09/02/13

Heresia antirreligiosa (?)


  Há algo terrivelmente errado no evangelicalismo atual. Na realidade, há muitas coisas erradas, mas há uma especificamente insuportável, pelo menos para mim. Trata-se de um tipo de heresia que, como grande parte das heresias, tem em si um pecado oculto. Nesse caso, não tão bem oculto.

Há dois tipos de heresia, por assim dizer. Há um tipo inteligente, intelectual e desafiador de heresia, e há um tipo que é meramente uma tolice, uma estupidez. O primeiro tipo se origina em uma vontade de conhecer (ainda que mal dirigida), enquanto o segundo tipo se origina, talvez, em uma vontade de desconhecer.

Costumamos dizer que o nestorianismo é uma heresia, um pecado contra a ortodoxia cristã, mas certamente é uma heresia inteligente. É necessário estudo para compreender o que de fato o nestorianismo afirma, compreender que diferença há entre isso e a doutrina ortodoxa, compreender as consequências desse erro. É uma heresia que exige capacidade de pensamento abstrato. Como resultado, esse tipo de heresia pode ser combatido diretamente.

O mesmo não ocorrer com as heresias que são meras tolices. Elas não têm significado; não há o que se entender por trás delas; são pura asneira. Sabemos que construir é muito mais difícil que destruir; conhecer exige esforço, mas desconhecer exige meramente preguiça. Assim sendo, acaba sendo mais difícil detectar e encontrar essa heresia, porque ela não tem uma forma específica, podendo assumir diversas formas. Aquilo que há de comum a essas formas é muito mais um ethos ou um sentimento.

A heresia que muito me incomoda é desse segundo tipo, uma mera estupidez. Como estupidez, ela não tem um significado. É muito difícil dar um nome a ela, mas é muito fácil encontrá-la. As heresias inteligentes são transmitidas através de tratados, de ideias, de discursos. As heresias burras são transmitidas através de chavões (se um provérbio é uma síntese de sabedoria e lógica, um chavão é uma síntese de ignorância e retórica), porque os chavões tem sempre aparência de verdade. Exemplos desses chavões são:

“Jesus é meu salvador, não minha religião”
“Menos religião, mais Jesus”
“Jesus é maior que a religião”
“Jesus odeia religião” etc

Como se vê, a heresia a qual me refiro opõe Jesus a Religião, como se fossem duas coisas incompatíveis. É um tipo de chavão que só atrai adolescentes incultos e adultos que não aprenderam nada desde que foram adolescentes. Qualquer cristão sensato em outra época da humanidade veria nisso a maior tolice e incongruência. Qualquer ateu sensato hoje em dia sabe que isso é uma tolice. Mas os evangélicos compraram o discurso idiotificante. Por quê?

Bem, quando o herege afirma que “religião” é errado e “Jesus” é o certo, a palavra “religião” significa algo bem específico. Em geral, chamamos de religião um conjunto de crenças e práticas com foco no sagrado (o que quer que seja esse sagrado). Quando asseveramos que nossa religião é o cristianismo, queremos dizer com isso que cremos que Cristo, o Filho de Deus, é sagrado, que sua mensagem é sagrada, e que nossas crenças e práticas são julgadas de acordo com o que ele estabeleceu; em outras palavras: somos absolutamente discípulos de Cristo. Da mesma forma, quando dizermos que alguém tem a religião budista, queremos dizer com isso que o sujeito é discípulo de Buda. Nada mais elementar.

Mas para o herege, não é assim. “Religião”, para o herege, significa “instituição”, significa “liturgia”, significa “obras”. Por que o herege odeia essas coisas? Porque o herege vê em todas elas hipocrisia. O herege é, na verdade, um grande julgador. Ele lê que Jesus, nos evangelhos, condenou a hipocrisia dos fariseus daquela época no trato da religião, e o herege, muito perspicaz, conclui que Jesus condenou a religião. Conclui ainda que está habilitado a conhecer o coração de todos os homens e identificar quem é hipócrita e quem não é, algo que, até onde eu sei, só Jesus podia fazer.

