31/05/12

Por Nossos Pecados: A Substituição Penal



8 Misericordioso e piedoso é o Senhor; longânimo e grande em benignidade.
9 Não reprovará perpetuamente, nem para sempre reterá a sua ira.
10 Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniqüidades.
11 Pois assim como o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem.
Salmos 103:8-11

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
(João 1:29)

Chama-se Substituição Penal ou Expiação Substitutiva Penal a doutrina exclusivamente protestante, fortemente ligada à tradição reformada (i.e., calvinista), segundo a qual Jesus Cristo teria morrido na Cruz para sofrer a pena pelos pecados dos homens, os substituindo como réu da justiça penal divina, de modo que eles saem livres. É uma das diversas interpretações, teorias ou temas que visam dar sentido à expiação, que todos os cristãos crêem ser essencial para a salvação. Embora não seja a única teoria da expiação, é a visão dominante acerca da expiação, tão dominante que mesmo os arminianos (que originalmente tinham outra teoria, a Teoria Governalmental, que não será aqui abordada) a utilizam, não só em suas exposições teológicas, mas também (e principalmente) na sua evangelização.

O propósito do presente artigo é apresentar críticas bíblicas a essa teoria. É necessário que se note que há outros tipos de críticas, de natureza ética, feitas à teoria da Substituição Penal; alega-se que a teoria seria imoral ou injusta. As críticas aqui apresentadas, no entanto, são estritamente bíblicas, porque a tradição reformada, que originou e formulou essa teoria, ancora-se no princípio protestante Sola Scriptura.

Desde já esclareço que nada disso significa negar a necessidade, absoluta supremacia e perfeito mérito da obra de Cristo na Cruz, sofrimentos sem os quais não há salvação.


I. O que é a substituição penal?

A Substituição Penal pode ser reduzida às seguintes proposições:

1. O pecado viola a Justiça de Deus.
2. Se violada, a Justiça de Deus deve ser satisfeita.
3. A Justiça de Deus é satisfeita quando o pecador é punido.
4. A punição justa pelo pecado é a morte.
5. Todos pecaram.
6. Portanto, a Justiça de Deus exige a punição de todos.
7. Deus deseja perdoar ao pecador [eleito].
8. A culpa perante a Justiça de Deus impossibilita o perdão dos pecados.
9. Portanto, para que Deus perdoe ao pecador, a culpa deve ser removida.
10. Portanto, Deus só pode perdoar se punir.
11. É contraditório declarar justa e ao mesmo tempo declarar culpada (infligindo a pena) à mesma pessoa.
12. Portanto, para perdoar o pecador, Deus deve punir alguém em seu lugar, em substituição.
13. O Filho de Deus assumiu esse lugar, sofrendo a pena devida pelo pecador.
14. Portanto, agora Deus pode justamente perdoar o pecador.

Essas proposições foram geradas a partir de reflexão e ajuda de membros do fórum monergismo.com, eles mesmos defensores dessa doutrina. A expressão em vermelho, eleito, diz respeito à forma que seria adotada entre os calvinistas, visto crerem na Expiação Limitada. Os não calvinistas poderiam simplesmente remover essa parte.

Dividi o todo das proposições em três conjuntos: (a) a Justiça Divina; (b) a Misericórdia Divina; (c) a Obra de Cristo. Como a parte “b” diz respeito apenas à aplicação da misericórdia divina diante da justiça divina, suas conclusões são apenas decorrência do que lhe antecede. O presente texto, portanto, tratará da relação entre a justiça e a misericórdia divina, de um lado, e de outro lado da obra de Cristo.


II. Justiça e Misericórdia

No texto anterior (clique aqui) o tema da Justiça e Misericórdia já foi tratado. A tese apresentada é de que a justiça e a misericórdia de Deus são uma só e mesma coisa. Em outras palavras: quando é justo, Deus está sendo misericordioso, e quando misericordioso, Deus é justo. Nunca ocorre, nas Escrituras, a oposição entre justiça e misericórdia (isto é, a ideia de que em um momento Deus é justo, e em outro misericordioso).

A ideia de justiça retributiva absoluta não é bíblica. Isso não significa que Deus não dê a acada um segundo as suas obras; mas, pelo contrário, o fato de que Deus recompense as boas obras já é em si mesmo uma demonstração de sua misericórdia, ao passo que também é misericórdia não tratar a todos os homens com o mesmo rigor de juízo condenatório (Mateus 10:15; 11:22; 23:14; Tiago 3:1); é justo fazê-lo? Sim. É misericordioso? Sim!

Isso se observa pela seguinte suposta contradição: se ser justo é punir conforme a lei, e se ser misericordioso é não punir conforme a lei, então Deus não poderia ser justo e misericordioso. Isso falha diante da realidade de que o critério divino é, em si mesmo, misericordioso. Não há, na justiça divina, nenhuma fria lei, antes uma expressão de rica e viva bondade. Sobre isso já foi dito no texto anterior.

