07/06/12

O Sacrifício da Mesa do Senhor


Mas desde o nascente do sol até ao poente é grande entre os gentios o meu nome; e em todo o lugar se oferecerá ao meu nome incenso, e uma oferta pura; porque o meu nome é grande entre os gentios, diz o Senhor dos Exércitos.
(Malaquias 1:11)

A comunhão do corpo e do sangue de Cristo (1 Coríntios 10:16,17) é um sacrifício? Considerando que não há um texto bíblico que claramente o afirme, nem tampouco um texto que claramente o negue, essa resposta deve ser cuidadosamente buscada tanto na natureza da Mesa do Senhor quanto na natureza do Sacrifício.

Assim, em primeiro lugar é preciso se perguntar: o que é um sacrifício? Os sacrifícios da Lei Mosaica eram oferta feita ao Senhor, muitos dos quais pelos pecados, as quais constituíam geralmente de animal trazido ao sacerdote, para que ele, realizando ritos definidos, derramasse o sangue sobre o altar, com propósito cultual. Entretanto, é necessário diferenciar entre o sacrifício propriamente dito e o holocausto: o primeiro tipo, após o oferecimento do sangue no altar, era comido, ao passo que o segundo tipo era inteiramente queimado. O sacrifício da Páscoa era desse primeiro tipo: os sacrificantes comiam do cordeiro pascoal. O rito está apresentado em Deuteronômio 16:1-8 (cf. Êxodo 12:1-28); comer o animal não era uma parte acessória, mas era integrante do próprio sacrifício.

Sabemos que a obra de Cristo na cruz é um sacrifício pascal (1 Coríntios 5:7), não sendo necessário nos determos muito em tal questão. É importante, porém, frisar que o templo dos céus é eterno, ao qual estão ligados os templos (os cristãos) na terra, e é nesse grandioso templo que penetrou Jesus, em sua ressurreição e ascensão, para oferecer a Deus seu divino sacrifício, completado na cruz (Hebreus 4:14; 8:1,2; 9:11-14,24-28). Como demonstrado em tais textos bíblicos, o sacrifício de Cristo foi oferecido uma vez. Entretanto, todos nós, cristãos de todas as épocas, nos fazemos participantes, comungantes deste mesmo sacrifício. Diferentemente dos sacrifícios da Lei, que estavam associados a um cordeiro temporal, esse perfeito sacrifício oferecido por Cristo a Deus é atemporal. Nesse sentido há um texto muito interessantes:

18 Porque não chegastes ao monte palpável, aceso em fogo, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade,
19 E ao sonido da trombeta, e à voz das palavras, a qual os que a ouviram pediram que se lhes não falasse mais;
20 Porque não podiam suportar o que se lhes mandava: Se até um animal tocar o monte será apedrejado ou passado com um dardo.
21 E tão terrível era a visão, que Moisés disse: Estou todo assombrado, e tremendo.
22 Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos;
23 À universal assembléia [πανήγυρις] e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados;
24 E a Jesus, o Mediador de uma nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel.
(Hebreus 12:18-24)

Esse primeiro texto (assim como grande parte da Carta aos Hebreus) nos mostra a superioridade da Nova Aliança em relação à Antiga. A comparação (análoga àquela de Gálatas 4) se dá entre o monte Sinai (a antiga aliança) e o monte Sião (a nova aliança). A antiga aliança é descrita nos termos terríveis em que ela aparece no Êxodo. Entretanto, diz aos cristãos: “chegastes... à Jerusalém celestial”. A Jerusalém Celestial, descrita como morada e mãe dos cristãos (Gálatas 4:26; Filipenses 3:20), é tratada pictorialmente e esplendorosamente no livro do Apocalipse. Nos diz ao mesmo tempo a Escritura que nela não há templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro. (Apocalipse 21:22) e que Deus se assenta no seu templo nos céus (Salmos 102:19; Hebreus 9:24; Apocalipse 11:19), o que se entende simbolicamente, ainda que realmente. Nos diz o texto de Hebreus que já estamos lá naquele lugar celestial (cf. Efésios 2:6), chegamos à Jerusalém celestial, na qual Deus é o templo. A expressão grega πανήγυρις (donde deriva o português “panegírico”, de sentido próximo), acima indicada, significa um tipo de reunião festiva de uma cidade em que todos devem participar, e indica universalmente na Septuaginta os sacrifícios da Lei feitos pelo povo a Deus (em Ezequiel 46:11; Oséias 2:11; 9:5; Amós 5:21). Diferentemente das festas humanas, a festa do Senhor é uma reunião que celebra o sacrifício de Cristo. Nos céus e na terra, anjos e homens, passado e futuro, toda a Igreja celebra este sacrifício.

Considerando o sacrifício de Cristo um sacrifício pascal, como acima dita, é evidente que se faça necessário comer a carne do sacrifício, o que é parte do sacrifício pascal, da festa pascal.

