08/06/12

Imitatio Sanctorum


4 Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; 5 Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós. 6 E vós fostes feitos nossos imitadores, e do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo. 7 De maneira que fostes exemplo para todos os fiéis na Macedônia e Acaia.
(1 Tessalonicenses 1:4-7)


Todos nós sempre estamos imitando alguém. Até quando tentamos ser diferentes de todos, o fazemos porque estamos tentando imitar (talvez inconscientemente) alguém que é diferente de todos. Na realidade, não há pecado algum em imitar. Embora vivamos em uma cultura que coroa a inovação e condena a regularidade, devemos que ter em mente que nenhuma dessas duas coisas é boa em si mesma. Devemos imitar aquilo que deve ser imitado, e não imitar aquilo que não se deve imitar. Por tautológico que pareça, nossa cultura nos confunde e nos impede de ver o óbvio.

Evidentemente um cristão pensará que está vacinado contra esse vírus cultural. Busco imitar a Cristo, dirá esse cristão. E logo mais outra confusão, de mesma natureza, o fará pensar que “Solus Christus” (ou “Solo Christo”) implica em dizer que só se deve imitar a Cristo. Uma confusão não poderia ser mais diabólica! Diabólica sim, porque nem sempre o diabo nos dá uma mentira completa; por vezes se contenta com uma meia verdade, uma meia espiritualidade. O real problema é que todos nós queremos que Cristo seja alguma coisa que nos agrada. Dificilmente alguém se imagina como um dos cambistas a quem Cristo açoitou com um azorrague; nos colocamos como o “publicano arrependido”, apenas para receber o louvor de Jesus. O que quero dizer é que sempre julgamos mal a Cristo, porque tentamos projetar nele uma imagem que nos agrade; e, assim, seguimos não a imitação de Cristo, mas a imitação daquilo que achamos bom.

Não se entenda mal o que digo. Devemos sim imitar a Cristo, sempre a Cristo, em tudo o que fazemos. Mas nós não somos iguais a Cristo (e, por favor, não se trata de uma discussão cristológica; não sou doceta!). Nem tudo em nós se encaixa na vida dele, e nem tudo dele se encaixa na nossa vida. Dou um exemplo bem claro: Cristo não teve nenhum pecado (ainda que levando em si os nossos pecados), e nós temos deles aos montes. Cristo não pode ser um exemplo de pecador arrependido! Exemplo de humilde, de servo, de submisso, sim, mas não de pecador arrependido. Outro exemplo: Cristo não teve nenhuma lua de mel, e ninguém afirmará buscar seguir ao exemplo de Jesus nesse momento, mesmo que afirme fanaticamente em outros momentos que imita a Cristo em tudo. Percebem?

Dou um exemplo mais concreto, sobre a vida de Jesus. Como deve ser o comportamento do cristão diante de uma perseguição ostensiva? Jesus em dado momento fugiu da perseguição, e em dado momento não resistiu. Devemos imitar a Cristo quando ele fugiu dela ou quando ele se entregou? A questão não é simples. Podemos alegar que devemos imitar a Cristo quando ele fugiu da perseguição, porque (dizemos) o único motivo pelo qual ele se entregou, ao fim, foi porque tinha a missão específica de sofrer o Cálice que o pai lhe havia dado, e em todas as demais situações ele simplesmente fugiu. Por outro lado, podemos usar o mesmo argumento ao inverso: devemos imitar a Cristo quando ele se entregou, porque na realidade (dizemos) o único motivo pelo qual ele não se entregou antes é de que deveria aguardar até o momento certo, para que não morresse fora de Jerusalém, ou fora do momento certo destinado por Deus; portanto, ele teria um motivo para não se entregar antes, e por isso não se entregou, mas deveríamos imitá-lo nos entregando. Evidentemente um dos dois argumentos está errado (ou ambos!); mas eles mostram que diante dos mesmos fatos é possível dar uma interpretação diferente, que favoreça essa ou aquela prática, essa ou aquela “imitação”.