Não se pode negar que Deus puna ao pecador, e que essa punição é necessária e justa. Mas não há nada que impeça a Deus de perdoar, não punindo ninguém em seu lugar, e ainda assim permanecer justo, já que ele é o dono da casa, o que dita as regras do jogo.

Fato é que nunca a Escritura declara que Deus não possa perdoar sem punir. Ora, se ela não o faz, não cabe à mortal criatura especular como deve ser a justiça de Deus, aquilo que ela pode e não pode tolerar.

Há, na realidade, exemplos em contrário: 2 Crônicas 7:14; Provérbios 16:6; 28:13; Isaías 6:1-7; 55:7; Jeremias 5:1; Oseias 6:6; Mateus 9:2 (cf. Mateus 6:14,15). O exemplo de Isaías é o mais claro e concreto dentre os citados. Naturalmente o perdão exige arrependimento e confissão genuínos, mas a Escritura não exige absolutamente a punição. Sua justiça abarca e permite a misericórdia; por isso mesmo, exigindo que sejamos justos, exige consequentemente que sejamos misericordiosos: "Assim falou o Senhor dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão." (Zacarias 7:9). Ser justo, na concepção bíblica, não significa olhar meticulosamente para um conjunto de regras e punições, mas fazer com que reine, de fato, a justiça, ou seja, fazer com que as coisas ocorram como devem ocorrer, e isso inclui ser misericordiosos quando se deve ser misericordioso.

Isso não significa que um juíz possa arbitrariamente deixar de punir um claro e obstinado criminoso. Mas a comparação entre um juiz humano e o Juiz divino é falha. Estamos diante de um juiz que, por sua misericórdia, “não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades” (Salmos 103:10). Foi Deus injusto por não tratar segundo as iniquidades? Evidentemente não.

Hebreus 9:22 não prova o contrário do aqui defendido. Esse texto deve ser interpretado em linha com a concepção veterotestamentária de Propiciação, que será esboçada adiante. Tenha-se em mente que o texto não diz que não há perdão de pecados sem punição, mas sem sangue. Embora o defensor da Substituição Penal certamente alegará que não há aqui diferença, essa necessária distinção é explicada logo adiante.

Sempre que se interpreta um suposto texto em defesa da Substituição Penal é necessário que se tenha em mente o seguinte FATO: o texto em questão (qualquer que seja) nunca diz que Deus PUNIU a Jesus para que pudesse PERDOAR ao pecador por sua JUSTIÇA o exigir a PUNIÇÃO. Diversos textos, como Isaías 53 (que será tratado logo adiante), são incorretamente interpretados pelos defensores da Substituição Penal exatamente porque observam no texto apenas parte da teoria, e impõem ao texto a outra parte, que é precisamente essa acerca do perdão vinculado à punição.


III. Propiciação

Antes de adentrarmos na obra de Cristo, se faz necessário compreender os conceitos bíblicos de expiação, propiciação e resgate. Isso se dá porque a obra de Cristo é abundantemente testemunhada no Novo Testamento como diretamente relacionada aos sacrifícios do Antigo Testamento. Este superior e perfeito sacrifício deve ser entendido à luz do que nos dizem os sacrifícios transitórios da Lei Mosaica, relação esta observada na Carta aos Hebreus. Como se verá, os conceitos de Propiciação e Substituição Penal são incompatíveis.

A raiz responsável, na língua hebreia, pelo conceito de “expiação” é K-F-R ou K-P-R (כפר). Expiar é KAFAR, que significa “cobrir”. É um verbo massivamente usado com uma conotação cúltica. Entretanto, aparece também em outras relações:

E direis também: Eis que o teu servo Jacó vem atrás de nós. Porque dizia: Eu o aplacarei [kafar] com o presente, que vai adiante de mim, e depois verei a sua face; porventura ele me aceitará.”
(Gênesis 32:20)

30 “E aconteceu que no dia seguinte Moisés disse ao povo: Vós cometestes grande pecado. Agora, porém, subirei ao Senhor; porventura farei propiciação [kafar] por vosso pecado.
31 Assim tornou-se Moisés ao Senhor, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro.
32 Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.
33 Então disse o Senhor a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro.
34 Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado.
35 Assim feriu o Senhor o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado.”
(Êxodo 32:30-35)

Jubilai, ó nações, o seu povo, porque ele vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários retribuirá a vingança, e terá misericórdia [kafar] da sua terra e do seu povo.”
(Deuteronômio 32:43)

Disse, pois, Davi aos gibeonitas: Que quereis que eu vos faça? E que satisfação [kafar] vos darei, para que abençoeis a herança do Senhor?”
(2 Samuel 21:3)