23 Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;
24 E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória (ἀνάμνησις) de mim.
25 Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória (ἀνάμνησις) de mim.
26 Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.
(1 Coríntios 11:23-26)

O texto acima, muito lido em celebrações da Ceia do Senhor, é interpretado geralmente como significando que a celebração é apenas uma “lembrança” do sacrifício de Cristo. Entretanto, a anamnese (ἀνάμνησις) é parte integrande dos sacrifícios:

Nesses sacrifícios, porém, cada ano se faz comemoração (ἀνάμνησις) dos pecados,
(Hebreus 10:3)

"E sobre cada fileira porás incenso puro, para que seja, para o pão, por oferta memorial (ἀνάμνησις); oferta queimada é ao Senhor."
(Levíticos 24:7)

"Semelhantemente, no dia da vossa alegria e nas vossas solenidades, e nos princípios de vossos meses, também tocareis as trombetas sobre os vossos holocaustos, sobre os vossos sacrifícios pacíficos, e vos serão por memorial (ἀνάμνησις) perante vosso Deus: Eu sou o Senhor vosso Deus."
(Números 10:10)

Os textos acima todos utilizam o conceito de “memoração” associado ao próprio sacrifício realizado (as referências a Levítico e Números são da Septuaginta). Um caso especial é o próprio caso da Páscoa, que é apresentada como Memorial (Êxodo 12:14), ainda que o sacrifício seja repetidamente realizado. Evidentemente o sacrifício de Cristo foi realizado uma só vez, no altar da Cruz; entretanto, a Mesa do Senhor é uma rememoração no mesmo sentido que a Páscoa: traz-se para o presente a libertação passada. Aquele sacrifício passado é trazido para cada um dos cristãos, que pode tomar e comer, e ter “comunhão no corpo” e “comunhão no sangue” (1 Coríntios 10:16,17), posto que todos fazem parte de uma mesma festa, no passado, presente e futuro, na Jerusalém celeste. Uma segunda diferença está em que, como cada cristão é templo (e por isso também altar), o sacrifício de Cristo deve estar vivo dentro desse altar. Por isso do sacrifício pascal não era comido o sangue, mas o cristão tem comunhão tanto no corpo quanto no sangue.

Nesse sentido, a expressão “Mesa do Senhor” tem uma conotação bíblica muito especial: trata-se da oposição entre a Mesa do Senhor e a Mesa dos Demônios (1 Coríntios 10:21). O que o apóstolo discute são as comidas sacrificadas aos demônios, e se os cristãos podem participar desses sacrifícios; a eles ele chama “mesa”, aplicando a mesma expressão para a Ceia do Senhor, que, por oposição, é descrita também como sacrifício. De fato, ainda no Antigo Testamento o altar de sacrifício, sobre o qual o sacerdote levítico oferece pão, é descrito como “Mesa do Senhor” (Malaquias 1:7,12).

Nesse sentido, podemos dizer sim, concordando com os cristãos primitivos, que a Mesa do Senhor é um sacrifício.


G. Montenegro

4 comentários:

  1. Olá amigo, li este artigo em seu blog e fiquei um pouco confuso com a conclusão, pois me parece que vc concorda com a posição que a Igreja Católica defende. Se possível me envie um esclarecimento por email danielfernandes_bn@hotmail.com Ficarei muito grato se vc me responder pois estou estudando sobre a ceia/Eucaristia e estou muito confuso. Obrigado desde já

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    1. Eu preciso primeiramente perguntar: o Sr. encontrou alguma parte problemática antes da conclusão?

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    2. Olá, não encontrei nenhum problema pelo contrario concordo com você, minha duvida é se entendermos que realmente a ceia é um sacrifício de rememoração teríamos que usar altar ainda hoje em nossa igrejas quando formos participar da ceia? pois em uma parte você citou que nós somos o altar e outra você citou quando Paulo compara a mesa do Senhor com a dos demônios (que ao meu ponto de vista parece ser literal).
      A outra duvida é como você entende a presença de Jesus na Ceia ele se faz física, espiritual ou apenas simbólica. Obrigado desde já, fica na paz.

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    3. 1. Deveríamos usar altar ainda hoje? Creio que sim, como fazem os irmãos anglicanos, luteranos e metodistas, embora eu não afirme que realizar a Ceia sem altar/mesa seja um pecado, mas apenas que é inadequado ao que a Escritura apresenta.

      2. Creio na presença real de Cristo no Pão e no Vinho. Se Cristo está realmente no Pão e no Vinho, e se Cristo é ao mesmo tempo corpo e espírito, não entendo como se pode diferenciar entre presença física e presença espiritual. Parece-me ser só um jogo de palavras. Entretanto, a Bíblia não afirma que o pão e o vinho "se transformam" no corpo de Cristo (a posição católica romana), mas apenas que eles SÃO o corpo de Cristo.

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