17/04/13

Contra Horsley e Hanson

Bandidos, profetas e Messias é um grande exemplo de como construir uma História Marxista dos tempos neotestamentários, e ao mesmo tempo (e exatamente por isso) é um grande exemplo de como deturpar a História real, torcendo suas fontes até que elas digam aquilo que se quer. O livro tem pontos positivos. Poucos. Os dois autores simplesmente aplicam as suposições marxistas básicas acerca do banditismo, conforme expressas e apresentadas por Hobsbawm, às fontes, que se resumem a Josefo e alguma coisa da literatura neotestamentária. Assim, ele padece de uma visão acrítica (e ingênua) da concepção marxista de histórica.

É bom que se note que os autores do livro tem explícitas preferências políticas revolucionárias, chegando a citar Mao Zedong e Lênin. Além disso, prevalece ao longo do livro um enxuto jargão marxista, com expressões como "classe dominante" e "excedente". O projeto de Horsley e Hanson é transformar os bandidos em heróis  e convencer o leitor de que os camponeses da época também consideravam os bandidos como heróis. É mesmo interessante, como, por exemplo, os autores reconhecem que não há como saber muito sobre a perspectiva religiosa dos camponeses, mas consideram bem fácil concluir que eles tinham uma perspectiva política de favorecimento ao banditismo.

A falta de criteriosidade histórica é assustadora. Quando Josefo diz algo que possa ser usado dentro do projeto romântico de embelezamento dos bandidos, está dizendo a verdade. Quando diz algo diverso disso, é duvidoso. Isso porque consideram Josefo o traidor do movimento revolucionário, com o qual eles concordam. É mesmo interessante que, por exemplo, eles não levem em conta aquilo que eles mesmos dizem, de que Josefo estava escrevendo uma história para a aristocracia romana. Assim, por exemplo, quando citam textos de Josefo como o intuito de convencer de que os camponeses apoiavam os bandidos, não lhes passa pela cabeça de que isso possa ser uma mentira de Josefo com o intuito de exatamente legitimar a ação militar contra o povo judeu como um todo, ex post facto.

Na realidade, os textos de Josefo citados não dão suporte à tese apresentada no livro. Eles aplicam a estrutura básica da História Marxista às fontes disponíveis. A ideia é que todos os eventos da história humana devem se encaixar em uma estrutura de "luta de classes". Para o marxismo, no princípio prevalecia um mundo de justiça, igualdade e comunismo, que em um dado momento teria sido destruído pela economia, inaugurando a luta de classes, em uma etapa da sociedade é governada por uma dada classe (e.g. burguesia) e seus interesses, até o momento em que uma classe oprimida por ela busca tomar-lhe o poder através de uma revolução armada, o que inicia outra luta de classes, quando a nova classe no poder também vem a oprimir. Ainda segundo o marxismo, isso findariam em um evento futuro, quando se instaurasse de novo uma sociedade justa e igualitária, um comunismo perfeito. O marxismo pressupõe o economicismo, ou seja, a ideia de que o fator determinante das mudanças históricas são as relações econômicas, ou seja, relações de trabalho, produção e troca.

Nesse sentido, como age um historiador marxista? Ele observa as fontes históricas disponíveis e então as insere dentro de um modelo de luta de classes. Ele busca identificar as classes, as relações econômicas entre as classes, o tipo de opressão, o desenvolvimento das lutas, as revoluções, etc. Isso significa que, se um historiador marxista está diante de uma situação que não se encaixa dentro do paradigma histórico marxista, ele deve torcer suas fontes para que elas se encaixem no modelo. É exatamente isso que Horsley e Hanson fazem. Provavelmente nenhum historiador marxista o admitirá.

Um detalhe importante é que essa visão simplista implica na existência de três grupos. Há uma classe dominante, dirigente dos rumos da sociedade como um todo, e há uma classe dominada e oprimida. Diante disso, um grupo menor, um grupo revolucionário, se coloca à frente da classe oprimida e dirige sua força contra a classe opressora. Portanto, é um grupo de vilões, um grupo de coitados e um grupo de heróis que se colocam ao lado dos coitados. Para nossos marxistas em questão, a classe oprimida é o campesinato; a classe opressora é a aristocracia judaica e o império romano (em conchavo); os revolucionários são os bandidos. Um reducionismo maniqueísta evidente no livro.

Daí se evidencia o caráter altamente especulativo da obra. Quando as fontes não confirmam aquilo que os autores propõem como cenário da Palestina, eles então especulam livremente. "É possível", "é provável"; na realidade é sempre possível e provável aquilo que eles afirmam, desde que se encaixe no esquema marxista preconcebido; é sempre improvável quando não se encaixa ou contradiz.