O furor do rei é mensageiro da morte, mas o homem sábio o apaziguará [kafar]
(Provérbios 16:14)

Todos esses usos esclarecem o significado da palavra KAFAR, o qual traz em si a ideia de “aplacar”, “apaziguar” ou “tornar propício”. É a evocação da misericórdia. Muito propriamente, em alguns exemplos é oferecido algo tendo em vista esse aplacar, um presente. Dentre os exemplos, o mais interessante certamente é o de Moisés, que tenta, como propiciação/expiação, simplesmente uma oração intercessória (como ocorre também em 2 Crônicas 30:18, que usa esse mesmo verbo KAFAR). Comparar com Salmos 106:23. Também é instrutivo o exemplo de Números 16, que traz claramente a ira de Deus sendo aplacada por uma intercessão expiatória/propiciatória.

O mais interessante é que o exemplo acima citado, de perdão sem punição, em Provérbios 16:6, utiliza também o verbo KAFAR (expiar)! O texto diz que misericórdia e verdade fazem expiação.

Assim, no contexto divino, fazer propiciação ou fazer expiação é buscar a reconciliação de Deus com o homem, tendo em vista as transgressões à Lei. Em uma linguagem humana, diríamos que é “aplacar a ira divina”, suplicar sua graça e misericórdia. Não há distinção entre “propiciação” e “expiação” no Antigo Testamento. O texto inicial do livro de Levíticos é a descrição de um sacrifício expiatório/propiciatório:

1 “E chamou o Senhor a Moisés, e falou com ele da tenda da congregação, dizendo:
2 Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao Senhor, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha.
3 Se a sua oferta for holocausto de gado, oferecerá macho sem defeito; à porta da tenda da congregação a oferecerá, de sua própria vontade, perante o Senhor.
4 E porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação [kafar].
5 Depois degolará o bezerro perante o Senhor; e os filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue, e espargirão o sangue em redor sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação.
6 Então esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços.
7 E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar, pondo em ordem a lenha sobre o fogo.
8 Também os filhos de Arão, os sacerdotes, porão em ordem os pedaços, a cabeça e o redenho sobre a lenha que está no fogo em cima do altar;
9 Porém a sua fressura e as suas pernas lavar-se-ão com água; e o sacerdote tudo isso queimará sobre o altar; holocausto é, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor.”
(Levítico 1:1-9)

Dois pontos importantes a se notar no texto:
1) nada nele tem linguagem penal;
2) a oferta pela expiação é o sangue em si (cf. Levítico 17:11).

Nada no Antigo Testamento traz a ideia de que os sacrifícios da Lei são uma punição, isto é, de que o animal sacrificado está sendo punido pelo pecado. Está sendo oferecido, não punido. Observe-se a relação analógica que se observa entre esse texto e Gênesis 32:20 e 2 Samuel 21:3, acima citados.

Uma lenda ronda entre os defensores da Substituição Penal de que a “imposição de mãos” feita no momento do sacrifício (v. 4, acima) indicaria uma transferência, de modo que o animal se tornaria culpado pelos pecados. Lugar nenhum das Escrituras traz essa ideia, tratando-se de mera especulação eisegética. A única porção das Escrituras que fala sobre um animal carregando os pecados do povo (Levítico 16:20-22) não fala coisa alguma acerca da morte ou sangue do animal, nem diz que ele tem efeito expiatório; a expiação, na realidade, se dá antes disso. Esse animal não faz expiação. Não há um versículo sequer na Bíblia que remotamente associe o animal a uma condenação ou punição.

Um aparte: Por vezes se declara que “propiciação” é um conceito pagão. É, certamente, um conceito antropopático, em que a ira de Deus estaria, aparentemente, sujeita aos acontecimentos da criação. Mas alegar que seria um conceito pagão não é exato. O fato de que esse conceito se encontre entre os povos pagãos não anula a realidade de que ele aparece na Bíblia. Podemos dizer que nela ele aparece analogicamente, da mesma forma que a queda dos anjos e sua prisão em cadeias de escuridão é descrita em 2 Pedro 2:4 através do verbo “ταρταρόω” (TARTAROW), que corresponde ao Tártaro da mitologia grega, em que estariam presos os titãs. O fato de ter o escritor bíblico usado uma expressão de origem pagã não significa que estava copiando o paganismo; significa apenas que o usava como analogia ou metáfora.

