06/03/13

Judaísmo e Mérito


Antes de mais nada...

Pelo menos desde o tempo de Lutero, a interpretação comum das epístolas ao Romanos e aos Gálatas é a de que se trata, em parte, de uma crítica bem específica ao judaísmo. Os interpretes luteranos e reformados olham para Paulo como se sua crítica ao judaísmo fosse uma crítica ao legalismo, e afirmam que essa crítica ao legalismo se dá porque os judeus teriam buscado alcançar as promessas de Deus através do mérito. Essa interpretação das Epístolas Paulinas (e, na verdade, do Novo Testamento como um todo) é tão influente que mesmo exegetas não-ortodoxos (como Bultmann, em uma versão existencialista) cederam a ela.

Desde 1977, as coisas não são mais assim, nos estudos neotestamentários (com evidente exceção dos estudos neotestamentários de natureza estritamente confessional). Esse é o ano da publicação de um livro cuja influência na Teologia Bíblica é impossível de escapar. Trata-se de Paul and Palestinian Judaism, de E. P. Sanders. Segundo este autor, o “legalismo” não era uma característica do judaísmo da época de Paulo; os judeus da época, em geral, não estariam preocupados em acumular méritos diante de Deus. Sua preocupação não era o “legalismo”, mas o que Sanders chamou de “covenantal nomism”, nomismo pactual (ou nomismo da aliança). Embora “nomismo” e “legalismo” sejam expressões etimologicamente idênticas (nomos é lei em grego, ao passo que lex, legis é lei em latim), Sanders introduziu através do conceito de nomismo pactual uma percepção totalmente diferente acerca da relação entre os judeus e a lei. Não se trata de negar que a relação entre os judeus e o Deus dos judeus passava pela Torá, pela Lei. Trata-se, ao contrário, de interpretar corretamente como essa relação funcionava.

Segundo Sanders, não estava em questão o mérito. Estava em questão o pacto ou aliança (covenant). Os judeus do 1º século observavam a si mesmos como eleitos pela graça de Deus, escolhidos para fazer parte de um povo totalmente diferente dos demais. A Lei não era obedecida com o intuito de atrair a graça de Deus; pelo contrário, a Lei era obedecida porque Deus graciosamente a havia dado ao povo judeu. Assim, os judeus obedeciam à Lei para continuarem fazendo parte da aliança, para continuarem entre os eleitos.

Sanders é um liberal. Em parte, ele acreditava na antiga interpretação acerca de Paulo, e, por isso, quando lia as cartas paulinas, achava que Paulo estava errado, que ele havia julgado erroneamente o judaísmo. Entretanto, uma geração de eruditos protestantes, cujos mais notáveis eruditos são James G. Dunn e N. T. Wright, discorda da interpretação comum acerca de Paulo. Sanders havia trazido uma nova perspectiva acerca do Judaísmo Palestinense do século I, mas continuava usando a perspectiva tradicional protestante acerca de Paulo. O que esses autores então promoveram foi o que ficou conhecido como Nova Perspectiva sobre Paulo (New Perspective on Paul). Essa nova perspectiva buscava mostrar que a crítica de Paulo ao judaísmo (ou ao judeo-cristianismo) estava correta; mas que não era a crítica que a interpretação tradicional imaginava.

Segundo a a Nova Perspectiva , na realidade, a discussão a respeito do mérito não era a discussão entre Paulo e os judeus. Era a discussão entre Lutero e os católicos. São pessoas distintas em épocas distintas. Paulo não estava buscando refutar uma “teologia de méritos”. Ler as epístolas Paulinas (em especial Romanos e Gálatas) através das lentes da polêmica entre Lutero e o catolicismo havia maculado o estudo das Escrituras. Assim, a Nova Perspectiva sobre Paulo buscou trouxe um novo debate acerca de conceitos como “justiça de Deus” (dikaiosüne theou), “obras da lei” (erga nomou), “mérito” (zekut), levando a uma diferente interpretação de Paulo.

O debate é complexo, e por isso eu pretendo deixar para outro dia o tratamento da Nova Perspectiva em geral. Desejo focar especificamente em um detalhe importante: o mérito da questão é... o mérito.


O Mérito

O que diz o Novo Testamento acerca do mérito? Esse é um problema um tanto complicado pelo fato de que a nossa palavra “mérito” vem do latim (meritus), e por isso não existe um correspondente exato no grego koiné do Novo Testamento. Veja-se, ademais, que a Igreja Ortodoxa (que fala, dentre outras línguas, o grego) nunca desenvolveu uma “teologia do mérito”. Trata-se de uma expressão latina, que entre nós se tornou popular graças à expansão da Igreja Latina, isto é, da da Igreja Romana que fala latim. Por isso, a polêmica entre catolicismo e protestantismo revolve em torno da questão do mérito. Tem o homem algum mérito diante de Deus?

