16/04/13

Israel e a Igreja



Um dos problemas centrais no Novo Testamento é a relação entre a Igreja e Israel. Não é simplesmente de uma curiosidade escatológica ou eclesiológica; trata-se de uma questão eminentemente prática, uma das preocupações fundamentais de textos como os Atos dos Apóstolos, e as Cartas aos Romanos e aos Gálatas. Foi a solução do problema da relação entre Israel e a Igreja que permitiu aos gentios, através da revelação divina, um lugar no povo de Deus igual ao dos judeus.

De fato, muitas questões levantadas no Novo Testamento (como o cumprimento das profecias veterotestamentárias, o Reino de Deus, a missão terrena de Jesus de Nazaré, a soteriologia e a natureza mesma da Igreja) só podem ser compreendidas à luz desse problema fundamental. Pretendo aqui apresentar uma perspectiva acerca de como o Novo Testamento soluciona esse problema. Esta perspectiva é diferente daquela proposta pelo hoje tão ubíquo dispensacionalismo, que considero aberrante ao texto bíblico.

Há dois textos essenciais para a compreensão bíblica da relação entre Israel e a Igreja de Cristo: a Parábola dos Lavradores Maus e metáfora da Oliveira e do Zambujeiro em Romanos 11. É curioso como tal tema (o problema e a solução) seja tratado tanto pela tradição sinótica e quanto pelo apóstolo Paulo por meio de uma linguagem simbólica. Os dois textos estão firmemente ligados à tradição profética israelita, que também se utilizava de linguagem simbólica.


I. OS LAVRADORES MAUS E A VINHA DO SENHOR

(Mateus 21:33-46; Marcos 12:1-12; Lucas 20:9-18)

A versão da Parábola dos Lavradores Maus aqui transcrita é a do Evangelho de Mateus, por diversos motivos. Embora a parábola seja essencialmente a mesma nos três evangelhos sinóticos, a versão encontrada no Evangelho de Mateus, por ser a maior versão da Parábola, contem elementos importantes à presente discussão. Além disso, o Evangelho de Mateus é o mais sistemático dentre os três sinóticos, norteado pela noção de inserir as narrativas bíblicas dentro de contextos específicos (opção notadamente diversa da de, por exemplo, Lucas). Isso nos mostra como Mateus interpretava a Marcos.

Assim, a parábola deve ser lida dentro de um contexto narrativo mais amplo, presente nos três evangelhos sinóticos: a chegada de Jesus a Jerusalém. A importância de Jerusalém (literal ou simbólica) dentro da teologia bíblica, seja no Antigo Testamento, seja no Novo, é inquestionável. Ela é “a cidade do grande Rei” (Mateus 5:35).  Por isso, Jerusalém não é apenas a capital do Israel unificado, mas a representação simbólica de todo o povo israelita, mesmo daqueles que moram foram dela (Gálatas 4:21-31).

Também na profecia messiânica Jerusalém tem um lugar central (Isaías 2:3 = Miqueias 4:2). De Jerusalém deveria emanar o reino do Messias. Por isso, a entronização do Messias de Israel deveria se dar em Jerusalém. A entrada de Jesus na cidade é apresentada como cumprimento profético de Zacarias 9:9, momento em que o Messias é apresentado à sua nação (guardando também relação mais distante com 1 Reis 1:38-40, quando Salomão é reconhecido como legítimo rei de Israel, contra as pretensões de Adonias).

Em Jerusalém, Jesus desempenha um papel não apenas messiânico, mas também profético, se a distinção puder ser feita. Jesus repete em essência os juízos feitos pela antiga tradição profética israelita contra Jerusalém, e especialmente o profeta Jeremias. Assim como Jeremias, Jesus denuncia o pecado e a infidelidade espiritual de todo o povo hierosolimitano, pronuncia o juízo divino sobre tal pecado e anuncia o cerco de Jerusalém e a dispersão do povo. Assim como Jeremias, Jesus é perseguido pela aristocracia religiosa e levado a responder antes as autoridades civis.