A palavra hebraica para “resgate” é KOFER, que deriva da raiz KAFAR. Ambas aparecem conectadas nos textos:

11 Falou mais o Senhor a Moisés dizendo:
12 Quando fizeres a contagem dos filhos de Israel, conforme a sua soma, cada um deles dará ao Senhor o resgate [kofer] da sua alma, quando os contares; para que não haja entre eles praga alguma, quando os contares.
13 Todo aquele que passar pelo arrolamento dará isto: a metade de um siclo, segundo o siclo do santuário (este siclo é de vinte geras); a metade de um siclo é a oferta ao Senhor.
14 Qualquer que passar pelo arrolamento, de vinte anos para cima, dará a oferta alçada ao Senhor.
15 O rico não dará mais, e o pobre não dará menos da metade do siclo, quando derem a oferta alçada ao Senhor, para fazer expiação [kafar] por vossas almas.
16 E tomarás o dinheiro das expiações dos filhos de Israel, e o darás ao serviço da tenda da congregação; e será para memória aos filhos de Israel diante do Senhor, para fazer expiação [kipur] por vossas almas.
(Êxodo 30:11-16)

31 E não recebereis resgate [kofer] pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá.
32 Também não tomareis resgate [kofer] por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote.
33 Assim não profanareis a terra em que estais; porque o sangue faz profanar a terra; e nenhuma expiação [kafar] se fará pela terra por causa do sangue que nela se derramar, senão com o sangue daquele que o derramou.
(Números 35:31-33)

Como claramente se lê, “resgate” é aquilo que é entregue a Deus para que seja feita a “propiciação”. Assim, no caso dos sacrifícios animais, o resgate é o próprio sangue, isto é, a vida do animal. O texto de Números acima é bastante instrutivo, porque ele nega completamente a concepção de uma expiação substitutiva: quem faz expiação é o próprio pecador (homicida), com sua vida! Por sua vez, há expiação bíblica por pecados não cometidos (Deuteronômio 21:1-8), o que simplesmente não se encaixa na Substituição Penal.

Da mesma raíz deriva KAPORET (כפרת), “propiciatório”, que era a cobertura da Arca (daí a raiz, “cobrir”), em que era feito, no YOM KIPUR (esta última palavra também da raíz K-F-R), a expiação por todo o povo de Israel.

Os tradutores da Septuaginta verteram da seguinte forma:
1) KAFAR (propiciar/expiar) como ἐξιλάσκομαι (ἐξ + ιλάσκομαι).
2) KOFER (resgate) como λύτρα.
3) KIPUR (propiciação/expiação) como ἐξιλασμός (ἐξ + ιλασμός).
4) KAPORET (propiciatório/expiatório) como ἱλαστήριον.

A palavra ἱλασμός aparece na Septuaginta como “perdão” (em Salmo 130:4/129:4; Daniel 9:9), donde deriva ἐξιλασμός, “propiciação” ou “expiação”, o ato em que se procura o perdão. Daí derivam também ἱλαστήριον e ἐξιλάσκομαι.

Essas expressões gregas aparecem no Novo Testamento aplicadas a Jesus.

Ao qual Deus propôs para propiciação (ἱλαστήριον) pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;”
(Romanos 3:25)

E ele é a propiciação (ἱλασμός) pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.”
(1 João 2:2)

Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação (ἱλασμός) pelos nossos pecados."
(1 João 4:10)

Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar (ἱλάσκομαι) os pecados do povo.”
(Hebreus 2:17)

Entretanto, seu sentido veterotestamentário não foi perdido. O ato continua sendo efetuado tendo em vista, em linguagem humana, tornar Deus propício.

O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia (ἱλάσκομαι) de mim, pecador!
(Lucas 18:13)

Tendo-se em conta o verbo grego, claramente trata-se de uma oração propiciatória, no mesmo sentido daquelas veterotestamentárias. Ademais, muitos textos neotestamentários falam também do resgate (λύτρον, ἀντίλυτρον), correspondente próximo ao KOFER da Lei (Mateus 20:28; Marcos 10:45; 1 Pedro 1:18,19; 1 Timóteo 2:6).


IV. A Obra de Cristo

Sobre a obra de Cristo, os seguintes fatos. Se a Bíblia não declara nenhuma dessas coisas, sabemos que estamos diante de uma interpretação, e não de uma doutrina bíblica.

1. A Bíblia não declara que a ira de Deus caiu sobre Jesus.

Declara que não cairá sobre os crentes (Romanos 5:9; 1 Tessalonicenses 1:10; 5:9; cf. João 3:36; Efésios 2:3).

A Substituição Penal ensina que a ira de Deus é derramada sobre Cristo, no lugar do pecador. A Propiciação, acima descrita, implica em que a ira de Deus não é derramada. O propósito da expiação é tornar Deus propício, de modo que ele não derrame seu furor. O sangue é o resgate, KOFER, não a punição.

Um possível argumento seria o seguinte:
* Beber o cálice de Deus é sofrer a ira de Deus (Isaías 51:17,22; Apocalipse 14:10; 16:19).
* Cristo bebeu o cálice de Deus (Mateus 26:39,42; Marcos 14:36; Lucas 22:17,20; João 18:11).
* Portanto, Cristo sofreu a ira de Deus.

