17/05/12

Imaculada Conceição e Santo Anselmo


Santo Anselmo da Cantuária, Santo Anselmo de Aosta, Santo Anselmo de Bec. Esse teólogo e filósofo escolástico fez notáveis contribuições que eternizaram seu nome. Uma delas é sua Teoria da Satisfação, trazida no livro Cur Deus Homo (Por que Deus se fez homem?), enquanto a outra é o Argumento Ontológico para a existência de Deus, no Proslogion. Ambas mostram uma tentativa de expressar a fé através de explicações racionais; tanto a Teoria quanto o Argumento são construídos a partir da razão (iluminada pela fé). É dele o famoso dizer: Credo ut intelligam (Creio para que possa entender, ou Creio para que possa inteligir). Daqui 21 anos se completará um milênio do seu nascimento.

Anselmo é reconhecido como Santo e Doutor da Igreja pela Igreja Romana. Foi também Arcebispo da Cantuária e monge beneditino. Um católico romano leria Anselmo esperando encontrar nos seus textos genuína fé católica.

Mas não é bem assim!

Quando discute sua Teoria da Satisfação, Anselmo nos diz textualmente que:

“ Pois assim como a natureza humana, estando incluída na pessoa de nosso primeiros pais, foi neles totalmente vencida pelo pecado (com a única exceção do homem a quem Deus, sendo capaz de criar de uma virgem, foi igualmente capaz de salvar do pecado de Adão), assim também, se toda ela não tivesse pecado, a natureza humana teria sido totalmente conquistada.” (Cur Deus Homo, livro I, cap. XVIII)

Anselmo nos diz claramente que a única exceção ao pecado de Adão foi Cristo. Isso é claramente uma negação da Imaculada Conceição de Maria. Mas, para o seu tempo, Anselmo era considerado um bom católico. Como isso pode ser?

Hoje, todo e qualquer bispo católico sabe sobre a Imaculada Conceição de Maria. Hoje, leia-se: a partir de 1854, quando foi definido o dogma da Imaculada Conceição, na bula papal Ineffabilis Deus.

É evidente que um dogma não surge do nada. Havia afirmações anteriores da Imaculada Conceição, feitas por teólogos e clérigos. Mas a Igreja Romana sustenta que sua doutrina não muda. Ela afirma retirar sua doutrina da Sagrada Tradição, e baseada nessa Tradição (bem como nas Escrituras e no Magistério) ela define o que é dogma e o que é heresia.

Ora, segue-se que Anselmo, mil anos atrás, mesmo sendo bispo e doutor da Igreja, não conhecia coisa alguma dessa “Tradição” de que Maria fora “concebida sem pecado”. Repito: Hoje, todo e qualquer bispo sabe sobre a Imaculada Conceição de Maria. Anselmo não.

É claro que ser “bispo e doutor da Igreja” não garante que o que ele escreve seja infalível. Mas isso não desfaz a acusação de “heresia”. Ário só se tornou herege após o Concílio de Niceia? Negar a Imaculada Conceição só se tornou heresia após 1854? O que antes a Tradição e o Magistério permitiam hoje é proibido?

Então, temos uma situação bastante interessante: se um católico romano hoje conscientemente negar a Imaculada Conceição, é declarado herético. Mas a citação de Anselmo claramente nega a Imaculada Conceição, e ele é reconhecido como santo e doutor da Igreja. Quanta coerência!



G. Montenegro

Nenhum comentário:

Postar um comentário