Demais disso, a Escritura não nos dá subsídio suficiente para saber o que Cristo faria em cada situação, visto que Cristo viveu um conjunto limitado (ainda que mais vasto que o nosso) de situações (aquilo que permite a vida humana), e que desse conjunto só conhecemos uma parte limitada (aquela relatada pelo Evangelho). Por mais iluminados que sejamos pelo Espírito Santo, por mais que tenhamos a mente de Cristo, nenhum de nós é capaz de saber tudo. O Senhor é soberano.

Entretanto, não é tão verdade assim que Cristo viveu um “número limitado” de situações. A vida de Jesus de Nazaré (e me refiro à vida humana) não se limita aos trinta e poucos anos que viveu na Palestina, de seu nascimento da virgem Maria até sua crucificação (ou mesmo sua ascensão). Na realidade, a vida de Cristo se estende a muito mais do que isso. Cristo vive em sua Igreja. Por isso pode dizer o apóstolo que a Igreja é a plenitude de Cristo (Efésios 1:22,23). Por isso pode dizer: Cristo vive em mim (Gálatas 2:20). Não se trata de mera poesia; onde quer que no tempo ou no espaço se encontre a Igreja de Cristo, Ele está nela vivo, bem vivo. Por isso, a esse mesmo apóstolo foi dito: “...por que me persegues?” (Atos 9:4), quando Paulo na realidade perseguia à Igreja. De fato, temos uma resposta à pergunta "Como deve a Igreja agir diante da perseguição?" quando observamos o Cristo perseguido na Igreja, ao longo dos Atos dos Apóstolos.

Evidentemente nenhum de nós é o Cristo encarnado. Todos somos grandes pecadores, especialistas em pecar. Mas isso não anula a verdade do que Paulo disse: Cristo vive em mim. E somente porque Paulo sabia que Cristo vivia nele é que pode dizer: “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (1 Coríntios 11:1). Somente por isso poderia chamar a si mesmo, e aos outros missionários, de “exemplo” (Filipenses 3:17; 2 Tessalonicenses 3:7-9). É uma dupla obrigação: assim como a ovelha deve seguir o exemplo do pastor (Hebreus 13:7; cf. Tiago 5:10), o pastor deve ser exemplo para a ovelha (1 Timóteo 4;12; Tito 2:7; 1 Pedro 5:1-3). É sólida a base bíblica para a “imitação dos santos”, imitatio sanctorum.

Por isso devemos nos interessar por imitar os santos do passado e do presente, sem a presunção de sermos os intérpretes da Escrituras. A Imitatio Sanctorum deve ser um desdobramento, uma consequência da Imitatio Christi. Imitamos nos nossos irmãos não a eles mesmos, mas a Cristo neles.

Sabemos que devemos pregar a palavra para que haja conversão. Entretanto, devemos também viver a palavra para que haja conversão. Cristo fez isso (1 Pedro 2:21), dando exemplo sem palavras, assim como os missionários e apóstolos foram exemplo para os crentes de Tessalônica, sendo que esses mesmos, transformados por esse exemplo, foram exemplo para os crentes da Macedônia e da Acaia (texto em epígrafe). Por isso a mulher pode ganhar sem palavra ao seu marido (1 Pedro 3:1). Eis a força da Palavra vivida.


G. Montenegro

4 comentários:

  1. Excelente! =)

    Eu ainda não havia lido algo que abordasse esse tema, pelo menos não que eu lembre.

    Devemos imitar a Cristo e a nossos irmãos, não a eles mesmos, mas a Cristo neles.

    Deus continue te abençoando!

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  2. "Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou."
    (Mateus 10:40)

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  3. A pessoa que aceitou a Cristo como seu Salvador, que tem a vida dirigida pelo Espírito de Deus, não mais é considerada pecadora, a partir daí ela é santa, pelo menos é assim que é chamada por Deus, por meio das Escrituras Sagradas. Em Apocalipse 14:12, encontramos Deus dizendo a respeito da paciência dos santos e Ele também diz, nesse verso, quem são os santos: são os que guardam os mandamento de Deus e têm o testemunho de Jesus. A velha natureza carnal ou pecaminosa, foi crucificada com Cristo e foi sepultada e surgiu, em seu lugar, uma nova natureza, que é a natureza espiritual, portanto, o homem convertido é agora um filho de Deus e como tal passa viver neste mundo fazendo o bem e abominando o mal.

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