Na verdade, cinco minutos de pensamento e um pouco de bom senso nos levam à conclusão oposta. Hipocrisia significa “falsidade”, “fingimento”. Quando Jesus condenou a hipocrisia dos fariseus no trato da religião, não significa que ele condenou aos fariseus por ter uma religião, mas por não levar sua religião a sério. Não por serem muito religiosos, mas por serem, na realidade, pouco religiosos. Não significa que Jesus queria que eles parassem seus rituais, suas orações e seus dízimos; significa, pelo contrário, que Jesus queria que eles colocassem nos seus rituais, orações e dízimos todo o seu coração, não apenas na aparência.

O cerne do julgamento carnal do herege é este: onde quer que ele veja uma religião, isto é, uma religião institucionalizada, ele automaticamente julga a todos os que ali se arrebanham com hipócritas. Ele conhece o coração de todos, menos o seu próprio. Um tipo de confusão mental (a confusão de seu próprio pecado) faz com que o herege junte na palavra religião os dois significados acima descritos: religião no sentido estrito da palavra, assim como religião no sentido deturpado pelo próprio herege. O herege aqui descrito é meramente um julgador.

No passado, eram ateus materialistas que odiavam a religião e queriam que ela terminasse, por ser opressiva e enganadora. Hoje são evangélicos. Já não se faz heresia como antigamente.


(G. Montenegro)

25 comentários:

  1. O Budismo sem o Buda continua budismo, o Kardecismo sem Kardec continua o Espiritismo, etc. mas Cristianismo sem Jesus Cristo, é uma religião igual a qualquer outra, ter comunhão com Cristo é que faz toda a diferença.
    Existe muita gente seguindo Jesus como se fosse só uma religião (regras, traições, cerimónias, costumes, etc.) existe muitos que até realizam milagres, mas, poderão ouvir de Jesus no futuro: “Eu não vos conheço” (Mateus 7; 21-23).
    O fato é que, quem segue sinceramente a Jesus obedecem e segue uma religião, mas quem segue sinceramente uma religião (mesmo Cristã) nem sempre ama a Deus.
    Quando alguém sita: “Jesus é maior que a religião” simplesmente quer expressar que seguir a Jesus é mais do que obedecer a regras e doutrinas religiosas, é sim ter comunhão com filho de Deus, mesmo que isso tenha aparência e hábitos religiosos, é um jeito de dizer para quem está acostumado com religiões que Jesus Cristo é algo a mais.
    Não leve a mal este comentário, admiro e acompanho seu blog, mas desta vez concordei só em partes.

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  2. Permita-me Sr. Montenegro colocar neste tema - Qual à sua posição quanto ao deputado evangélico que disse que "os africanos são um povo amaldiçoados"? Tratando de estudos biblicos qual faculdade teologica seria a mais adequada no Brasil( na verdade gostaria de saber em São Paulo se o Sr. conhece). A referencia que tenho é presbiteriana e batista, o Sr. sabe me dizer quais os pontos favoraveis e contra de ambas?

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    1. Não tenho posição nenhuma sobre nenhum deputado evangélico.

      A declaração "os africanos são um povo amaldiçoado" é asneira.

      As melhores faculdades teológicas protestantes de São Paulo, salvo engano, são a MACKENZIE e a UMESP. Eu não estudaria em uma instituição batista, a menos que não tivesse outra opção.

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  3. "Eu não estudaria em uma instituição batista, a menos que não tivesse outra opção." Porque? O que ocorre com essa instituição? O que tem de errado nos estudos doutrinario ou teologicos da batista? Pergunto por que é a mais próxima de casa ...kkkk.

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    1. Grande parte dessas instituições está viciada de dispensacionalismo e fundamentalismo.

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  4. Oh, está ao vivo Sr. Montenegro meus agradecimentos pela disposição em responder minhas perguntas, e desculpas por estar saindo fora do texto, mas o que seria " dispensacionalismo e fundamentalismo."? Já ouvi muito esses termos mas não sei o que significa a não ser que eu use o google ...kkkk, sou aqui de São Paulo (capital) minha familia é de maioria catolica mas não praticante.

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    1. Dispensacionalismo é um sistema de interpretação da Bíblia, que separa a História segundo "Dispensações". O modelo dispensacional foi criado no começo do século 19. O dispensacionalismo não apenas deturpa flagrantemente as Escrituras, como também está ligado à ideologia do chamado "sionismo cristão".

      Fundamentalismo é uma proposta de delimitação do cristianismo segundo um conjunto específico de "doutrinas fundamentais". Na concepção fundamentalista, não é cristão quem discorda dessas doutrinas.

