22/02/13

Morto desde a fundação do mundo?



Apocalipse 13:8 tem um sério problema nas traduções. A versão Almeida Corrigida e Fiel (que nem sempre é tão fiel) traz em seu texto:

"(...) esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." (Apocalipse 13:8, ACF)

Por vezes tenta-se interpretar esse texto de forma menos literal, dizendo que se refere não à morte do Cordeiro em si, mas ao plano de Deus (que antecedia a fundação do mundo). Entretanto, o texto em si não nos dá nenhuma indicação de que seu significado seja esse. E não falta quem queira interpretá-lo mais literalmente, o que causa uma grande controvérsia soteriológica, o que é comum na (des)interpretação do Apocalipse de João, talvez o livro mais difícil da Bíblia.

O que fazemos quando uma versão da Bíblia é problemática? Consultamos todas as outras? Nesse caso, as outras, em geral, trazem o mesmo erro. Quando uma tradução da Bíblia é problemática, nós consultamos o seu texto grego, donde procedem as traduções. O referido texto diz o seguinte:

(...) οὗ οὐ γέγραπται τὸ ὄνομα αὐτοῦ ἐν τῷ βιβλίῳ τῆς ζωῆς τοῦ ἀρνίου τοῦ ἐσφαγμένου ἀπὸ καταβολῆς κόσμου.”

Uma primeira tradução literal seria: Aqueles cujo o nome não está escrito no Livro da Vida do Cordeiro Morto desde a fundação do mundo.

O problema das versões portuguesas protestantes populares é de a introdução de uma conjunção subordinativa, que (toda as traduções católicas consultadas trazem a tradução correta). A conjunção, que divide aquilo que no texto grego está unido, dá a impressão ao leitor de que se trata de um período subordinado, e que o elemento final (ἀπὸ καταβολῆς κόσμου) é parte da segunda oração. Na realidade, é uma oração só.

Trocando em miúdos, “desde a fundação do mundo” não se refere a “morto”, mas a “escrito”. Ou seja: Aqueles cujo nome não está, desde a fundação do mundo, escrito no Livro do Cordeiro Morto. Se João quisesse dizer, “morto desde a fundação do mundo”, poderia ter usado outra ordem de palavras, com o elemento em questão entre o artigo definido e o particípio modificado, ou seja: τοῦ ἀπὸ καταβολῆς κόσμου ἐσφαγμένου (literalmente: do desde a fundação do mundo morto).

De fato, esse não é o único texto em que João se utiliza dessa expressão. A mesma ocorre em Apocalipse 17:8, em que podemos ler: ὧν οὐγέγραπται τὸ ὄνομα ἐπὶ τὸ βιβλίον τῆς ζωῆς ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (aqueles cujo nome não está escrito no Livro da Vida desde a fundação do mundo). A comparação entre as duas passagens é decisiva, visto que tratam da mesma questão.


(G. Montenegro)

2 comentários:

  1. São ótimas colocações, mas ainda continua duvidoso.

    Da mesma forma que João poderia ter deixado mais claro que o "desde a fundação do mundo" se refere ao Cordeiro, ele, também, poderia ter deixado mais claro que o "desde a fundação do mundo" se refira ao nome escrito no livro.

    A comparação com outras passagens ajuda a entender o texto no sentido que o sr. expõe, sem impedir a outra interpretação, apenas influência. Mas a leitura, exclusiva, da passagem do texto deixa o sentido, ainda, muita duvidoso.

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    1. Sr. Yan, sua dúvida não emana das explicações feitas acima, mas da própria natureza do método histórico e gramatical (filológico).

      Existe tradução perfeita? Sim, existe, mas sob uma condição, que é a verificação: a realidade acerca da qual versa o texto está acessível à verificação direta, ou quando é possível diálogo com o escritor original. Ora, isso nada disso nos é acessível. Não podemos voltar no tempo para conferir os acontecimentos de que fala o Evangelho de João (assim como não podemos subir aos Céus para conferir esse livro), e não podemos perguntar ao próprio João se realmente entendemos a coisa. Isso se aplica a qualquer texto bíblico. O que significa dizer: nenhum método exegético garante sempre certeza. É possível ter certeza às vezes, mas não sempre, e em especial em textos truncados, como ocorre no Apocalipse.

      Dada a abertura semântica das expressões e a separação de muitos séculos entre nós como leitores (e tradutores) e o destinatário original, a única possibilidade da exegese é imaginar o maior número hipóteses e verificar para qual dessas hipóteses pendem as evidências.

      A interpretação bíblica é uma coisa séria. Nem eu nem o Sr. temos o mais mínimo direito de escolher de que forma iremos interpretar o texto (2 Pedro 1:20). Devemos, antes, interpretar o texto como ele próprio se evidencia, sob pena de fecharmos a nossa compreensão para a Palavra de Deus. Assim, não se trata de "impedir" outra interpretação, mas de nos calarmos diante da realidade como ela mesma se mostra.

      Note como se coloca o problema: não é uma hipótese viável afirmar que o Cordeiro foi LITERALMENTE morto antes da fundação do mundo, porque ele só foi morto uma vez, e essa vez não foi antes da fundação do mundo. Assim, se for preferida a leitura "morto antes da fundação do mundo", isso não pode ser literal. Só poderia significar algo do tipo: o plano de morte do cordeiro se deu antes da fundação do mundo (mas não sua morte especificamente). Mas há algo que aponte essa interpretação como sendo verdadeira? Não, não há.

      É preciso encarar, portanto, o livro do Apocalipse como um TODO. Na visão do Apocalipse, a presença do Cordeiro morto é uma surpresa. No céu não se espera que o livro seja do Cordeiro (Apocalipse 5:3-6). Aquele é o momento específico (simbólico, é claro) em que o Cordeiro abre o livro. O paralelismo com a Carta aos Hebreus é surpreendente.

      No mais, Sr. Yan, meu argumento não é a comparação com outro texto, mas a unidade da oração no texto grego (que é dividida em duas orações, se o texto não for interpretado como estou dizendo).

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