Dados os fatos de que tudo aquilo que temos nos foi dado por Deus (1 Coríntios 4:7), e que todos somos pecadores que só podem ser salvos pela graça de Deus (Romanos 3:23,24), segue-se que nenhum de nós tem, em sentido próprio, um mérito a qualquer coisa. Merecemos apenas nossa própria condenação. Como cristãos, confessamos que Cristo mereceu a salvação por nós. Dele é o mérito absoluto. Daí se segue que o homem não tenham nenhum mérito relativo?

O fato de que o Novo Testamento não conheça um correspondente exato para palavra latina “mérito” em seu sentido pleno não significa que os conceitos de “mérito” e “merecer” lhe sejam alheios. Na realidade, quando no dialeto koiné quer-se expressar o merecimento de algo, usa-se o substantivo αξιος (digno), e os verbos αξιοω (ser digno de) e καταξιόοω (julgar digno de).

Por exemplo:

“Então diz aos servos: As bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos [αξιος].”
(Mateus 22:8)

“E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam [αξιος]; mas este nenhum mal fez.”
(Lucas 23:41)

“Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos [αξιος] de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.”
(Romanos 1:32)

“Retiraram-se, pois, da presença do conselho, regozijando-se de terem sido julgados dignos [καταξιόοω] de padecer afronta pelo nome de Jesus.”
(Atos 5:41)

“De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor [αξιοω] aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?
(Hebreus 10:29)

“Visto como derramaram o sangue dos santos e dos profetas, também tu lhes deste o sangue a beber; porque disto são merecedores [αξιος].”
(Apocalipse 16:6)

Todos os verbos acima referem-se ao merecimento negativo: merecer a condenação, seja humana, seja divina. Isso claramente se encaixa no que dissemos acima: merecemos, em sentido próprio, apenas salvação. Muito instrutivo é o uso de Lucas 10:7 ou 1 Timóteo 5:18: digno [αξιος] é o obreiro do seu salário, que indica o sentido próprio do ser digno. Mas nem todos os textos são assim. Outros textos claramente falam de merecimento na salvação:


Mas os que forem havidos por dignos [καταξιόοω] de alcançar o mundo vindouro, e a ressurreição dentre os mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento;
(Lucas 20:35)

5 Prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos [καταξιόοω] do reino de Deus, pelo qual também padeceis;
11 Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos [αξιοω] da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder;
(2 Tessalonicenses 1:5,11)

Ambos os textos inequivocamente exortam os crentes a serem dignos do Reino de Deus. Note-se em especial que no texto de 2 Tessalonicenses, o ato de “tornar digno” (que gera um “julgar digno”) é um ato divino. Paulo ora para que Deus torne aqueles crentes dignos, ou seja, merecedores do reino de Deus. De fato, textos como Mateus 10:37,38 se tornam completamente sem sentido se todos são igualmente indignos do reino de Deus, em qualquer sentido que se dê a isso.

A contraparte dos textos acima citados é o conjunto de textos bíblicos que explicitamente adverte acerca daqueles que não entrarão no reino de Deus (1 Coríntios 6:9,10; Gálatas 5:19-21; Efésios 5:5; Apocalipse 22:15; cf. 2 Pedro 1:10,11). Os que vivem segundo a carne são condenados; os que são guiados pelo Espírito são salvos:

12 De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne.
13 Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.
14 Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus.
(Romanos 8:12-14)

Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna.
(Gálatas 6:8)

Assim, o problema se coloca dessa forma: de um lado, a Bíblia nunca, em nenhum lugar, expressamente condena o conceito de “mérito”; de outro lado, ela expressamente usa o conceito de mérito (na forma de dignidade) com respeito à salvação. Deste modo, devemos confessar, como fez Agostinho há um milênio e meio atrás, que a graça de Deus tem precedência sobre todos os méritos humanos; todos os méritos que temos são produtos da graça de Deus, conferidos em Cristo pelo Espírito Santo ao cristão. Nenhum mérito é propriamente nosso, todos eles pertencendo a Cristo; mas os méritos de Cristo nos tornam merecedores do reino.

De fato, Paulo concorda plenamente com a noção que prevalecia em sua época, de que no fim dos tempos Deus haveria de instaurar um juízo segundo as obras. Essa noção, com fortes origens no profetismo do Antigo Testamento (achando lugar também na profecia neotestamnetária; c.f. Apocalipse 20:12,15), encontra-se plenamente expressa em sua mais famosa epístola:

5 Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;
6 O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:
7 A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem (υπομονη εργου αγαθου), procuram glória, honra e incorrupção;
8 Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade;
9 Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego;
10 Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego;
11 Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.
(Romanos 2:5-11)

A expressão υπομονη εργου αγαθου significa, literalmente, “perseverança das boas obras”.

A grande vitória da Nova Perspectiva sobre Paulo é de realçar o fato de que o que estava em jogo, na polêmica de Paulo, não era as “obras da lei” enquanto critério da salvação, mas como critério de distinção entre os judeus e gentios. A ideia de um juizo final segundo as obras (assim como justificação pela fé, da qual tratarei em postagem oportuna), na realidade, serve exatamente para mostrar a igualdade entre judeus e gentios. Se Deus tem um mesmo critério, que é o das boas obras, então não há distinção entre judeu e gentio. Não há acepção de pessoas.

(G. Montenegro)

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