02/05/12

Não seja você mesmo (Ou: Tente ser aquilo que você não é)


 A maioria de nós, seres humanos em geral, toma decisões sob a influência de ideias cujas origens desconhecemos. Com dificuldade conseguimos traçar a origem de um preceito, de um princípio, mas seu volume é tão grande, e nossas preocupações são tão outras, que por vezes ignoramos a presença dessas ideias. Como diabos uma certa opinião entrou na minha cabeça? Diabos a colocaram lá?

Por vaidade ou soberba, preferimos achar que somos originais, apesar de nossa originalidade ser a mesma de todo mundo.

Parte dessas opiniões circula na forma de chavões. Um desses chavões, um tipo de existencialismo adolescente, se expressa da seguinte forma: Seja você mesmo (e suas variações: “Seja verdadeiro consigo”; “Não tente ser o que você não é”). Que se enfatize bem a palavra “adolescente”.

Esses chavões são todos ordens. Estão lhe dizendo o que você deve fazer. Não obstante, elas não parecem ordens. Em geral não se percebe as ordens como ordens quando elas agradam, quando coincidem (nalgum nível) com nossa vontade, com nosso desejos ou impulsos. Como ordenar “Beba água” a quem tem sede.

A vitória desses chavões é o fato de que eles sempre coincidirão com os nossos desejos, porque, de fato, o que eles dizem é “Deseje qualquer coisa, e cumpra o seu desejo”.

É evidente que há uma diferença entre o que somos e os nossos desejos. “Seja você mesmo”, se interpretado literalmente, não significa coisa alguma. Você é sempre você mesmo. No entanto, o sucesso do chavão se comprova em que qualquer falante nativo entenderá exatamente o que está por trás do “Seja você mesmo” (embora nem sempre consciente da nivelação de significado). Não verá nela uma “ordem tautológica”.

Na realidade, “Seja você mesmo” é uma forma retórica, propagandística, de uma ideia. Aliás, de um estímulo, não de uma ideia. Ninguém (bem, talvez um radical freudiano, ou algum tipo de guru nietzscheano, o que é a mesma coisa) diz “Seja você mesmo” a um estuprador. Você quer que ele deixe de ser estuprador (no mínimo por auto-preservação, senão por preocupação ética). Você diz “Seja você mesmo” a alguém que quer fazer uma tatuagem, fumar, ser gay, ou qualquer outra coisa que alguém verá com maus olhos. Ou seja, diz-se isso a quem quer levar a cabo algum desejo que tenha.

De qualquer forma, aquilo que você é está em fluxo. Por vezes esse fluxo segue uma direção (como um sovina que se torna ganancioso), mas por vezes faz curvas, subidas, descidas, retornos. Inevitavelmente você se tornará, depois, algo que não é agora. Mas o que está em jogo, de fato, é se aquilo é melhor ou pior. Aquilo que você é agora pode ser muito ruim, e aquilo que se tornará, muito bom, como pode ocorrer o contrário.

Em segundo lugar, “Seja você mesmo” não tem aparência de ordem porque é proposto como um tipo de 'caminho para a felicidade', como dizer: “Você será mais feliz se cumprir seus desejos”. E como nós, em geral, estamos pouco acostumados a criticar nossas próprias ideias, encontrar suas origens e prever suas consequências, permitimos que esse tipo de máxima continue, enquanto a ignoramos.

Não me surpreende não cristãos comprando essa ideia. Mas muito escandaliza ver cristãos caindo num engodo tão baixo. Se a Escritura tão claramente assevera que você deve negar e desprezar a si mesmo (Marcos 8:34; Lucas 14:26), não se pode entender, senão por algum tipo de cegueira diabólica, como alguém pode continuar sustentando “Seja você mesmo”.

Na verdade, em parte esse tipo de proposta tem um certo apelo emocional para o cristão. Como cristãos, cremos que devemos expressar SINCERIDADE, e fugir do pecado da HIPOCRISIA. Jesus condenou a hipocrisia, não é mesmo? E por um tipo de confusão mental, identificamos “Seja você mesmo” com “Seja sincero” e “Não seja hipócrita”.

