02/05/12

Rudimentos de Eclesiologia - Parte IV


Rudimentos de Eclesiologia – Parte IV

10 Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós.
11 Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina.
12 E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.
(Atos 4:10-12)


A Igreja é necessária à salvação? Conforme se coloque essa pergunta, ela pode ter ao menos três sentidos: (i) Pode-se rejeitar a Igreja e mesmo assim receber a salvação em Cristo? (ii) Todos os que estão fora da Igreja estão condenados? (iii) A Igreja salva?

Note-se que nenhuma dessas perguntas é diretamente respondida pelas Escrituras. A Bíblia não responde, por exemplo, dizendo que a Igreja salva ou que não salva. Mas isso não significa que a questão não possa ser respondida. A Bíblia apresenta os pressupostos que nos permitem sanar suficientemente a questão.

De todo modo, antes de responder a essas perguntas, é preciso estabelecer o princípio de que Cristo é o único caminho da salvação, de modo que não há nem pode haver outro nome pelo qual os crentes devam ser salvos. Esse princípio foi sintetizado na Reforma como Solus Christus. É princípio basilar de toda a soteriologia protestante. Cristo é o caminho da salvação, e nada mais o é.

É preciso também, antes, ter em mente que a distinção entre igreja visível e invisível é uma criação lógica sem qualquer fundamento na Escritura, ainda que fortemente arraigada na consciência evangélica (mormente o evangelicalismo propriamente dito, com sua baixa eclesiologia). A Bíblia faz referência apenas à Igreja (ou às igrejas, o que é o mesmo), e nunca lhe atribui qualquer 'invisibilidade'. De fato, o próprio significado da palavra “Igreja” se desfaz quando ela é tratada como invisível: “Igreja” significa “congregação” ou “reunião”i. A Igreja não é cada pessoa individualmente, mas a reunião delas. Por isso uma Igreja invisível não faz nenhum sentido.

Isso não quer dizer que o conceito de “Igreja invisível” seja de todo rejeitável. Pode-se falar em uma Igreja invisível desde que se compreenda que se trata de uma Igreja futura (a Igreja dos que receberão a salvação final). O problema seria fazer um uso donatista da expressão, ou seja, interpretar as Escrituras a partir dela. Regra primária da exegese é não introduzir na interpretação de um texto nenhum conceito que não seja indicado pelo próprio texto (ou pressuposto pelo escritor/destinatário). Ou seja: deve-se rejeitar a posição segundo a qual a Igreja verdadeira é a Igreja invisível. A Igreja verdadeira é visível. Hoje e no futuro.

Por Igreja visível entende-se aqui a comunhão visível dos cristãos, ou seja, a união de todos os batizados comunicantes, isto é, os que partilham do mesmo pão (1 Coríntios 10:17), em todos os lugares do mundo onde o nome do Senhor é comunitariamente invocado (Mateus 18:20; 1 Coríntios 1:2). Não se restringe a nenhuma denominação em particular, embora, no presente estado, esteja dentro dessas denominações. A palavra Igreja, εκκλησία (reunião), tem como significado dominante a reunião em si, o momento em que os cristãos estão em um mesmo lugar, cultuando “publicamente” (mesmo que secretamente), como em Romanos 16:5; 1 Coríntios 11:18; 14:19,28,35; 16:19; Colossenses 4:15,16; Filemom 2. Por metonímia aplica-se também a essas mesmas pessoas quando não estão reunidas, mas sempre coletivamente. Quando diz-se “A Igreja”, trata-se da totalidade desses grupos.

***

A Escritura nos assevera que a Igreja de Cristo é a Plenitude de Cristo (Efésios 1:22,23). Isso não é uma utopia acerca da Igreja. A Igreja não será a plenitudade de Cristo apenas quando for composta de cristãos perfeitos (visto que nunca o foi, em momento algum da história). Não se trata de uma profecia. A Igreja era a Plenitude de Cristo ainda na época do apóstolo Paulo, com tantos defeitos que tinha. Ela o é ainda hoje, feita de perfeitos e imperfeitos, santos e pecadores.