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  5. Quais seriam essa deturpações das escrituars por parte desse sistema? Por favor, e dessa ideologia sionista? O que o Sr. não concorda com essa doutrinas fundamentais diante da biblia? Desculpe tomar o seu tempo comigo.

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    1. O primeiro grande problema é que a Bíblia não divide a história em dispensações. A Bíblia simplesmente não o faz. Os problemas resultantes são muitos.

      A ideologia do "sionismo cristão" prega que os judeus hoje têm direito a toda a terra prometida (Eretz Israel), significando, com isso, que eles podem expulsar do território todas as populações que não concordem com esse domínio.

      O problema do dispensacionalismo não é exatamente suas doutrinas, mas a forma como as estabelece como critério. Coisa do tipo: quem não crê no criacionismo não é cristão, quem não crê na morte substitutiva não é cristão.

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  6. Sr. Montenegro e qual o problema gerado nessa divisão em dispensações? A doutrina é afetada? "...Os problemas resultantes são muitos." poderia me dar um explicação para que eu compreenda, por favor. Outra, como devemos interpretar ou intender o criacionismo no meio cristão? Ou no que se erra em taxar que não cre no criacionismo. Não entendi essa última sua "...quem não crê na morte substitutiva não é cristão."

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    1. Um dos maiores problemas é que o dispensacionalismo observa a Igreja como apenas uma das dispensações (alianças) de Deus com os homens, um "parêntese". Biblicamente é o contrário: a Igreja é o plano principal de Deus (como consta em Efésios e Colossenses).

      Não entendi sua pergunta sobre o criacionismo. O que eu disse é que os fundamentalistas não consideram cristão quem não crê no criacionismo.

      "Morte substitutiva" é uma referência à chamada Teoria da Substituição Penal. Os fundamentalistas acreditam ser heresia negar essa teoria.

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  7. Desculpas Sr. Montenegro mas de maneira alguma estou perguntando de forma irônica ou coisa do tipo, pode ser que seja simples ou tolas essas minhas perguntas infelizmente são algumas das muitas dúvidas que tenho porisso postei aguardo sua explicação por ler suas postagens e ver que é verdadeiro na sua posição e muito coerente.

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  8. Sr. Montenegro obrigado por sua prontidão em responder-me, poderia dar sua opinião do que seria de fato o versiculo que diz sobre a letra mata, ouço muitos falarem que diz respeito aos teologos que inventam heresia e destroem a palavra de Deus como se estudar para ser teologo fosse algo ruim. Poderia me ajudar por favor.

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    1. A letra que mata é a da Lei de Moisés (leia 2 Coríntios 3). "Letra" é uma figura de linguagem.

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  9. Olá irmão Gyordano, aqui é a Cleide, poderia me dizer se essa profecia se cumpriu ou quando se cumprirá? Quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do homem.
    Mateus 10:23
    E essa é uma profecia futura? Mateus 16:27-28.
    (Cleide Nascimento)

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    1. A profecia de Mateus 16:27,28 está dividida em duas partes. A segunda metade da profecia desse texto (versículo 28) é a mesma profecia de Mateus 10:23. Portanto, a explicação é basicamente a mesma.

      Para entender o significado, é preciso observar um importante detalhe acerca da profecia bíblica. A expressão "Filho do homem" é uma imagem utilizada na profecia de Daniel 7, representando o povo de Deus (a imagem aparece em Daniel 7:13,14 e é interpretada como o reino dos santos do Altíssimo em Daniel 7:27, em oposição aos quatro impérios do mundo). Portanto, na profecia bíblica "Filho do homem" é um símbolo do reino de Deus através do seu povo.

      A confusão aqui ocorre porque na Bíblia repetidas vezes Jesus é chamado de Filho do homem. Mas essa confusão se dissolve quando levamos em consideração que Jesus É o povo de Deus. Tudo aquilo que nós somos, somos através de Jesus. Várias vezes profecias do Antigo Testamento que se referiam a todo o povo de Israel (como Isaías 53) são aplicadas exclusivamente a Jesus. Isso se dá porque Jesus é o verdadeiro Israel de Deus, e através de Jesus nós nos tornamos parte desse povo. Jesus é o filho de Deus por excelência, e nós nos tornamos filhos de Deus através dele (adoção). Jesus é rei e sumo sacerdote por excelência, e nós nos tornamos reis e sacerdotes através dele. É o que eu chamo de Doutrina da Participação. Ou seja: o Reino pertence a Jesus eminentemente, e aos crentes em Jesus compartilhadamente. Essa doutrina aparece cristalizada em Atos 9:4,5, em que Jesus pergunta a Paulo "Por que ME persegues?", quando Paulo perseguia à Igreja.