Entretanto, essa interpretação falha diante das palavras do próprio Senhor:

21 E ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino.
22 Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos.
23 E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado.
(Mateus 20:21-23)

Este cálice, referente aos sofrimentos de Jesus, é o mesmo cálice bebido pelos apóstolos. Portanto, não pode se referir à ira de Deus, a qual, segundo a teoria da Substituição Penal, seria sofrida apenas por Jesus para não ser sofrida pelos discípulos.


2. A Bíblia não declara que o pecado dos crentes foi imputado a Jesus.

Declara que não foi imputado aos crentes (2 Co 5:19).

O argumento dos defensores da Substituição Penal é analógico: como o pecado de Adão foi imputado a todos os homens, o pecado deles é imputado a Cristo (o Novo Adão). Entretanto, é biblicalmente falso dizer que o pecado de Adão foi imputado a todos os homens. O pecado de Adão foi imputado unicamente a ele mesmo, como diz o profeta: não “o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho” (Ezequiel 18:20). As consequências do pecado de Adão foram e são sofridas pelos seus descendentes, mas isso não é o mesmo que dizer que o pecado foi penalmente imputado.

O texto bíblico que trata desse tema é Romanos 5:12-21.

Para interpretar corretamente esse texto bíblico, é necessário que se observe uma distinção entre duas expressões: O PECADO (ἡ ἁμαρτία), TRANSGRESSÃO (παράβασις) e OFENSA (παράπτωμα). Ao longo de toda a Bíblia, essas palavras seguem como sinônimas, mas elas tem significados distintos nas epístolas paulinas.

A expressão “o pecado”, ἡ ἁμαρτία, nas epístolas paulinas, designa uma força que está em todos os homens, e que os impulsiona a pecar (Romanos 6:12; 7:7,8,17), que os escraviza (Romanos 6:14-22) e que usava do mandamento para produzir a morte (Romanos 7:13; 1 Coríntios 15:56). Não designa a violação da lei, ao contrário do que claramente ocorre em outras partes da Escritura. Paulo usa uma linguagem distinta: diferencia entre essas palavras, os outros escritores bíblicos não. Em Paulo, “o pecado” e “a carne” são muitos semelhantes em seu significado.

Por sua vez, “transgressão”, παράβασις. Designa o desvio de um preceito divino, uma queda. Designa especificamente a quebra da Lei de Deus (Romanos 2:23) e a queda de Adão (Romanos 5:14; 1 Timóteo 2:14), e só existe quando existe uma lei (Romanos 4:15). Por fim, “ofensa”, παράπτωμα, designa o ato em si de violar um mandamento. Nesse sentido, é cada ato de violação. Παράβασις e παράπτωμα estão em íntima relação, podendo-se dizer que são sinônimas no texto aqui tratado.

A relação entre essas coisas é a de que O PECADO (força), que foi trazido ao mundo através da TRANGRESSÃO (queda) de Adão, é nos homens a inclinação para a OFENSA (violação) da Lei de Deus. São coisas distintas, mas de íntima relação de dependência. Entretanto, o pecado existe sem essa ofensa, e não é ela. Só assim se pode entender Romanos 5:12-21:

12 Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo,e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.
Esse texto apenas explicita o já exposto: o pecado (força) entrou no mundo através de um só homem, Adão. Através do pecado, entrou a morte.

13 Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.
14 No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.
A transgressão (violação) de Adão trouxe ao mundo o pecado (força). Essa força foi transmitida a todos os homens, mesmo não tendo eles cometido a mesma transgerssão que Adão. Entre Moisés e Adão não havia a Lei, e, portanto, não havia a transgressão da Lei. E, se não havia Lei, o pecado não era conhecido, visto que ele só se torna conhecido quando o homem se relaciona com a lei (cf. Romanos 7:7,8). Ainda assim, a morte reinou, porque ela existe devido ao pecado (força) em si, que é herdado, e não está limitada à transgressão (violação).

15 Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.
Pela ofensa de um só (Adão), a morte reinou sobre todos os homens. A graça de Deus, que veio por um só (Jesus), é sua devida oposição.

16 E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação.
17 Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.
18 Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.
Esse ponto necessita de devido cuidado. É nessa declaração de que, pela ofensa de um só, vários recebem a condenação, que os defensores da Substituição Penal acreditam observar uma “imputação do pecado de Adão”. Entretanto, a condenação e o juízo estão sobre Adão; seus descendentes recebem os efeitos da condenação (morte) de Adão, não a imputação de seu pecado. Trata-se de uma sentença declarativa. Assim como “o dom gratuito” (v. 16) corresponde a “reinar em vida” (v. 17), a “condenação” (v. 16) corresponde a “a morte reinar”.