33 Ouvi, ainda, outra parábola: Houve um homem, pai de família, que plantou uma vinha, e circundou-a de um valado, e construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe.
34 E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos.
35 E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro.
36 Depois enviou outros servos, em maior número do que os primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo.
37 E, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho.
38 Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança.
39 E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o mataram.
40 Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?
41 Dizem-lhe eles: Dará afrontosa morte aos maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe deem os frutos.
42 Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, E é maravilhoso aos nossos olhos?
43 Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos.
44 E, quem cair sobre esta pedra, despedaçar-se-á; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó.
45 E os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas palavras, entenderam que falava deles;
46 E, pretendendo prendê-lo, recearam o povo, porquanto o tinham por profeta.
(Mateus 21:33-46)


A conexão entre a parábola e o seu contexto é nítida; ela reproduz o seu contexto. Deus enviara muitos profetas ao povo, mas eles mataram aos profetas, vindo, por fim, a matar o próprio Filho. O próprio profeta Jeremias repetidas vezes denunciara a rejeição do povo israelita à mensagem dos profetas (Jeremias 7:13,25; 11:7; 25:3,4; 26:5; 29:19; 32:33; 35:14,15; 44:4), de modo que a destruição de Jerusalém seria inevitável, não havendo arrependimento. Por isso, em nome de Javé Deus, profetizava: “a vossa espada devorou os vossos profetas como um leão destruidor” (Jeremias 2:30c), como censuraria depois o próprio Jesus (parte do mesmo contexto mais amplo do confronto com Jerusalém): “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” (Mateus 23:37).

A reprovação aos vendilhões no Templo (Mateus 21:12,13), que antecede a Parábola dos Lavradores Maus, é uma contraposição entre Isaías 56:7 (como deveria ser o Templo no cumprimento profético) e Jeremias 7:11, em clara condenação aos moradores da cidade. Quando Jesus anuncia posteriormente a destruição de Jerusalém e a fuga dos que estão na Judeia (Mateus 24:15-22), repete em parte algo que Jeremias já havia feito (e.g. Jeremias 4:6; 6:1).

A profecia de condenação, entretanto, não significava uma simples rejeição do povo judeu. De fato, o próprio Jeremias já havia predito o retorno do exílio e a restauração da glória passada. Tudo dependeria da conversão de Israel. Entretanto, esse retorno deve ser encarado sob a concepção de remanescente. A profecia de retorno de Jeremias 3:14-18 claramente nos diz que, com o retorno do povo a Jerusalém (a um de uma cidade e a dois de uma geração, v. 14), também os gentios (as nações) se ajuntariam a Jerusalém. Isso é parte do tema messiânico geral: o povo judeu deveria ser luz para as nações, os responsáveis por levar a todos os povos o conhecimento de Javé. Com a conversão de Israel, se poderia dizer sobre o seu Deus: “nele se bendirão as nações e nele se gloriarão” (Jeremias 4:2; cf. 16:19-21). Ou seja: a conversão dos gentios se seguiria à conversão dos judeus.

A vinha, na Parábola dos Lavradores Maus, é naturalmente a nação de Israel. A origem é Isaías 5:

1 Agora cantarei ao meu amado o cântico do meu querido a respeito da sua vinha. O meu amado tem uma vinha num outeiro fértil.
2 E cercou-a, e limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vides; e edificou no meio dela uma torre, e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas boas, porém deu uvas bravas.
3 Agora, pois, ó moradores de Jerusalém, e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha.
4 Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? Por que, esperando eu que desse uvas boas, veio a dar uvas bravas?
5 Agora, pois, vos farei saber o que eu hei de fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que sirva de pasto; derrubarei a sua parede, para que seja pisada;
6 E a tornarei em deserto; não será podada nem cavada; porém crescerão nela sarças e espinheiros; e às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela.
7 Porque a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias; e esperou que exercesse juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor.
(Isaías 5:1-7)


A parábola enunciada por Jesus é claramente derivada do cântico de Isaías. A diferença está na presença dos lavradores, o que muda o sentido da parábola. Por isso, no cântico de Isaías, a própria vinha é condenada por não produzir frutos; na parábola de Jesus, os lavradores são os responsáveis pelos frutos da vinha, sendo assim os condenados, enquanto a própria vinha é passada a outros lavradores.

