01/03/13

O Livro da Vida (contra calvinistas e arminianos)


 O livro de Apocalipse é provavelmente o livro bíblico de mais difícil interpretação. Seu texto relata as visões que teve um certo cristão de origem judaica que chama si mesmo simplesmente “João” (1:9), ao qual parte da tradição cristã desde bem cedo identificou como o Apóstolo João. São visões impressionantes sobre a perseguição da Igreja (sendo o vidente, ele mesmo, um dos perseguidos), sobre a destruição das forças (espirituais e políticas) que se opõem a Deus, a punição dos pecadores, sobre a felicidade perpétua dos santos, a renovação da Criação, assim como sobre o triunfo final e absoluto do Reino de Cristo.

O livro mostra eventos que já haviam ocorrido (como a vida de Jesus, 12:5), assim como eventos que estavam para ocorrer em um futuro mais distante (como o Juízo Final, 20:5ss). Dentre os símbolos apresentados no livro do Apocalipse está o Livro da Vida do Cordeiro. Embora nenhuma parte do livro se dedique a descrever em detalhes o livro, a sua imagem geral aparece ao longo de vários textos:

"O que vencer será vestido de vestes brancas,
e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida;
e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos."
(Apocalipse 3:5)

"E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra,
esses cujo nome não está escrito desde a fundação do mundo
no livro da vida do Cordeiro que foi morto ."
(Apocalipse 13:8)

“A besta que viste foi e já não é,
e há de subir do abismo,
e irá à perdição;
e os que habitam na terra
(cujo nome não está escrito no livro da vida, desde a fundação do mundo)
se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá.”
(Apocalipse 17:8)

12 E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus,
e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida.
E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros,
segundo as suas obras.
15 E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.
(Apocalipse 20:12,15)

"E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira;
mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro."
(Apocalipse 21:27)

Dos textos apresentados, pode-se deduzir que:
1) O Livro da Vida tem o nome de todos os que estão destinados para o Reino (3:5; 20:12,15).
2) Os que estão fora do Livro estão condenados (20:12,15).
3) Os nomes já estão escritos desde o princípio do mundo (13:8; 17:8)
4) O nome pode ser riscado do livro (3:5).

A imagem do Livro da Vida é claramente predestinária (o que não é incomum para a literatura apocalíptica). Nesse sentido, o Livro da Vida simplesmente não se encaixa no esquema arminiano. Em uma interpretação arminiana, o Livro da Vida poderia representar duas coisas. Por um lado, ele poderia representar a presciência de Deus, isto é, o fato de que Deus de antemão já saberia quem iria perseverar quem não iria (propter praevisa merita). Entretanto, essa possibilidade deve ser descartada exatamente pelo fato de que os nomes são riscados do livro, ao passo de que eles não são escritos nele (eles já estão escritos desde o princípio). Assim, dentro da lógica arminiana, os nomes não poderiam ser 'tirados' do livro; só deveria constar os nomes daqueles que Deus soubesse que perseverariam (aquele que vencer).

Por outro lado, o Livro poderia (ainda dentro da lógica arminana) representar o conjunto de todos aqueles que, em um dado momento, são fiéis; mas isso não é totalmente verdadeiro, porque os nomes dos fiéis já estão lá desde o princípio dos tempos, não sendo posteriormente adicionados. Ou seja, o livro não segue sendo “escrito” conforme as conversões ocorrem; pelo contrário, os nomes já estão lá, os nomes de todos os que herdarão o Reino e a vida eterna.

Interessantemente, o livro contradiz a concepção de predestinação reformada/calvinista pelo mesmo motivo que ele contradiz a primeira possibilidade arminana. Isso se dá porque a doutrina calvinista da “Perseverança dos Santos” não admite que um converso possa cair da graça, mas no Apocalipse de João claramente o nome de um dos que um dia não receberão a vida eterna está entre os nomes dos que receberão.

Tanto o arminianismo quanto o calvinismo admitem apenas duas classes de pessoas, com respeito à predestinação:

No arminianismo:
a) Aqueles de quem Deus prevê a perseverança.
b) Aqueles de quem Deus não prevê a perseverança.

No calvinismo:
a) Os predestinados para a vida eterna.
b) Os não predestinados para a vida eterna (réprobos).

Pelo contrário, no esquema predestinário do Apocalipse há três possibilidades, três classes de pessoas:
a) Não riscados: Perseveram.
b) Riscados: Não perseveram.
c) Nunca tiveram o nome no livro: Não predestinados para a vida eterna (réprobos).


