28/05/12

Justiça e Misericórdia


A ti também, Senhor, pertence a misericórdia;
pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.
(Salmos 62:12)

Naturalmente associamos "retribuir a cada um segundo a sua obra" como justiça, não misericórdia. Dentre os preceitos do direito romano está o de dar a a cada um o que lhe é devido, suum cuique tribuere. Mas a justiça divina opera diferentemente. A justiça e a misericórdia de Deus são uma só coisa. Deus é sempre misericordiosos quando é justo. Não se pode fazer um corte em Deus ao meio.

A tradição ocidental é de fazer da justiça de Deus um tipo de vigilância constante e irrestrita por defeitos no pecador. Afirma-se que há uma lei de justiça eterna que exige a punição do pecador de modo absoluto, de modo que Deus, sendo justo, não perdoaria livremente os pecados. Entretanto, essa não é a justiça de Deus apresentada nas Escrituras. A justiça de Deus é sempre seu misericordioso resgate dos necessitados. A justiça de Deus é sua salvação. A justiça é o oposto da iniquidade (Eclesiastes 3:16). Isso se observa nos textos abaixo, que apresentam tanto a justiça de Deus quanto a justiça que Deus exige do homem:

Salmos 82:3 - Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado.
Salmos 103:6 - O Senhor faz justiça e juízo a todos os oprimidos.
Salmos 146:7 - O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O Senhor solta os encarcerados.
Provérbios 31:9 - Abre a tua boca; julga retamente; e faze justiça aos pobres e aos necessitados.
Isaías 1:17,23 - Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva.
Jeremias 22:3 - Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.
Daniel 4:27 - Portanto, ó rei, aceita o meu conselho, e põe fim aos teus pecados, praticando a justiça, e às tuas iniqüidades, usando de misericórdia com os pobres, pois, talvez se prolongue a tua tranqüilidade.

Há também diversos outros textos que claramente colocam a justiça de Deus e sua salvação/misericórdia lado a lado:

Salmos 98:2 - O Senhor fez notória a sua salvação, manifestou a sua justiça perante os olhos dos gentios.
Salmos 103:17 - Mas a misericórdia do Senhor é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos;
Salmos 119:123 - Os meus olhos desfaleceram pela tua salvação e pela promessa da tua justiça.
Salnis 145:7 - Proferirão abundantemente a memória da tua grande bondade, e cantarão a tua justiça.
Provérbios 21:21 - O que segue a justiça e a beneficência achará a vida, a justiça e a honra.
Isaías 51:5,8 - Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão. Porque a traça os roerá como a roupa, e o bicho os comerá como a lã; mas a minha justiça durará para sempre, e a minha salvação de geração em geração.
Isaías 56:1 - Assim diz o Senhor: Guardai o juízo, e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça, para se manifestar.
Isaías 58:8 - Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda.
Oséias 2:19 - E desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias.
Oséias 10:12 - Semeai para vós em justiça, ceifai segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós.


A punição é um instrumento da justiça de Deus, não o seu fim. Evidentemente o pecado necessita de uma punição; não punir o pecado é permití-lo, ou seja, permitir toda a maldade humana. Entretanto, a contradição entre justiça (“punir conforme a lei”) e misericórdia (“não punir conforme a lei”) não aparece nas Escrituras, exatamente porque não há essa tal lei que obrigue Deus a punir. Deus pune como e quando quer, e não porque exista um tipo de lei de justiça que determine seus atos. A Bíblia nunca apresenta justiça e misericórdia como contradizentes. Como escreve o profeta: "Assim falou o Senhor dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão." (Zacarias 7:9).

Deus é amor, e esse amor não é dependente dos acontecimentos na criação. O amor de Deus por nós não é causado, por exemplo, pelo sacrifício de Cristo; antes o sacrifício é causado pelo amor (Romanos 5:8; Gálatas 2:20; Efésios 5:2,25; 1 João 4:10). É o amor divino que permite ao salmista cantar:

9 O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras.
14 O Senhor sustenta a todos os que caem, e levanta a todos os abatidos.
17 Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras.
(Salmos 145:9,14,17)

Amor não é contraditório com punição e ira. Todo amor implica necessariamente em um ódio. Quem ama as crianças odeia a pedofilia; quem ama a santidade detesta ao pecado. A recíproca não é necessariamente verdadeira; há ódios sem um amor correspondente. Nesse sentido, a ira de Deus contra o pecador é justa e boa. Diz o profeta: "Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra ele" (Miquéias 7:9). Entretanto, essa ira não deve ser entendida antropopaticamente, como um tipo de irritação divina típica do paganismo.

Não são só flores, entretanto, esse salmo. Ele nos diz que: "todos os ímpios serão destruídos" (v. 20). Entretanto, em um mundo bárbaro, essa é uma boa notícia. Significa o fim do engano e da opressão. Significa que Deus trará ordem ao mundo. Trará justiça ao mundo. Essa é a justiça de Deus. A justiça de Deus não é horrenda, mas bela.

Isso se torna mais evidente quando observamos as expressões hebreias para justiça. Em hebraico, justiça é TSEDEK. As raízes semíticas das palavras são definidas por conjuntos de três consoantes, aos quais são aplicadas vogais conforme a necessidade. Essa raíz, TS-D-K, é herdada também pela palavra TSEDEKAH. Embora por vezes tal palavra seja também traduzida por justiça, na realidade significa mais do que aquilo que estamos acostumados a chamar de justiça, designando atos de caridade e misericórdia para com os necessitados (aqueles já citados acima). TSEDEKAH (ato de misercórdia) é uma expressão da TSEDEK (justiça).

Esse sentido não está restrito ao hebraico do Antigo Testamento, mas é herdado pelo grego neotestamentário. É nesse sentido que o apóstolo Paulo se refere a “vossa justiça” em 2 Coríntios 9:6-10, referindo-se à caridade dos irmãos coríntios para com os cristãos pobres em Jerusalém. Veja-se como cita o Salmo 112:9, que usa originalmente a expressão TSEDEKAH no texto hebreu. Embora usando o grego, o escritor neotestamentário tem consciência do sentido veterotestamentário da justiça: um ato de misericórdia. Esse sentido está também em Mateus 5:20; 6:1i. Deus é justo, e deseja que sua justiça preencha sua criação.

Contra a concepção de que o juízo divino inclui uma perscrutação por todos os pecados militam diversos textos bíblicos, em especial aqueles que falam de um juízo mais ou menos rigoroso, como vemos em Mateus 10:15; 11:22; 23:14; Tiago 3:1. Deus não usa o mesmo rigor para com todos, e é perfeitamente justo que ele não o faça; os misericordiosos alcançarão misericórdia (Mateus 5:7; Lucas 7:47; 1 Pedro 4:8). Plante-se justiça, e se colherá misericórdia (Oséias 10:12), porque tudo que o homem plantar, isso ceifará (Gálatas 6:7). Devemos entender a forma como Deus trata os pecadores pela forma como Jesus os tratou. É o mais cristologicamente coerente.


G. Montenegro


i Esse texto traz “vossas esmolas” no Textus Receptus, mas os melhores manuscritos gregos o apresentam como “vossa justiça”, incluindo não apenas a esmola (que é o que segue no texto), mas também as orações e o jejum.

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