21/05/12

A Igreja é um prédio!


É visível que toda discussão eclesiológica “popular”, em nível não acadêmico, sempre acaba por frisar o fato de que “a Igreja não é o prédio”. “A Igreja somos nós”, dizem, querendo muitas vezes dizer “a Igreja sou eu” (quanto a Igreja está certa) e “a Igreja são eles” (quando ela está errada).

É curiosa essa compulsão, perceptível entre evangélicos. Por que cargas d'água sempre tem-se que tocar nesse ponto? Por acaso alguém está dizendo por aí que a Igreja é literalmente um prédio, e não as pessoas que nele se reúnem? Algum pastor, algum teólogo, alguém afirma isso? Se não, donde vem essa paranoia!

Eu diria que ela vem de algum tipo de ódio pela matéria. Gnosticismo!

Não sou capaz de mudar o que todo o evangelicalismo pensa. Pessoalmente nunca encontrei alguém que afirmasse que a Igreja é um prédio; os que dizem “a Igreja somos nós” estão em todos os lugares, se imaginando extremamente espirituais por conhecerem tal verdade oculta. Então pretendo dar apenas mais um motivo pra que repisem a ladainha: afirmo que a Igreja é, sim, um prédio!

***

Na verdade, não se observou, nos tempos do Novo Testamento, a construção de prédios com uma função exclusivamente eclesiástica. Testemunham as epístolas paulinas que as celebrações da igreja apostólica eram nas casas dos membros.

Razões práticas, como a necessidade de ter um lugar aberto para todos os crentes, desvinculado de uma dada família. Acrescenta-se a tal razão prática um agravante: o crescimento do número de convertidos, que não poderia ser acompanhado pari passu pelo crescimento do número de presbíteros. Um tipo de mentalidade “restauracionista” (quis dizer: "gnóstica e rebelde") propõe que uma igreja local saudável seria aquela que se organizasse em casas, como aconteceu nos tempos apostólicos; na verdade, organizar-se em casas não indica coisa alguma sobre a vida espiritual dessa igreja, senão que ela está crescendo lentamente. Não é sem motivo que a Igreja, em todos os lugares do mundo onde chegou, abandonou esse modelo inicial. As necessidades a obrigaram.

Mas, de toda forma, é falso dizer que a Igreja não seja um prédio.

Pois também eu te digo que tu és Pedro,
e sobre esta pedra edificarei a minha igreja,
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;”
(Mateus 16:18)

"Porque nós somos cooperadores de Deus;
vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus.
Segundo a graça de Deus que me foi dada,
pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento,
e outro edifica sobre ele;
mas veja cada um como edifica sobre ele."
(1 Coríntios 3:9,10)

"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas
de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;
No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.
No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito."
(Efésios 2:20-22)

Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo,
para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.”
(1 Pedro 2:5)


Ok, são metáforas. Mas, por que a metáfora é exatamente essa?

Como aponta Chesterton, o cristianismo não é uma religião centrípeta, como o budismo. O budista localiza a vida espiritual no interior. O cristão, pelo contrário, segue uma ordem centrífuga: pela graça de Deus, sua fé interior promove uma mudança exterior. Assim como há em Deus um revelar-se, há um revelar-se de Deus no cristão. É consequente a formação de uma cultura cristã, uma expressividade do cristianismo naquilo que nos rodeia.

É aí que entram os prédios. Um casal usa um anel chamado "aliança" porque acaba de formar uma aliança. Aquele sinal exterior ao mesmo tempo representa e sela o compromisso.

Sabemos que a Igreja é, metaforicamente, um prédio. Mas a existência de um prédio real chamado 'igreja' é uma metáfora viva, uma metáfora concreta. É um manifestar-se daquilo que a Igreja é em si mesma, um símbolo que abriga aquilo que simboliza. Uma morada fundada sobre a rocha, com paredes sólidas que resistem contra o tempo, e que, como uma chama, tende sempre para cima, para o alto. 

Aqui meu desabafo!


G. Montenegro

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