19 Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.
20 Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça;
21 Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.
Idem. De que modo a desobediência de um só homem faz dos outros pecadores? Pelo já exposto: o pecado produz a concupiscência (Romanos 7:7,8) e inclina para longe da vontade de Deus (Romanos 7:20-25). A desobediência de Adão trouxe ao mundo o pecado, e o pecado torna a todos os homens pecadores. O texto não traz a ideia de que “os pecados” (as ofensas) são imputados a Cristo (nem de que são imputados de Adão à humanidade), mas sim a ideia de que sua obediência até a Cruz corrige a desordem trazida pela desobediência de Adão. A graça supera o pecado. A Cruz vence a Carne.

Ao contrário do que querem os defensores da Substituição Penal, os homens ainda receberão a retribuição pelos seus pecados, se viverem segundo a carne (Romanos 6:ss; 8:13; Gálatas 5:19-23; 6:8): “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal.” (2 Coríntios 5:10). Nesse sentido, o propósito da morte de Cristo seria de fazer com que os homens estejam sujeitos à Lei do Espírito de Vida (Romanos 8:2), não fazer com que a punição da lei não venha sobre eles. Cristo tira o homem de debaixo do poder do pecado e o coloca debaixo do poder da justiça (Romanos 6:14-23). Por isso para eles não há condenação, porque a graça de Deus opera neles, em Cristo, a vontade do Senhor. Estão unidos a ele (Romanos 6:3-9), sobre os quais a morte não tem mais domínio. Assim o homem pode, finalmente, servir a Deus.


3. A Bíblia não declara que Jesus foi punido/condenado pelos pecados dos crentes.

Declara que os crentes não serão condenados (Romanos 8:1).

Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne;”
(Romanos 8:3)

Esse é o texto bíblico que chega mais próximo de afirmar que Jesus foi condenado pelos pecadores. Mas não o faz! Na realidade, quem foi condenado foi o próprio pecado, não Jesus. Evidentemente Jesus teve que morrer (e ressuscitar, vencendo o poder da morte) para que o pecado fosse condenado, mas isso não é o mesmo que dizer que Jesus foi condenado pelos pecados dos homens. A morte de Jesus destrói ao pecado, a força que opera sobre os homens para a morte.


4. A Bíblia não declara que Jesus morreu em vez dos pecadores.

Declara que todos os pecadores morrem com Cristo na Cruz (Romanos 6:3-9; 2 Coríntios 5:14).

Que textos bíblicos seriam usados para defender que Cristo haveria sofrido uma pena no lugar do pecador, devida pelo pecado? O mais forte deles, evidentemente, é Isaías 53 (citado em 1 Pedro 2:24):

3 Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
4 Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
5 Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo [mukar] que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.
6 Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.
7 Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.
8 Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido.
9 E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca.
10 Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação [kafar] do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão.
(Isaías 53:3-10)

Para interpretarmos o texto em questão, faz-se necessário observar um uso muito especial:

16 E, chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele com a sua palavra expulsou deles os espíritos, e curou todos os que estavam enfermos;
17 Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças.
(Mateus 8:16,17)

O evangelista cita claramente Isaías 53:4. O texto diz que Jesus levou as enfermidades sobre si. Mas de que modo Mateus aplica o texto? Afirmando que Jesus ficou doente em vez dos doentes? Evidentemente que não. Jesus simplesmente curou os enfermos. É exatamente o fato de se forçar uma linguagem substitutiva no texto que produz heresias como a “Confissão Positiva”, segundo a qual os crentes não podem sofrer doenças, porque Cristo as haveria levado sobre si.

Aqui o defensor da Substituição Penal simplesmente se esquece que não defende simplesmente que “Cristo sofreu e morreu pelos pecados do pecador”, mas defende que “Cristo sofreu e morreu pelos pecados do pecador porque Deus não poderia perdoar ao pecador sem uma punição. Que parte do texto nos diz que Jesus carregou todos esses pecados para que Deus pudesse perdoar o pecador, porque a justiça de Deus exigiria punição para que haja perdão? Nenhuma! Parte alguma fala sobre “justiça”, “punição” ou mesmo “perdão” (que são os itens expressamente declarados pela Substituição Penal). A parte que chega mais perto disso se refere a expiação (KAFAR), mas acima já foi explicado que o conceito de expiação veterotestamentário é incompatível com a Substituição Penal. Assim sendo, esse texto deve ser interpretado em linha com a propiciação bíblica.

A palavra “castigo”, no texto, pode dar uma impressão de “punição”, porque, em geral, estamos acostumados a ver o castigo como uma punição por uma violação. Entretanto, a expressão hebreia MUKAR (מוסר), traduzida como “castigo”, significa na realidade “correção”, “disciplina”, não punição. É traduzida na Septuaginta como παιδεία, PAIDEIA (educação, disciplina). Deriva de YAKAR (יסר) , instruir, disciplinar.