Isso fica ainda mais evidente quando observamos a identidade que há entre Cristo e a Igreja. Quando o Senhor aparece a Saulo, no momento que inicia sua conversão, Ele questiona: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4,5; 22:7,8; 26:14,15). Ora, sabemos que a perseguição era dirigida à Igreja de Cristo (Atos 8:3; Gálatas 1:13; Filipenses 3:6), perfeitos e imperfeitos. Mas essa distinção era irrelevante: perseguir à Igreja de Cristo significa perseguir ao próprio Cristo. E por que isso, senão por ser a Igreja, em verdade, a plenitude de Cristo? O Corpo de Cristo não é apenas uma metáfora; por baixo do símbolo se revela uma realidade mística, a imanência salvífica de Cristo nos seus redimidos.

Assim, de que forma a Igreja é Cristo? Em sua aparência, a Igreja não é ainda o Cristo da Ressurreição. É o Cristo da Cruz, desprezado, rejeitado, homem de dores, coberto de chagas e feridas, a caminho do Calvário, lugar de sua humilhação. Mas o Crucificado é o mesmo Ressurreto. Seu destino é certo e infalível.

Podemos explorar um pouco mais a metáfora do corpo. Sabemos que o organismo é o arranjo de uma série de órgãos para que as funções relativas à vida se mantenham. Não há organismo no mundo que tenha, ao mesmo tempo, todos os seus órgãos funcionando perfeitamente, isto é, funcionando na máxima capacidade biologicamente possível. Há sempre órgãos imperfeitos, com alguma fraqueza ou deficiência, mas o organismo não pressupõe essa perfeição. O organismo é um grande realista. Eis o milagre: a forma perfeita em que está disposto garante o funcionamento dos imperfeitos órgãos.ii Para que esse sábio arranjo funcione faz-se necessário que essa forma seja mantida, e que cada órgão funcione em seu devido lugar.iii Os seus sistemas dependem de que não seja rompida a ordenação sequencial. Os órgãos não estão todos diretamente ligados. Nem todos os órgãos estão em contato direto com o cérebro, por exemplo, ainda que todos tenham algum contato.

Dessa forma, a distinção entre os perfeitos e os imperfeitos não implica em uma distinção entre uma Igreja Invisível (perfeita) e uma Igreja Visível (imperfeita). Todos nós, que partimos um mesmo pão, somos esse corpo espiritual (1 Coríntios 10:16,17).

A Bíblia certifica que a morte de Jesus é efetiva para a Igreja (Atos 20:28; Efésios 5:23,25). Jesus é o “salvador do corpo”, ou seja, da Igreja, e “se entregou por ela. Por outro lado, a relação entre a Igreja e a salvação no Novo Testamento não é tão simples.

“E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de [ἐκ] toda a tribo, e língua, e povo, e nação;” (Apocalipse 5:9)

Não existe correspondente exato em português para a preposição ἐκ, utilizada no texto grego do referido versículo. A preposição “de” (negritada no versículo acima) é muito geral. Na realidade, ἐκ traduz a ideia de uma saída ou de uma partição, o que é o mesmo. Implica um movimento para fora, cognato do latino ex, e bem mais próximo a “out of” ou “from” em inglês. A palavra “homens” está implícita no texto grego, exatamente porque a preposição supre o seu sentido, de modo a ser impossível dar ao texto o sentido 'arminiano' de expiação geral (embora não implique necessariamente na expiação limitada do calvinismo ortodoxo). O significado do texto é de que pelo sangue de Jesus um número de pessoas de toda tribo, língua, povo e nação foi comprado (isto é, uma parte do número de cada tribo, língua, povo e nação).

Ora, se somarmos a isso o fato de que a Igreja não chegou a todas as tribos, línguas, povos e nações (mesmo porque muitos povos e línguas foram extintos antes de serem alcançados pela Igreja), e se interpretarmos Apocalipse 5:9 literalmente (ou seja, se não se trata de uma hipérbole), segue-se por inescapável lógica que dentre o número dos comprados pelo sangue de Jesus Cristo há pessoas fora dos muros da Igreja.