A aplicação do modelo histórico marxista no livro se mostra muito evidente quando os autores simplesmente inventam a ideia de que a sociedade israelita pré-monárquica era um mundo de igualdade, até o momento em que os reis davídicos mudaram tudo, e reclamaram para si a propriedade. Não há qualquer fonte histórica, bíblica ou não, que comprove aquilo que afirmam. O que estão fazendo é simplesmente criar a ideia de que existiu uma sociedade ideal perfeita, e que todos os eventos posteriores estão inseridos na luta de classes que surgiu quando aquele momento anterior terminou.

Não se trata de negar que tenham existido movimentos de bandidos lutando contra a situação de dominação política. Isso Josefo já tinha escrito muito antes de Horsley e Hanson. Também não se trata de negar a crítica situação vivida pela população campesina, assim como a opressão sofrida em razão da dominação romana e seu governo títere (linhagem herodiana). Trata-se, entretanto, de apresentar os eventos históricos conforme as fontes permitem reconstruir, e não impor modelos gerais pré-concebidos, em uma história de heróis e vilões.

O livro não considera jamais a possibilidade de que os bandidos tenham sido simplesmente grupos de aspirantes ao poder utilizando o povo mais simples e desesperado como massa de manobra. Horsley e Hanson transformam automaticamente qualquer um que tenha se colocado contra o império romano como um herói do povo.


G. Montenegro Brasilino

13 comentários:

  1. Concordo contigo, apesar de não tê-lo lido totalmente (não gostei do livro, achei que era uma coisa e era outra).

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    1. O livro promete muito e faz bem pouco. O único aspecto positivo é o realce do lugar histórico dos zelotas, mas isso não é exclusivo.

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  2. Não conhecia o livro, mas vou procurar lê-lo a partir de sua análise. Gosto de analisar estes textos com pendor esquerdista e libertário para embasar minhas argumentações.

    Abraços!

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  3. Sr. Montenegro poderia comentar sobre o homossexualismo?

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  4. Tudo no que diz respeito na biblia, parece que a biblia é clara em condenar o homossexualismo, mas vi um debate no programa pop em que estava um pastor homossexual e respondeu que assim como a biblia condena o homossexualismo também condena o divorcio, também na passagem onde davi em relação ao filho do rei, a polemica que gira em torno disso.

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    1. Não assisti a esse programa, por isso não sei o que comentar sobre ele.

      A prática homossexual é definida na Bíblia como pecado (1 Coríntios 6:10; 1 Timóteo 1:10). Não se pode justificar um pecado com base em outro pecado.

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  5. Dr. Gyordano, poderia colocar sua posição quanto a esse texto extraído do site da pastora Lanna Holder, os erros e principalmente na parte das palavras em grego sou frequentadora dos cultos dela porém algumas dúvidas rodeiam minha mente estou confusa. http://jesuscidadederefugio.com.br/revista_ti/TI_edicao01.pdf

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    1. O texto em si tem muitos equívocos, como quando, por exemplo, comenta a relação entre a igreja e a escravidão, ou sobre as cruzadas, etc, mas tudo isso exige uma discussão específica.

      Sobre Romanos 1, o texto bíblico é muito claro. Os homens deixarem as mulheres e relacionarem-se com outros homens -- o que é isso, se não é uma prática homossexual? O comentário do site "desconversa".

      Sobre 1 Coríntios 6 e 1 Timóteo 1, é simplesmente mentira que exista dúvida acerca da expressão ARSENOKOITAI. ARSENOKOITAI é uma aglutinação, feia por Paulo, da versão grega de Levítico 18:22. Na época de Paulo, utilizava-se a tradução grega do Antigo Testamento. A versão grega de Levítico 18:22 diz o seguinte:

      KAI META ARSENOS OY KOIMHThHSHi KOITHN GYNAIKOS BELYGMA GAR ESTIN

      Paulo aglutinou as palavras "ARSENOS" e "KOITHN" (nominativo KOITH), formando um adjetivo referente ao que pratica o pecado descrito em Levítico 18:22, que é o da prática homossexual. Significa, literalmente, "aqueles que se deitam com homem", e é uma descrição clara do ato homossexual.

      Existem Bíblias que traduzem diferentemente, mas o fazem por pressão ideológica. Não há motivo para traduzir de outra forma.

      A expressão MALAKOI é diferente. Não significa necessariamente "efeminado", mas pode significar "fraco", "covarde" ou algo do tipo. Não se refere necessariamente à prática homossexual.

      Ore em jejum a esse respeito.

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  6. Dr. Gyordano vc teria um e mail para eu te mandar baseado em sua resposta a minha dúvida outras colocações?

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  7. Dr. Gyordano vc teria e-mail para poder me solucionar mais dúvidas quanto a homossexualidade?

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  8. Obrigado Dr. Gyordano já enviei ao seu e-mail.

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