A Parábola nos informa muito sobre a interpretação da própria morte de Jesus de Nazaré. Ela nos diz sobre os responsáveis pela morte de Jesus, que são os mesmos a quem Deus constituiu como os responsáveis por cuidar de Israel. São “os principais dos sacerdotes e os fariseus” (Mateus 21:45), aqueles que questionaram a autoridade de Jesus anteriormente (21:23-27), provocando a Parábola. Em contrapartida, Jesus não questionou a autoridade deles, senão apenas seu comportamento; ele os reconhece como lavradores constituídos por Deus a ser obedecidos (23:1-3). A Parábola condena aos líderes do povo, que deveriam dele zelar como pastores (cf. Jeremias 5:5; 10:21; 13:13; 23:1). Assim: “Muitos pastores destruíram a minha vinha, pisaram o meu campo; tornaram em desolado deserto o meu campo desejado.” (Jeremias 12:10).

Mas a autoridade deles finda: o Reino de Deus lhes é tirado e dado a outros lavradores. A vinha permanece! Diferentemente do cântico de Isaías, a aqui vinha não é destruída. Os novos lavradores trabalham sobre a mesma vinha anterior. Isso significa, inequivocamente, que os apóstolos de Jesus (a quem as chaves do Reino foram confiadas; cf. Mateus 16:18,19; 18:18) trabalham sobre a vinha anterior, sobre a vinha de Israel. Isso significa que todos os israelitas são parte do povo de Deus, mudando apenas seus líderes? A resposta depende do texto seguinte.


II. A OLIVEIRA E O ZAMBUJEIRO
(Romanos 11)

O capítulo 11 da Carta aos Romanos está em um contexto maior, iniciado no capítulo 9. O texto dos capítulos 9 a 11 de Romanos é demasiado longo para ser aqui reproduzido. É imprescindível sua leitura minuciosa, assim como a comparação com os trechos correlatos em Gálatas. Seguem alguns comentários.

O texto em geral tem ao menos duas motivações. A primeira delas se encontra no começo (9:1-5), ou seja, o lamento de Paulo pela inconversão dos judeus, apesar de tantas promessas e dádivas divinas ao povo. Por outro lado, Paulo temia que os gentios se jactassem contra os judeus (11:18). Os três capítulos devem ser lido à luz do fato de que o povo israelita não se converteu maciçamente à mensagem pregada pelos apóstolos; os gentios, pelo contrário, estavam se convertendo.

Todo o texto é uma exposição acerca da ligação entre a doutrina da eleição e o conceito de remanescente. Como dito por Jeremias e acima explicitado, o povo de Israel deveria se converter no exílio, e seu remanescente santo (um de uma cidade e dois de uma geração) retornaria à Terra Santa. Através da conversão desse remanescente, todas as nações seriam levadas até Javé. O remanescente santo aparece em diversos textos proféticos (Ezequiel 6:8; Miqueias 4:6-8; 5:7; Sofonias 3:12,13,20); trata-se dos sobreviventes da juízo divino (Esdras 9:13-15; Jeremias 42:2), sobre os quais se cumpre a fidelidade de Javé Deus para com a sua aliança.

Devemos entender que o juízo divino não se limita a “setenta anos” (Jeremias 25:11; 29:10). De fato, o Exílio não terminou com o retorno do povo israelita à sua terra, como havia predito Jeremias. Posteriormente ao Cativeiro Babilônico, o povo israelita foi dominado por muitas nações estrangeiras, chegando à época de Jesus (Império Romano). O cativeiro duraria sete vezes mais (Daniel 9:1-3,24). As profecias de Daniel falam por duas vezes de quatro impérios (Daniel 2:31-45; 7:ff). O fim do quarto império significaria finalmente a vitória do Reino de Deus, entregue ao “povo santo do Altíssimo” (Daniel 7:27). Em tudo isso se deve entender que o retorno do cativeiro não era simplesmente uma ação profética divina, mas que estava diretamente atrelada à conversão do povo.