Dessa forma, não podemos dizer que todos os que estão fora dos limites visíveis da Igreja estão condenados. Mas podemos, sim, paradoxalmente dizer que o corpo de Cristo é a Igreja visível, os que juntamente partem o pão. Por isso se faz necessário subdividir a questão “A Igreja é necessária à salvação?”. Não há uma solução simples, “sim” ou “não”; a resposta varia conforme a questão seja colocada. Quem rejeita a Igreja rejeita a plenitude de Cristo. Mas Cristo morreu também por pessoas que estão fora da comunhão visível.

Assim, juntamente com a Confissão de Fé de Westminster, afirmo que fora da “Igreja visível” não há possibilidade ordinária de salvaçãoiv. Isso não implica em impossibilidade absoluta. Um exemplo disso seria o ladrão arrependido ao lado de Jesus na crucificação (Lucas 23:39-43). Não há evidência de um batismo; não participou da vida da Igreja. Nenhum sacramento. Apenas fé, e Deus o salvou assim. Entretanto, trata-se de um caso extraordinário, uma situação anômala (no sentido etimológico), não uma regra de como acontece a salvação. Deus estabelece regras no caminho da salvação, mas ele mesmo não está sujeito a nenhuma dessas regras.

De um lado uma interpretação rasteira da Sola Scriptura (ligada ao individualismo característico da modernidade pós-iluminista), e de outro lado um espiritualidade também individualista (anti-litúrgica, anti-comunal, 'centrípeta') retiraram a Escritura do seu lugar natural, a Igreja. A Igreja é o locus da Escritura. É o lugar por onde emana a Palavra de Deus. Todos os textos do Novo Testamento foram escritos tendo como destinatário a Igreja enquanto comunidade real. Mesmo as epístolas endereçadas a indivíduos (Timóteo, Tito e Filemom) tem por finalidade suprir as necessidades não destes, mas da Igreja; não é a toa que se chamam 'Epístolas Pastorais'. Por isso o livro do Apocalipse inicia com esta bem-aventurança: “Bem-aventurado aquele que lê [sing.], e os que ouvem [plu.] as palavras desta profecia...” (Apocalipse 1:5). O escritor pressupõe que o lugar do leitor é o culto público.

Não apenas a Palavra de Deus tem seu lugar no culto público. Também dois elementos essenciais estão atrelados à vida do Corpo de Cristo: a administração da disciplina (Mateus 18:15-17; 1 Coríntios 5; etc) e a administração dos sacramentos, nomeadamente o Batismo e a Comunhão. Quanto à disciplina, nos diz o Senhor Jesus que aquele que obstinadamente “não escutar a Igreja” deve ser considerado “como um gentio e publicano” (Mateus 18:17). Por sua vez, o batismo nos liga salvificamente à morte e ressurreição de Cristo (Romanos 6:4-7; cf. 1 Pedro 3:21), enquanto a Comunhão faz com que sejamos o seu corpo (1 Coríntios 10:16,17), ambos como parte da vida da Igreja em Cristo. Ademais, edificação da Igreja depende dos diversos ministérios atribuídos pelo Espírito Santo (Efésios 4:10-16), entre os quais o pastoral, de modo que, indubitavelmente, negar a Igreja é rejeitar os dons irrevogáveis de Deus. Esse aspecto da Igreja deve abordado em texto posterior.

O evangelicalismo contemporâneo, como ramo do protestantismo, é caracterizado por uma “baixa eclesiologia” (low ecclesiology), ou seja, uma visão da Igreja em que seu papel na salvação é restrito à proclamação do Evangelho. Por vezes essa eclesiologia é tão baixa que chega-se ao ponto de afirmar que “a Igreja é simplesmente uma coisa humana”. Quão diferente é a imagem da Igreja no Novo Testamento, uma Igreja projetada pelo próprio Deus, uma Igreja que é a manifestação presente do futuro Reino de Deus!

