso escapa à soberania de Deus, mas é necessário rejeitar a concepção de que aqueles que caem nunca pertenceram a Cristo, nunca foram de fato salvos.

Assim, Deus transforma uma predisposição natural do indivíduo em uma predisposição santificada. Deus não para o movimento natural do indivíduo; antes ele o coloca no caminho certo para atingir o objetivo pelo qual foi criado. Deus usa meios resistíveis para uma ação geral infalível, ou seja, uma na qual seus propósitos infalivelmente se cumprem. Deus não precisa forçar mudanças nas escolhas; tudo o que precisa fazer é agir com sua soberana inteligência na demonstração do seu perfeito amor.

O momento inicial, necessário para a fé, que é o conhecimento (2 Pedro 2:20) é um dom de Deus, quer não é igualmente concedido a todos (Mateus 11:27), e por isso não se pode dizer que não há eleição divina. Deus não dirige a Igreja igualmente à pregação do Evangelho, antes dirige indivíduos específicos à comunicação do Evangelho em lugares específicos. Isso se vê em Atos 16:6-9, em que ao mesmo tempo os apóstolos são impelidos pelo Espírito a pregar na Macedônia, mas são impedidos de pregar em outros lugares, nos quais o Espírito não lhes permitiu pregar. É evidente que esses mesmos lugares foram posteriormente evangelizados (1 Pedro 1:1), mas não naquele momento. Embora esteja no plano divino a pregação universal do Evangelho (Mateus 24:14; 28:18-20), não é correto afirmar que todos os indivíduos tiveram a oportunidade de ouvir esta pregação. Gerações inteiras de certas nações não tiveram qualquer contato com o nome de Cristo, ao passo que certos indivíduos, criados em famílias cristãs, tem riquíssimas oportunidades. Ademais, não se pode jamais afirmar que a comunicação do Evangelho fugiu do controle de Deus.

Aqui se evidencia a importância da Igreja. Ela é o mecanismo em que Deus mais plenamente comunica aos homens o conhecimento da salvação, pela Palavra e pelos sacramentos. Nela uns oram pelos outros para que sejam mutuamente fortalecidos na graça (2 Tessalonicenses 1:11), nela se exortam mutuamente ao arrependimento (Hebreus 10:25) e fortalecem uns aos outros (Romanos 1:11,12), nela sente-se vivo o amor de Deus através da comunhão (em todos os sentidos que essa palavra assume). Tudo isso ocorre apesar das muitas imperfeições dos indivíduos, porque é graça. Assim, Deus confere aos diversos membros da Igreja diversos dons que são necessários para que haja o fortalecimento mútuo, ele mesmo necessário para que o amor a Deus não se esfrie e para que o indivíduo permaneça na graça.


III. A UNIVERSALIDADE DA VONTADE SALVÍFICA

Mas um grande problema em certos sistemas predestinários está em negar pleno sentido ao texto de 1 Timóteo 2:3,4, segundo o qual Deus deseja que todos os seres humanos se salvem. Tentativas de fazer com que "todos os seres humanos" não signifique "todos os seres humanos" (ou seja, fazer com que o texto não signifique aquilo que mais claramente significa) são meramente resultado de se inserir no texto uma intentio lectoris teológica, o que é eisegese, ainda que sincera. Agostinho, conseguiu inventar três ou quatro formas de fazer com que esse texto não diga o que diz. É óbvio que o próprio Agostinho não estava satisfeito com a primeira interpretação que inventou, ou do contrário não teria buscado uma segunda.

Mas esse problema tem uma raiz mais profunda. Essa interpretação só é possível quando se tenta dividir ontologicamente a vontade de Deus em duas, ou seja, quando nos esquecemos de que a vontade de Deus revelada em seus mandamentos é realmente sua vontade. Os mandamentos de Deus não são simplesmente revelações por parte de Deus acerca do que é certo e do que é errado. Quando Deus diz ao ímpio "Não matarás" e este ímpio mata, tal ímpio fez algo que inegavelmente contraria a vontade de Deus. Não obstante, era a vontade de Deus para aquele ímpio que ele não matasse. Um esquema predestinário determinístico, segundo o qual os atos dos ímpios são individualmente e diretamente decretados por Deus gera uma contradição: Deus ao mesmo tempo quer e não quer que aquele ímpio mate.

É possível que um mesmo indivíduo deseje um fato e deseje o sua negação? É possível, em certo sentido. Um náufrago com uma só boia quer usá-la para sobreviver, mas ao mesmo tempo deseja a entregar ao seu filho, para que este sobreviva. No choque entre duas vontades, o indivíduo decide dar a boia ao filho. O choque se dá pela impossibilidade de cumprir os dois desejos ao mesmo tempo. Assim, o mesmo indivíduo quer e não quer a boia. Chamamos vontade antecedente à vontade logicamente primeira (não temporalmente primeira) e vontade consequente à vontade resultante da decisão. Podemos, portanto, atribuir 1 Timóteo 2:3,4 à vontade antecedente.

