31/05/12

O Sermão Profético e os dispensacionalistas


Mesmo quando era dispensacionalista, esse texto sempre me causou problemas. O sermão em que Jesus descreve a perseguição aos cristãos, a grande tribulação e a sua vinda simplesmente não diz coisa alguma acerca de um “arrebatamento secreto”. Isso não é de se estranhar, já que parte alguma da Escritura fala de um “arrebatamento secreto”. Eis o texto:

1 E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos:
Mestre, olha que pedras, e que edifícios!
2 E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios?
Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada.
3 E, assentando-se ele no Monte das Oliveiras, defronte do templo,
Pedro, e Tiago, e João e André lhe perguntaram em particular:
4 Dize-nos, quando serão essas coisas,
e que sinal haverá quando todas elas estiverem para se cumprir.
5 E Jesus, respondendo-lhes, começou a dizer:
Olhai que ninguém vos engane;
6 Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos.
7 E, quando ouvirdes de guerras e de rumores de guerras, não vos perturbeis;
porque assim deve acontecer; mas ainda não será o fim.
8 Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino,
e haverá terremotos em diversos lugares, e haverá fomes e tribulações.
Estas coisas são os princípios das dores.
9 Mas olhai por vós mesmos, porque vos entregarão aos concílios e às sinagogas;
e sereis açoitados, e sereis apresentados perante presidentes e reis,
por amor de mim, para lhes servir de testemunho.
10 Mas importa que o evangelho seja primeiramente pregado entre todas as nações.
11 Quando, pois, vos conduzirem e vos entregarem,
não estejais solícitos de antemão pelo que haveis de dizer, nem premediteis;
mas, o que vos for dado naquela hora, isso falai,
porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo.
12 E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai ao filho;
e levantar-se-ão os filhos contra os pais, e os farão morrer.
13 E sereis odiados por todos por amor do meu nome;
mas quem perseverar até ao fim, esse será salvo.
14 Ora, quando vós virdes a abominação do assolamento,
que foi predito por Daniel o profeta, estar onde não deve estar (quem lê, entenda),
então os que estiverem na Judéia fujam para os montes.
15 E o que estiver sobre o telhado não desça para casa,
nem entre a tomar coisa alguma de sua casa;
16 E o que estiver no campo não volte atrás, para tomar as suas vestes.
17 Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias!
18 Orai, pois, para que a vossa fuga não suceda no inverno.
19 Porque naqueles dias haverá uma aflição tal,
qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora,
nem jamais haverá.
20 E, se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma carne se salvaria;
mas, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias.
21 E então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo; ou: Ei-lo ali;não acrediteis.
22 Porque se levantarão falsos cristos, e falsos profetas,
e farão sinais e prodígios, para enganarem, se for possível, até os escolhidos.
23 Mas vós vede; eis que de antemão vos tenho dito tudo.
24 Ora, naqueles dias, depois daquela aflição,
o sol se escurecerá, e a lua não dará a sua luz.
25 E as estrelas cairão do céu,
e as forças que estão nos céus serão abaladas.
26 E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória.
27 E ele enviará os seus anjos, e ajuntará os seus escolhidos,
desde os quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu.
(Marcos 13:1-27)

O texto foi acima dividido em quatro partes, como claramente se vê. Três partes (azul, verde, azul marinho) correspondem ao sermão de Jesus. Evidentemente o texto não termina com o versículo 27, mas a porção citada é suficiente. Os três fragmentos giram em torno de três eventos: 1) o princípio das dores; 2) a grande tribulação; 3) a vinda do Filho do homem. As três partes são separadas pela interjeição “Ora”, bem como pelas devidas explicações dadas nos próprios textos. Citei a versão dada no Evangelho de Marcos por ser a mais simples, mas a mesma explicação cabe nos demais evangelhos.

Como se vê, parte alguma do texto fala de uma vinda “secreta”, anterior. O dispensacionalista alegará (usando algum método de advinhação) que essa vinda ocorrerá, mas que não era propósito do Senhor declará-la nesse momento. Mas o real problema é que Jesus continua a se referir aos seus discípulos como “vós”, mesmo quando inicia essa grande tribulação (verde). As partes estão em negrito. Não há espaço para um arrebatamento secreto se os discípulos continuam durante essa grande tribulação.

24 Propôs-lhes outra parábola, dizendo:
O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo;
25 Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo,
e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se.
26 E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio.
27 E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe:
Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio?
28 E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso.
E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo?
29 Ele, porém, lhes disse:
Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.
30 Deixai crescer ambos juntos até à ceifa;
e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros:
Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar;
mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro.
36 Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa.
E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo:
Explica-nos a parábola do joio do campo.
37 E ele, respondendo, disse-lhes:
O que semeia a boa semente, é o Filho do homem;
38 O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino;
e o joio são os filhos do maligno;
39 O inimigo, que o semeou, é o diabo;
e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos.
40 Assim como o joio é colhido e queimado no fogo,
assim será na consumação deste mundo.
41 Mandará o Filho do homem os seus anjos,
e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo,
e os que cometem iniqüidade.
42 E lançá-los-ão na fornalha de fogo;
ali haverá pranto e ranger de dentes.
(Mateus 13:24-30,36-42)

A cena é bastante clara: o Senhor não permitirá que o joio ou o trigo sejam arrancados até o momento certo, até a hora da ceifa, quando enviará seus anjos. Primeiro arrancará o joio (v. 30), os ímpios, para condenar; e então recolherá em seu celeiro o trigo, os filhos. A descrição da cena é a mesma do sermão profético: a ceifa é realizada por anjos. Se a descrição coincide, e se a Parábola do Joio é incompatível com um “arrebatamento secreto de trigo” (que só poderia, nessas condições, ser feita por alguém desobediente à ordem do Senhor, que disse “Não”), então o sermão profético também não pode admitir um “arrebatamento secreto”.


G. Montenegro

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