Por isso, ao tratar do remanescente, Paulo não está simplesmente repetindo um tema profético passado e já cumprido séculos antes; pelo contrário, ele mostra o cumprimento da profecia em seu próprio tempo. O remanescente era aquele povo judeu que, em sua própria época, se convertia ao Messias através da pregação dos apóstolos.

De que modo isso soluciona a questão entre a Igreja e Israel? Através da doutrina da eleição. “Nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos 9:6), afirma Paulo repetindo um tema anterior na mesma carta: o judeu não é judeu exteriormente, mas interiormente (2:25-29). Paulo exemplifica isso através de Isaque e de Jacó, que eram filhos de Deus porque através deles se cumpria a promessa divina, em oposição a Ismael e Esaú, que eram igualmente filhos da carne (Romanos 9:7-13). O que define o verdadeiro israelita, assim, é ser um filho da promessa; o mesmo tema aparece em Gálatas 3:29  (lido em seu contexto). Os vasos da misericórdia de Deus, chamados dentre os judeus segundo a carne, são os verdadeiros filhos da promessa, eleitos segundo a graça de Deus (Romanos 11:5; cf. 9:24).

Assim, as promessas divinas feitas a Abraão e à sua descendência se cumprem não sobre todo o Israel segundo a carne, mas sobre o “Israel de Deus” (Gálatas 6:16). Esse Israel de Deus inclui aos gentios. Paulo o explica de várias formas em vários textos. Em Gálatas, por exemplo, Paulo o explica porque todos os batizados estão em Cristo, que é a verdadeira descendência de Abraão; assim, todos são Israel porque estão em Cristo, que é o verdadeiro Israel.

No texto presente, a explicação se dá através da “parábola” da Oliveira e do Zambujeiro (ou Oliveira-Brava). A analogia entre Israel e uma Oliveira já havia sido feita pelo profeta (Jeremias 11:16). A semelhança entre esse texto de Romanos e a Parábola dos Lavradores Maus é notável. Novamente estamos tratando de Israel, e novamente temos uma substituição. De um lado, os lavradores (pastores) são substituídos; neste caso, temos a substituição de judeus incrédulos (ramos quebrados da oliveira) por gentios crentes (ramos enxertados da oliveira-brava). Mas a oliveira permanece. A salvação dos gentios é sua inserção na mesma oliveira na qual estavam inseridos os primeiros judeus; trata-se do mesmo que se encontra, por exemplo, em Efésios 2:11-22. Não há, portanto, diferença entre judeu e grego (Romanos 10:12; cf. Filipenses 3:3).

Nisso pode-se colocar (e responder) a uma importante questão: se lemos em Mateus 28:19 (ou Lucas 24:47) que Jesus ordenou a todos os discípulos pregar entre todas as nações, por que eles não o fizeram imediatamente? Por que se limitaram a pregar entre os judeus e samaritanos (que eram também, de certo modo, judeus)?

Duas respostas (insatisfatórias) foram dadas: a resposta tradicional nos diz que os apóstolos simplesmente não entenderam aquilo que Jesus os havia mandado fazer (assim como nunca entendiam perfeitamente aquilo que os dizia). A resposta liberal é de que, pelo contrário, o Evangelho de Mateus fora escrito quando os gentios já haviam sido convertidos, e, por isso, não se trataria de uma palavra realmente dita por Jesus, mas de uma reflexão por parte da Igreja inserida na boca de Jesus pelo evangelista.

As duas respostas são, em primeiro lugar, hipotéticas. Uma terceira resposta, proposta por Joachim Jeremias e G. B. Caird, é muito mais coerente com o contexto pós-pascal. Na realidade, como mostrado, a conversão dos gentios deveria se dar posteriormente à conversão dos judeus (Jeremias 3:14-18). Assim, é natural que os apóstolos esperassem que primeiro o povo de Jerusalém se convertesse diante de sua pregação, para que, através dos judeus, as outras nações andassem à luz do Messias (cf. Zacarias 8:23). Assim, antes da conversão dos gentios deveria ocorrer o retorno da glória de Jerusalém, que ainda estava sob o jugo romano (cativa, portanto). Por isso, até aquele momento, somente os convertidos ao judaísmo (prosélitos, portanto), seriam evangelizados.