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Por vezes se alega, também, que a preposição ANTI (ἀντί) significaria “em vez de” em Mateus 20:28; Marcos 10:45, de modo que a ideia do sacrifício de Cristo seria a de uma substituição, isto é, Cristo pagaria a recompensa em vez de muitos, ou no lugar de muitos. Embora haja, de fato, muitos exemplos nas Escrituras em que essa preoposição significa exatamente isso (Mateus 2:22; Lucas 11:11; 1 Coríntios 11:15; Tiago 4:5), em outros, apresenta não a ideia de substituição, mas de retribuição (Mateus 5:38; Romanos 12:17; 1 Tessalonicenses 5:15; 1 Pedro 3:9) e, o que é o mesmo, pagamento (Mateus 17:27), além de 'continuação' (João 1:16) e causa (Efésios 5:31). A preposição nos textos citados referentes à recompensa devem ser entendidos como um pagamentom como em Mateus 17:27.

Ademais, mesmo que a preposição grega possa, no texto, trazer em si o significado de “substituição” (em vez de, no lugar de), isso ainda assim não significa uma substituição penal. O texto é claro em falar de um resgate, e, como já tratamos, o resgate é um dos elementos da Propiciação. O texto diria, no máximo, que Cristo daria o resgate em lugar de muitos, ou seja, daria o resgate que muitos deveriam dar. Mas, ainda assim, isso não significaria que Cristo estaria sendo punido em seu lugar, porque o resgate, na Bíblia, não tem a conotação punitiva, mas meramente apelativa.


5. A Bíblia não declara que os crentes estão automaticamente perdoados.

Pela lógica da Substituição Penal, nenhum dos crentes tem culpa pelos seus pecados, porque essa culpa teria sido jogada sobre Cristo. A Bíblia não declara isso! Pelo contrário, os crentes continuam necessitados de perdão, devendo inclusive interceder pelos pecados alheios, que necessitam ser perdoados (Mateus 6:14,15; 1 João 5:16; Tiago 5:14-16). Continuam culpados pelos seus pecados, se não se arrependem, embora não sofram mais a condenação (Romanos 8:1).

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Além do aqui exposto, há mais um problema com a Substituição Penal. De acordo com a lógica da Substituição Penal, exposta no começo, o que efetua a obra de justificação é a morte de Jesus. Sua ressurreição, dentro dessa lógica, não teria nenhum efeito direto. A obra de justificação em si já estaria completo antes.

Entretanto, não é assim nas Escrituras.

O qual por nossos pecados foi entregue,
e ressuscitou para nossa justificação."
(Romanos 4:25)

A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.
Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.
(Romanos 10:9,10)

Os defensores da Substituição Penal em geral atribuem à ressurreição de Jesus um papel “comprovativo”. Para eles, a ressurreição comprova a obra de Jesus, isto é, comprova quem ele realmente era. Mas isso está muito longe de dizer que ele ressuscitou para nossa justificação. De fato, nunca, em nenhum lugar, a Bíblia traz a ideia de que a ressurreição de Jesus tinha por propósito “provar” que ele era quem dizia que era, ou provar sua obra; na verdade, a ressurreição de fato faz isso, realmente prova (Romanos 1:4) que Jesus é o Filho de Deus, mas a Bíblia nunca diz que isso é seu propósito. Na realidade, como mostra o texto acima, a fé não é produzida pelo conhecimento (notícia) da ressurreição; a fé, em si mesma, é fé na ressurreição.

De que forma, então, a ressurreição contribui para a salvação?

A explicação se encontra parcialmente no que já foi dito sobre Romanos 5.

Romanos 5:12-21 traça a oposição entre Adão e Cristo, de modo que a desobediência de Adão trouxe o pecado a todos os homens (e, com ele, o reino da morte), ao passo que a obediência de Cristo trouxe a graça (e, com ela, o reino na vida eterna).

Romanos 6:11-23 traça a oposição entre os dois possíveis estados do homem: servo do pecado (sem a graça) e servo da justiça (pela graça). O servo do pecado corresponde àquele homem que traz em si o pecado de Adão; o servo da justiça corresponde àquele homem que traz em si a graça de Cristo.

O que o apóstolo coloca na transição entre os dois textos? Um batismo.


1 Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?
3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em (εἰς) Jesus Cristo fomos batizados na (εἰς) sua morte?
4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na (εἰς) morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.
5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;
6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.
7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.
8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;
9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.
10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.
(Romanos 6:1-10)

Poderíamos debater aqui que tipo de batismo é esse (que eu claramente creio se tratar de um batismo em águas). Entretanto, para os efeitos do que aqui se debate, é desnecessário, desde que se tenha em mente tratar-se de algo que se pressupõe todos os cristãos terem.