Embora em geral apliquemos a expressão “regeneração” apenas à salvação individualmente considerada, tal expressão se refere a toda a obra de Deus em toda a criação (Mateus 19:28; cf. Tito 3:5), não se restringindo ao homem. O plano salvífico de Deus para toda a Criação é a união de todas as coisas em Cristo, o Cabeça (Colossenses 1:20). A Igreja abarca, profeticamente, a nova criação, por isso a manutenção da metáfora (“cabeça” como parte do “corpo”). Nesse sentido, a Igreja é o início da Nova Criação.

No século XIX eram os teólogos liberais que asseveravam a desnecessidade da Igreja, seu caráter meramente humano, em oposição à forma como o tema fora tratado pelos reformadores (e por todo o cristianismo que os antecedeu). Hoje são os evangélicos comuns. Mas esses teólogos liberais precisavam mutilar a Escritura, porque não podiam acreditar no que ela lhes dizia sobre a Igreja. Os evangélicos atuais simplesmente ignoram o que a Escritura dizv. Os reformadores, em especial Lutero e Calvino, eram incisivos em afirmar que a salvação se limitava à Igrejavi, em uma forma muito mais enfática do que esta aqui exposta. Não viam isso como uma negação de Cristo como o único caminho, antes uma perfeita confirmação, posto que levavam a sério o caráter da Igreja como real Corpo de Cristo.

Então podemos dizer que a Igreja salva? É evidente que ser parte da Igreja não garante a salvação. Mas simplesmente professar o nome de Cristo também não. Aqueles que vivem segundo as obras da carne serão condenados (Romanos 8:13; Gálatas 6:8), e não interessa que nome estão professando.

É evidente, conforme já exposto através de Apocalipse 5:9, que a salvação não está absolutamente restrita à Igreja. Um filho que foge, abandonando sua família (seja pelo motivo que for, como não concordar com a forma que o pai age, ou por não concordar com o comportamento de seu irmão), não deixa ipso facto de pertencer àquela descendência. Ele ainda é parte, ainda que em um sentido mais frágil. Mas ele deixa de participar das riquezas daquele lar. Deixa de participar de suas alegrias e de compartilhar de suas dores.

Podemos dizer que a Igreja não salva, senão em sentido figurado, como em Romanos 11:14; 1 Coríntios 9:22; Judas 23, de modo que a ação da Igreja nada mais é que uma delegação da autoridade que pertence unicamente ao Senhor, que é o real autor de todo bem feito pela Igreja (Filipenses 2:13).



G. Montenegro





i Não, Igreja não significa “os que foram tirados para fora”, como por vezes se afirma. Trata-se de uma confusão entre a formação etimológica da palavra e seu significado.
ii Sim, por vezes essa imperfeição exige uma interveção direta, mesmo cirúrgica, para que o organismo continue vivo, mas em geral o organismo é capaz de tolerar as imperfeições. Sabemos quem é o médico, não sabemos?
iii Mesmo no caso das modernas substituições protéticas, a função ora desempenhada terá que ser suprida de alguma forma.
iv É evidente que toda salvação, em certo sentido, é extraordinária, na medida em que rompe a ligação do homem com o caminho da perdição, que é o caminho ordinário do homem. Evidentemente não é esse o sentido da “possibilidade ordinária”.
v GLODO, Michael J. SOLA ECCLESIA: The Lost Reformation Doctrine. In: <http://www.the-highway.com/articleApr06.html>
vi “Now the Church is not wood and stone, but the company of believing people; one must hold to them, and see how they believe, live and teach; they surely have Christ in their midst. For outside of the Christian church there is no truth, no Christ, no salvation.” (Lutero, Sermon for the Early Christmas Service; Luke 2:15-20, In: <http://www.orlutheran.com/mlselk22.html >)
“ Moreover, beyond the pale of the Church no forgiveness of sins, no salvation, can be hoped for (...)” (Calvino, Institutes of Christian Religion. Book IV, Chapter 1, Section IV. In: )

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