Entretanto, a glória de Jerusalém já havia vindo. Os cristãos não esperam a glória da Jerusalém terrena, mas são filhos da Jerusalém celeste (Gálatas 4:21-31), na qual chegaram (Hebreus 12:18-24). Em Cristo todos nós somos judeus sobre os quais se cumprem as promessas divinas.

Quando hoje dizemos “A Igreja de Cristo”, utilizamos expressões gregas, utilizadas pelos primeiros cristãos de língua grega e pelos judeus da diáspora, que passaram ao latim eclesiástico e daí ao português. Entretanto, uma forma, ainda dentro na língua portuguesa, de nos referirmos ao mesmo conceito seria nomeando-o como “A Congregação do Messias”. Não há diferença essencial entre as duas formas: Igreja é a palavra de origem grega para congregação, ao passo que Cristo é a palavra grega para Messias, ambas utilizadas pelos judeus helenistas. Não há diferença, senão apenas na aparência; a segunda expressão parece mais judaica. Mas devemos notar que a expressão “Igreja de Cristo” parecia judaica para os primeiros judeus; ela perdeu sua aparência original, ainda que mantenha o referente.

Os dispensacionalistas constantemente enfatizam as diferenças entre as promessas do Antigo Testamento e as do Novo. Dizem que Deus prometeu a Israel a terra e à Igreja o céu, de modo que suas promessas ainda deveriam se cumprir sobre o Israel segundo a carne (ignorando que o único Israel é o Israel segundo a graça). Na realidade, isso não é tão simples assim. De fato, há diferença entre as promessas, e as do Novo Testamento são melhores (Hebreus 8:6). Mas a principal promessa de Deus seria de que aqueles que estiverem sob o seu Concerto seriam seu povo, e Ele seu Deus (Êxodo 6:7; Levítico 26:12; Deuteronômio 7:6; 14:2; 26:19; 27:9; 28:9; 29:13). E é precisamente sobre essa promessa que se funda a conversão dos gentios, na citação de Oseias 1:10; 2:23, que em Romanos 9:25,26 Paulo aplica aos gentios.

Portanto, embora possamos dizer que a Igreja substituiu a Israel (do mesmo modo que os ramos do Zambujeiro substituíram os da Oliveira), é mais exato dizer que a Igreja é uma renovação em Israel, como Congregação do Messias.

G. Montenegro Brasilino

10 comentários:

  1. Seu estudo é muito bom e bate perfeitamente com meu pensamento. Gostaria de pedir permissão para publicá-lo em meu blog postribulacionismo.blogspot.com.br

    Deus continue o abençoando

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    1. Pode reproduzir à vontade. Em breve colocarei uma breve continuação, falando sobre a relação entre Igreja e Israel no contexto de Efésios e Colossenses, como plano final de Deus (e não como um "parêntese" do dispensacionalismo).

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  2. Sr. Montenegro, como poderia me explicar o fato do povo de Israel ainda nos dias de hoje serem prosperos, abençoado e a nação de Israael é uma nação poderosa ... digo mesmo eles tendo negado o messias ainda assim estão por cima

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    1. Em primeiro lugar, a nação de Israel não "está por cima". Está economicamente muito bem, assim como outras nações pagãs e ateias. O que tem a ver a negação do Messias com a economia de Israel?

      De fato, é uma nação próspera, como muitas outras. Mas nação ABENÇOADA? O Sr. já esteve em Israel?

      "Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos." (Mateus 5:45)

      Veja que interessante: a pergunta em si ignora completamente aquilo que foi exposto nos textos bíblicos. Não há uma citação bíblica sequer. Quer construir uma teologia com base nas notícias do jornal?

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  3. Sr. Montenegro o que significa Lo-Ruama e Lo-Ami nesse verso de oseias em que o Sr. postou? Outra dúvida que está fora do texto apresentado, se puder por favor. Jesus foi crucificado na sexta-feira mesmo? Vi algo sobre ter sido na quarta por um judeu.

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    1. LO-RUAMA [LO-RUHAMAH] = não (haverá) misericórdia.
      LO-AMI = não (é) meu povo.

      Jesus foi crucificado na sexta-feira. Isso é fácil de se comprovar: o dia da crucificação foi véspera de Sábado (Marcos 15:42), ou seja, sexta-feira.