A imagem de um livro nos céus com o nome dos salvos não é exclusiva do Apocalipse. Na realidade, ela aparece também nas palavras de Jesus:

Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus. (Lucas 10:20)

Interessantemente, Jesus diz isso mesmo antes de que Pedro se convertesse (Lucas 22:32), o que se encaixa perfeitamente no esquema deduzido do Apocalipse.

(G. Montenegro)

13 comentários:

  1. Parabéns! Ótimo artigo.
    Tenho alguns questionamentos?

    1ª Gostaria de saber se foi de Apocalipse 3:5 que o senhor inferiu que há a classe das pessoas riscadas?

    2ª O sr. faz uma crítica a visão reformada.
    "(...) a doutrina calvinista da “Perseverança dos Santos” não admite que um converso possa cair da graça, mas no Apocalipse de João claramente o nome de um dos que um dia não receberão a vida eterna está entre os nomes dos que receberão."
    Para mim não parece tão claro que “(...) o nome de um dos que um dia não receberão a vida eterna está entre os nomes dos que receberão."

    O senhor poderia explicar melhor.

    Deus não acrescenta nomes mas Ele risca (tornando sem efeito) alguns nomes que Ele mesmo escolheu para a vida eterna?
    Então a vontade de Deus está na dependência da vontade humana?
    É isso?

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    1. 1. Sim, Apocalipse 3:5. Note as referências em paralelo nas demais cartas.

      2. Não. Primeiramente porque é Deus, e não o homem, quem coloca ou risca o nome do livro. Mas, mais especialmente, porque é Deus quem dá a perseverança.

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    2. Desculpe-me pela insistência, mas gostaria de fazer mais alguns questionamentos apartir do que já foi dito.

      1. (Referente a primeira pergunta) - Tenho percebido que o senhor busca ter zelo a Palavra, a tal ponto, de não retirar dela o que ela não diz claramente (o que é corretíssimo). Em Apocalipse 3:5 Deus fala que dará vestes brancas ao vencedor e acrescenta observando que nunca riscaria do Livro da Vida. O texto não trata da possibilidade de alguém ser riscado. Ao meu ver, para o senhor chegar a esta conclusão, o senhor teria que acrescentar algo que a Palavra não diz.

      2. Vamos supor que Deus risque.
      O senhor bem falou que é Deus e não o homem quem coloca ou risca o nome do livro.
      Entretanto, o que faria Deus riscar o nome de um Eleito do Livro da Vida?
      Uma atitude do homem?

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    3. A insistência é bem-vinda!

      1. Primeiramente, penso que nenhum de nós dois acredite que Deus não tenha poder para riscar o nome do livro. Deus pode e risca se quiser e quando quiser. O problema está em se saber se Deus riscará ou não o nome de alguma pessoa. Nesse sentido, tudo o que existe é a possibilidade de Deus riscar ou não, segundo sua própria vontade. O que Apocalipse 3:5 nos diz é que Deus promete não riscar o nome daquele que vencer. Mas não promessa alguma além desta. Se Deus promete àquele que vencer não riscar seu nome, isso só confirma o fato de que Deus poderia riscar o nome de quem quisesse. Ademais, é provável que o texto de Êxodo 32:33 seja subjacente à concepção do Livro da Vida.

      2. O que faz Deus riscar o nome é sua vontade de riscá-lo, por considerar tal nome impróprio para seu Livro.

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  2. Sr. Montenegro,

    Parece-me que o senhor gravita em uma dimensão paralela no que se refere à dicotomia arminianismo X Calvinismo. O sr. não responde satisfatoriamente as perguntas do sr. Sidnei, notadamente a 2a pergunta, que já foi respondida em ap. 3:5, versículo que o sr. insiste em usar como prova de que os eleitos podem ter seus nomes riscados ( quando ele afirma justamente o contrário - "de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida"). Além disso, deixa entrever que o escopo da sua crença se baseia na meritocracia. O sr. crê que, em última análise, é a sua perseverança que salvará a sua alma e não Cristo. O sr. crê que a obra de Cristo consiste apenas em conquistar para você a possibilidade de ser salvo mediante as obras. Isto está muito claro em seus escritos. Estou errado? Por favor, esclareça.

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    1. Sim, está muito errado.

      Não entendi EM QUE minha resposta não é satisfatória. O Sr. por acaso nega que Deus tenha poder para riscar o nome de alguém? De um lado, Deus pode riscar o nome de quem quiser do livro, e nada pode impedi-lo de o fazer. De outro lado, Deus prometeu que não riscaria o nome dos que perseverarem. É simplesmente isso. Não procure cabelo em ovo.