Não, ser sincero não significa “ser você mesmo”. Na verdade, pode mesmo ser o oposto disso, quando você diz ao hipócrita, “Seja você mesmo”. Em outras palavras, Jesus disse ao hipócrita “Não seja você mesmo”!

Trata-se de uma confusão acerca da palavra “hipocrisia”. Emprega-se-lhe como significando algo próximo a “agir de uma maneira, mesmo querendo agir de outra”. Nada mais absurdo! É como dizer que é hipócrita o homem que, tendo desejo de adulterar, se priva disso, por fidelidade à sua esposa.

Em primeiro lugar, HIPOCRISIA (ὑπόκρισις) significa simplesmente fingimento ou dissimulação (mais propriamente, no sentido da interpretação de um personagem), isto é, tentar fazer com que os outros tenham de você uma opinião que não é verdadeira. Uma forma de hipocrisia seria fingir ter bons sentimentos e valores. Nesse sentido, pensar de uma maneira e agir de outra, com o propósito de encobrir seus verdadeiros pensamentos. Portanto, se o propósito não é enganar aos outros, mas simplesmente mudar seu comportamento por reconhecer que deve mudar (seja pelo motivo que for), isso não se chama hipocrisia.

Nas palavras de Jesus, a hipocrisia não é uma característica do comportamento em si. Ela localiza-se no interior (Mateus 23:28). Por isso, o problema é exatamente o oposto do que se imagina. A hipocrisia está, não no fato de você agir diferente do que pensa, mas em pensar diferente do que age: você esconde algo mau, mas mascara-o de bem. Isso é hipocrisia; há um consciente intento de fingir aquilo que não se é, o que é diametralmente oposto ao justo sentimento de ser melhor.

Ademais, como cristãos, nós não somos simplesmente uma coisa. Nós deveríamos ser uma, mas somos duas. Deveríamos ser perfeitos (Mateus 5:48)! Mas em nós operam duas forças: a carne e o Espírito (Romanos 7:22,23; Gálatas 5:17). “Seja você mesmo” pode significar “Seja o velho homem”, isto é, “Guie-se por impulsos de desejo”.

Esse chavão pode assumir ainda outra forma, embora menos explícita, que é o apelo à consciência: “Não fere a sua consciência? Faça.” O erro é óbvio: reconhecer o certo e o errado não é algo que se recebe automaticamente quando da conversão. É algo que se aprende e que se exercita (Hebreus 5:14). Nenhum cristão pode esperar ter uma consciência perfeita que lhe indique tudo o que deve fazer. Pelo contrário, negando-se a si mesmo, deve duvidar de sua própria consciência, e levá-la cativa à palavra de Deus (2 Coríntios 10:5). Somos julgados por violar não apenas nossa consciência, mas também as dos demais (1 Coríntios 8:13). Como disse o apóstolo: “Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor.” (1 Coríntios 4:4)

Como dito acima, estamos em fluxo, mas, como cristãos, esse fluxo deve ser o fluxo do rio que vai até a Cidade de Deus. Como cristãos, estamos constantemente tentando ser aquilo que não somos.


G. Montenegro

2 comentários:

  1. É a guerra ideológica de Satanás. Com essa ideologia é possível destruir toda e qualquer moralidade. Os combates (até físicos) mencionados no Novo Testamento pelo apóstolo Paulo(1 Coríntios 9:27) dão claro testemunho da necessidade de negação do velho homem como requisito para se alcançar o Reino.

    Abraços, continue firme.

    Giorne

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  2. Acredito que esse texto veio como uma resposta de Deus, pois eu estava com essa dúvida a cerca de negar se a si mesmo, tenho lutado contra o meu eu em muitas circunstancias como, por exemplo, buscar aceitar uma pessoa como ela é, vencendo a antipatia negando sentimentos, pensamentos, atitudes e em meio a essa luta vinha em mim esse tipo de pensamento: será que eu estou sendo hipócrita.

    Deus abençoe

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