      Pode conferir também Mateus 27:62-66 e Lucas 23:54-56.

      1º dia - Crucificação (sexta-feira)
      2º dia - Repouso (sábado)
      3º dia - Ressurreição (domingo)

      Os defensores da "quarta-feira" se apoiam em uma interpretação literalista de Mateus 12:40, contradizendo os textos supracitados.

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  4. A teologia da substituição tem bons argumentos, mas não explica tudo e não tem a palavra final.
    Por exemplo, o retorno de Israel à terra prometida, o ressurgimento do estado de Israel, não pode passar despercebido.
    A Igreja substituiu Israel no plano profético, mas as promessas de Deus são eternas, Israel continua sendo o povo escolhido e de alguma forma assim subsiste, isso não mudou porque as inúmeras profecias acerca de Israel se cumprirão.
    A teologia da substituição transforma os judeus em descartáveis, e isso explica em parte as diversas perseguições ao povo de Deus.

    "Eis que farei de Jerusalém um cálice de tontear para todos os povos em redor... Naquele dia farei de Jerusalém uma pedra pesada para todas as nações... ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém...\" (Zc 12.2,3; 14.2).

    Note que mostra Jerusalém como uma cidade, mas também pode ser entendida com o povo de Deus, Israel, ali presente.

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    1. Aqui não se defende nenhuma "Teologia da Substituição". Repito o último parágrafo:

      "Portanto, embora possamos dizer que a Igreja substituiu a Israel (do mesmo modo que os ramos do Zambujeiro substituíram os da Oliveira), é mais exato dizer que a Igreja é uma renovação em Israel, como Congregação do Messias."

      A Igreja É Israel. Somente Cristo e os judeus fiéis são Israel, e os gentios são Israel por estarem em Cristo. Os judeus inconversos não são Israel de jeito nenhum; são ímpios sem nenhuma promessa de Deus.

      A Jerusalém de Deus é a Jerusalém da qual são filhos os cristãos, não os judeus inconversos, como Paulo mostra claramente em Gálatas 4.

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  5. Prezado amigo Gyordano! Gostaria de compartilhar e aprender. Percebo em diversos textos a cerca de temas adversos que se coloca, ou tenta, de forma imparcial, defendendo a mensagem de Deus em volta de Cristo Jesus, afastando determinados rótulos (nomenclaturas das diversas entidades religiosas) da sua postura. De antemão, declaro meu apreço por isso e se assim for, acredito que esteja num caminho coerente à verdade de Deus.

    Observação: Afirmo que antes de qualquer compartilhamento e "tirar de dúvida", compreendo a vida em Cristo diferente, em absoluto, da vida debaixo da Lei (Lei Mosaica como um todo - partindo do princípio, que em concordância com artigo anterior postado, sinaliza ela como "um todo", não fragmentada como muitas doutrinas a tentam impor).

    Seguem das dúvidas:

    Como podemos (em sua compreensão) nos considerar Israel (o povo escolhido) e não nos vermos debaixo da Lei? Pensemos que, analogicamente somos (nós convertidos a Cristo) "Israel", deveríamos seguir as Leis Mosaicas (já que foram criadas para o povo de Israel)?

    Peço a gentileza de sua resposta. E coloco-me a ouvir sua compreensão. Peço perdão se de algum modo me coloquei equivocadamente ou erroneamente (ou de forma pretensiosa), quero apenas "ouvir".

    Satisfação, nobre amigo.

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    1. Se me permite a paráfrase: a Lei foi feita para Israel, e não Israel para a Lei. Israel foi feito para Deus.

      O propósito da Lei em Israel era discipliná-lo como quem disciplina uma criança. Passado o tempo de criança, passou a necessidade do aio. É isso que o apóstolo Paulo explica em Gálatas 3:19-25.

      Veja que esse texto de Gálatas perde o sentido se o povo que estava debaixo da lei (a criança) é diferente do povo que está debaixo da graça (o adulto). É um mesmo povo em duas épocas distintas, em períodos diferentes de seu crescimento.

      Se a explicação não tiver sido clara, não deixe de questionar.

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