      Portanto, referências a "Filho do homem" tratam ao mesmo tempo de Jesus e do povo de Deus, não exclusivamente de Jesus como uma interpretação rasa poderia supor. Levando em conta esse importante detalhe é possível entender as profecias citadas: elas NÃO se referem à vinda de Jesus.

      "Quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do homem." (Mateus 10:23)

      "Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino." (Mateus 16:28)

      Essas profecias se referem eminentemente à presença de Jesus na Igreja como Rei. Isso foi o que aconteceu, por exemplo, em Atos 9, em que Jesus aparece a Paulo (=Saulo), para fazer cessar a perseguição.

      Note que o segundo texto, Mateus 16:28, NÃO PODE se referir à vinda de Jesus por um detalhe muito importante: o texto indica que após esse "vejam vir" haverá morte ("...não provarão a morte ATÉ QUE..."). Ora, isso não é a vinda física de Jesus, porque sua vinda aniquilará a morte (1 Coríntios 15:52-55). Ninguém morrerá após a vinda de Jesus. Trata-se, portanto, da presença gloriosa de Cristo na Igreja. Veja que, depois de Mateus 16:28, Jesus se mostra em glória a alguns de seus discípulos na Transfiguração.

      Mateus 16:27 se refere a um momento diferente de Mateus 16:28. Mateus 16:28 é o momento em que o Reino começa a se mostrar (através da Igreja), enquanto Mateus 16:27 é o momento do Juízo Final (compare à Parábola do Joio e do Trigo).

      Agradeço pela pergunta. Se a dúvida persistir ou se alguma coisa não se encaixar, por favor insista em perguntar.

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  10. Bom dia irmão Gyordano, confesso que ainda não digeri com tanta facilidade sua exposição pelo fato de não ter essa forma tão complexa e/ou precisa de resposta kkkk infelizmente li e ouvi muita coisa confusa e sem nexo aparentemente parecia resolver mas, sempre havia uma lacuna ou então uma salada kkkk. Sua visão que Deus lhe concedeu é muito maravilhosa, estou dando atenção a todas sua postagens nesse seu blog que é muito valioso porém, como disse no inicio minha concepção que fora me passado é superficial e confusa muitas vezes. Obrigada e pode crer, vou perguntar ainda muito mais ... há, só um detalhe, muito importante na minha vida está se dando por Deus através das suas palavras e orações, como tinha dito no seu msn sobre minha vida particular, quero louvar a Deus pois já não frequento mais aquela determinada igreja que fazia parte e deixei aquela pessoa que vivia comigo. Agradeço irmão Gyordano. (Cleide Nascimento)

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    1. Fico muito feliz com sua decisão. Oro para que Deus lhe conforte em todos os momentos. Se precisar de mim, não existe em comunicar.

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  11. Como cristão devemos acreditar na hipótese de vidas em outros planetas?

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    1. Não há nada no cristianismo que afirme ou negue a possibilidade de vida exógena.

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    2. Acredito que exista vida em outros planetas mas não com inteligência

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    3. Bacteriana, vegetal, animal, o que você acha Gyordano

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    4. Eu não sou cientista natural, então me é difícil responder. Se há vida em outros lugares do universo, ela talvez seja muito diferente da que há na terra; precisa estar adaptada a outras condições.

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  12. A bíblia e a ciência entram em contradição?

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    1. A Bíblia foi escrita em um condicionamento cultural, científico, lingüístico e filosófico próprio, de modo que ela carrega diversos elementos que, se interpretados de maneira fundamentalista, são incorretos.

      Por exemplo: ela diz que o Sol gira em torno da terra (Sl 19:4-6; Ec 1:5), ou que a menor semente que há na terra é a da mostarda (Mc 4:31).

      Essas passagens devem transmitir para nós mensagens espirituais; o texto de Salmos fala sobre a grandeza de Deus; o de Eclesiastes fala sobre a circularidade da história; o de Marcos, sobre o crescimento do reino de Deus.

      Isso não quer dizer que a Bíblia e a Ciência entram em contradição. Mas a leitura fundamentalista da Bíblia e a Ciência certamente se contradizem.

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