      Quanto ao resto, não entendi onde isto "está muito claro" em meus "escritos". Não sei onde diabos eu falei sobre Cristo apenas "conquistar para você a possibilidade de ser salvo". Eu não escrevi uma asneira dessa em lugar algum, nem escrevi nada parecido. O Sr. inventou isso de sua própria cabeça.

      Se o Sr. acredita que Deus pode tirar de alguém algo que esse alguém nunca teve (Apocalipse 22:19), paciência.

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    2. Caro Sr. Montenegro,

      Não Sr.. Eu, obviamente, não nego que Deus possa riscar alguém do Livro da Vida. Minha dúvida incide sobre as condições nas quais isto é feito. Creio que foi este o teor da 2ª pergunta do Sr. Sidnei.

      Acho que, pelo menos, concordamos que AP 3:5 não ensina que aquele que NÃO perseverar terá seu nome riscado NECESSARIAMENTE. A única informação que podemos obter, contrapondo a proposição embutida “aquele que vence, não tem o seu nome riscado” é que “aquele que tem o nome riscado não vence”. Ora, isso vai ao encontro daquilo que o calvinismo ensina. Então não entendi porque este versículo contradiz a concepção calvinista. Já que é Deus quem causa a perseverança, porque ele riscaria o nome de alguém que ele elegeu para a vida eterna?

      Ok. Eu posso aceitar que a possibilidade de riscar alguém do livro é uma dedução válida. Mas dizer que um verdadeiro crente pode cair da graça quando é Deus quem dá a perseverança só é possível se admitirmos que existe uma terceira classe de pessoas além daquelas previstas pelo esquema calvinista de eleitos e réprobos que são aquelas que TEM o seu nome escrito no livro da vida as quais Deus, soberanamente, nega a perseverança. Eles teriam, eventualmente, seus nomes riscados. Mas no final, tudo não se resumiria no mesmo esquema de eleição e reprovação?

      Quanto a eu dizer que o “Sr ,crê que a obra de Cristo consiste apenas em conquistar para você a possibilidade de ser salvo”, não se trata do Sr. ter escrito ou não e sim da premissa fazer parte do escopo mesmo da sua crença. Esta asneira, conforme o Sr falou, é defendida, ainda que veladamente, por muitos arminianos. Mas que bom que estou errado. Creio que fui precipitado mesmo. Me desculpe.

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    3. Para Deus, evidentemente dá na mesma: eleitos e réprobos. Mas para o homem faz toda a diferença, percebe? Novamente Apocalipse 22:19 é uma diferença.

      Ressalvo que no âmbito do livro do Apocalipse não há como afirmar que Jesus meramente conquistou a "possibilidade de salvação". Pelo contrário, Jesus comprou pessoas específicas que irão sem dúvida alguma participar da vida eterna (Apocalipse 5:9,10).

      O problema é que um convertido hoje não sabe se fará parte desse grupo, ainda que anelando ardorosamente por esse momento. Por isso deve implorar a Deus que firme os seus passos.

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    4. Esta asneira, conforme o Sr falou, é defendida, ainda que veladamente, por muitos arminianos.

      Falso. Arminianos não creem somente na POSSIBILIDADE - Jesus de fato garantiu salvação aos crentes. Nosso verso favorito, Jo 3:16, deixa isto bastante claro.

      Aliás "possibilidade" é um vocábulo muito mal-empregado, como se fosse uma loteria. 'Possibilidade' aqui é entendida de maneira mais próxima à Lógica Modal: para todo ser humano, ele pode ou não ser salvo, e tal coisa independe de um decreto que não leve em conta contingências da liberdade das criaturas.

      E o esquema calvinista de 'eleição e reprovação' é distinto do arminiano/tomista. Afinal, calvinistas creem que o dom da perseverança é dado a todos os regenerados, enquanto tomistas creem que Deus não entrega tal dom a todos os regenerados. Ser eleito para a vida eterna não implica ser eleito para a regeneração.

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  3. o cristianismo segue a doutrina arminiano ou calvinista?

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    1. Essa pergunta é vaga demais. "Arminianismo" e "Calvinismo" são duas escolas DENTRO do cristianismo. O cristianismo não segue nenhuma dessas escolas. Há cristãos que defendem uma delas, assim como há cristãos que defendem outras escolas (molinismo, tomismo, agostinianismo, congruísmo, etc).

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  4. qual a diferença entre apagar e riscar o nome do livro da vida?

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    1. Não existe tal diferença no livro do Apocalipse. O verbo grego empregado em Apocalipse 3:5 significa "apagar".

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