A preposição em vermelho está destacada porque seu sentido não é idêntico ao português “em” e “na”. A preposição εἰς significa, em geral, “para dentro de” ou “até”, indicando um tipo de movimento em direção a algo. Em outras palavras: os que foram batizados para dentro de Jesus, foram batizados para dentro de sua morte, de modo que morreram junto com ela. Esse batismo une Cristo aos batizados, de modo que, na morte de Cristo, morreu juntamente crucificado “o velho homem”, para que o homem não seja mais servo do pecado (a categoria do texto posterior, Romanos 6:11-23).

Assim sendo, se Cristo ressuscitou, os crentes ressuscitam juntamente com ele. Se estão unidos ao ressurreto que venceu a morte, vencem a morte juntamente. A morte não pode os reter, porque não pode o reter. Esse é o efeito salvífico da ressurreição de Cristo: nela, todos os crentes vencem a morte, de modo que ela não tem mais poder sobre eles.

O texto em questão é muito semelhante à forma mais reduzida, presente em Gálatas 3:27-29.
27 Porque todos quantos fostes batizados em (εἰς) Cristo já vos revestistes de Cristo.
28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.
(Gálatas 3:27-29)

Por isso esse batismo, que não era necessário para Abraão, se faz necessário para os crentes: esse batismo une os crentes a Cristo, que é o descendente único de Abraão (Gálatas 3:16), o único herdeiro das promessas. Os crentes herdam em Cristo, herdam por estarem nele, por serem um nele.


V. Multiplicidade de Temas

Ao mesmo tempo em que foi mostrada a morte de Jesus como propiciação (isto é, como aplacamento da ira divina), a mesma foi mostrada como vitória sobre o pecado e a morte (e, consequentemente, a vitória dos crentes juntamente). São dois temas distintos: o tema da Expiação Sacrificial e o tema Christus Victor. Esses temas, que aparecem lado a lado na Carta aos Romanos, apresentam a obra salvífica de modo distinto. De um lado, como uma resposta às exigências sacrificiais levíticas; de outro lado, como uma resposta à condição humana de fraqueza. Entretanto, a Bíblia apresenta diversos outros temas.

Embora a Escritura não coloque nenhum tema acima de outro, podemos observar que certos temas tem maior capacidade de explicar a obra da salvação. A ideia da necessidade de Propiciar a divindade através de uma Oferta é alienígena à mente moderna; isso não significa que a ideia deva ser rejeitada, posto que está claramente presente na Escritura. Estamos, portanto, diante de um mistério: o mistério em que Deus, por amor, para aplacar sua própria ira, envia seu Filho para que ofereça um resgate a si mesmo. Entretanto, podemos ter em mente uma grande imagem (verdadeira, ainda que misteriosa), na qual Deus nos ensina que nossos pecados são tão sérios que o Filho de Deus teve de morrer por conta deles.

Um outro tema aponta a obra salvífica como uma compra (que seria, de fato, muito distinta de uma punição), e está presente, por exemplo, em Atos 20:28; 1 Coríntios 6:20a; 7:23a; Apocalipse 5:9,10. Sobre isso podemos perguntar: de quem Cristo comprou com seu sangue? As duas possíveis respostas, “de Deus” e “do diabo” são falhas. Não se pode dizer que Cristo comprou de Deus, porque na realidade os textos nos dizem que comprou para Deus. Por outro lado, do diabo também não pode ser, primeiro porque isso significaria que o sangue de Cristo agora pertenceria ao diabo (o que é blásfemo afirmar); segundo porque isso significaria que a posse que o diabo teria sobre a criação de Deus seria justa, quando, na realidade, foi “obtida” por enganação, e pertence exclusivamente a Deus (sendo a posse do diabo injusta e “ilegal”); e terceiro porque colocaria a salvação como uma negociação entre Deus e o diabo, que não estão, em nenhuma situação, em igualdade “legal”. Qual é, então, o vendedor? O fato é que a Bíblia não mostra nenhum vendedor. Nesse sentido, essa compra seria meramente simbólica e sugestiva.

Outro tema aponta que a morte de Jesus teve por objetivo rasgar a Lei (Efésios 2:14-16; Colossenses 2:14-17) de modo que a separação entre judeus e gentios desapareça.

Assim vemos que a Bíblia não aponta “um” motivo para a morte de Jesus. A Bíblia nos aponta para a morte de Jesus, e para o tão grande mistério dela, por meio da qual Deus revela seu amor, que excede todo entendimento.


G. Montenegro

5 comentários:

  1. Agradeço a Deus pela sua paciência e compromisso em escrever tais textos, esse texto foi muito esclarecedor. Continue assim Gyo, Deus te guarde.

    att,

    Giorne

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  2. Texto maravilhoso! Não desanime jamais.

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  3. Excelente texto! Só não entendi bem a referência no final, ao batismo como sendo nas águas. Mas, muito bom.

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  4. Excelente texto! Só não entendi bem a referência no final, ao batismo como sendo nas águas. Mas, muito bom.

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