Mas um detalhe importante aqui é que em nenhum momento a vontade consequente é uma oposição total à vontade antecedente. O que há de absurdo na proposta de determinismo divino é que, de algum modo, Deus quer e deseja que o pecador peque. Que o pecador irá pecar e que esse pecado pode ser instrumento (causa secundária) no plano de Deus, não há que se duvidar; o pecado de Judas é o instrumento determinado por Deus para a salvação da humanidade (Lucas 22:22; Atos 4:27,28). Muitas vezes nas Escrituras os pecados dos homens são instrumentos pelos quais Deus exerce seu governo. Mas isso não significa que Ele tenha diretamente determinado cada pecado. Pode determiná-lo indiretamente, por meio de sua presciência e antecipação dos atos humanos.

Por toda a Escritura vemos Deus ordenar ao homem a forma como ele deve viver. O mandamento mais importante, superior a todos, é de que o homem deve amar a Deus de todo o seu ser (Marcos 12:30). Ora, sendo um mandamento, é a vontade de Deus, e Deus realmente quer que todos aqueles a que se dirige o mandamento o amem. Deus quer, ademais, que todos os homens se arrependam (Atos 17:30). Portanto, é a vontade de Deus que todos os homens o amem acima de tudo e se arrependam. Reconhecer esse fato nos leva, naturalmente, a aceitar que Deus quer, sim, que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.

É evidente que aqui nos colocamos em um paradoxo. Deus quer que todos sejam salvos, mas somente a alguns ele predestina a salvação. Creio que sabemos apenas parcialmente acerca dos motivos da predestinação: o Apóstolo Paulo nos diz que Deus escolheu aquilo que é desprezado e rejeitado nesse mundo (1 Coríntios 1:26-29; cf. Tiago 2:5). Mas é uma resposta realmente fragmentária. Ela ao mesmo tempo não significa que todo o que é desprezado é escolhido por Deus; ao mesmo tempo, o próprio Paulo abre exceção ("não são muitos", em vez de "não há nenhum"). Assim, é uma resposta indicativa, mas a resposta completa está, de fato, encoberta.


IV. OUTRO PROBLEMA INSOLÚVEL

Em geral (ao menos entre os que creem na predestinação) se afirma que Deus predestina os fins e então providencia os meios adequados para que os fins estabelecidos se cumpram. Aqui há uma precedência lógica dos fins sobre os meios. Entretanto, a opção inversa seria possível. A precedência lógica no plano divino recai sobre os meios ou sobre os fins? De certa forma, tanto os fins quanto os meios são predestinados, mas um é predestinado em razão do outro, como uma implicação.

A opção de que a predestinação divina recai sobre os meios é curiosa. Essa resposta é semelhante àquela proposta por Leibniz, embora nele a solução dependa de sua doutrina metafísica ocasionalista, que aqui não se aceita. De toda forma, se dissermos que a precedência lógica recai sobre os meios, teríamos que a predestinação final seria causada (dentro do plano divino) pela predestinação intermediária.

Assim, Deus simplesmente decidiria como e quando ajudaria o indivíduo tal de formais tais. O indivíduo, pelo exercício do seu arbítrio, tomaria decisões a partir da graça que lhe foi concedida. Deus poderia conceder àquele indivíduo mais e mais oportunidades, permitir-lhe viver mais e mais tempo, mas a paciência de Deus com ele se esgota em um dado momento. Deus poderia ir além, até que o indivíduo de fato recebesse a salvação, mas Deus não segue adiante. Ora, isso significa que Deus, ao cessar as oportunidades e os auxílios, decidiu que aquele indivíduo será condenado, ainda que a condenação seja escolha livre do indivíduo em si. Tudo ainda seria um ato soberano de escolha, já que Deus escolhe a quem concede graça e quantas vezes.

Todo a posição elaborada até agora pressupõe a primeira opção: a precedência recai sobre os fins, para os quais Deus ordena meios adequados. A primeira opção parece mais correta por analogia: nós mesmos preparamos os meios para atingir os fins que almejamos. Entretanto, a segunda opção é interessante porque é mais dramática e se parece mais com a experiência. As decisões dos indivíduos realmente explicam o seu destino, ao mesmo tempo em que Deus ainda dá a cartada final. O conhecimento, as forças e o gozo da graça ainda são concedidos por Deus segundo sua própria vontade.

Mas se trata de uma aporia realmente. Parece ser insolúvel porque ela depende da suposição de que Deus encara o tempo exatamente como nós, segundo a sucessão dos acontecimentos e segundo a lei da causalidade. A relação de Deus com o tempo é bem mais complexa, e não pode ser resolvida especulativamente. Deus contempla igualmente os meios que ele emprega e os fins resultantes. Ademais, pressupõe-se uma deliberação temporal: delibera-se primeiramente qual será o fim, e então aplica-se o meio adequado para tanto. Ora, tal também não faz sentido na atemporalidade. Portanto, esse último problema resta insolúvel, ainda que qualquer uma da duas opções pareça possível.

G. M. Brasilino

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