18/05/12

Ezequiel 40-48 e os dispensacionalistas


 Os dispensacionalistas interpretam os últimos nove capítulos do livro do profeta e sacerdote Ezequiel como um tipo de profecia profecia messiânica, com um cumprimento que se dará no Reino Milenial de Cristo, em uma época futura. Essa profecia diria respeito à reconstrução gloriosa do Templo de Jerusalém, em que seria continuados, ainda que distintamente, os ritos levíticos sacrificiais.

Evidentemente Ezequiel estava profetizando para o futuro (e isso não é um pleonasmo), mas qual futuro é esse?

O que nos diz a própria Escritura a esse respeito?

Antes de tudo, sempre que interpretamos um texto bíblico, devemos observá-lo tendo em mente dois polos: o escritor e o destinatário original. É possível que um texto bíblico se aplique também a alguém que não é seu destinatário original, como quando aplicamos aos crentes atuais a Epístola a Tito, cujo destinatário original era esse jovem bispo chamado Tito. Ora, se Tito era um bispo, as determinações da epístola se aplicam também à igreja sob sua tutela, e, assim sendo, também à Igreja em geral.

Como saber quem era o destinatário original? Geralmente o próprio texto nos diz.

O escritor? Ezequiel, filho de um sacerdote (1:3), sozinho ou 'acompanhado' de escritores posteriores (alternativas irrelevantes para a presente discussão).

Seu destinatário original? O povo judeu sob o exílio babilônico. A forma final do livro só pode ser posterior a 571 a.C., quando ocorre a última visão. Durante o cativeiro, portanto.

O testemunho universal dos profetas que se localizam na época (Jeremias, Daniel, etc) coloca sob Israel a culpa do cativeiro babilônico. Estavam sob o cativeiro por descumprir a lei de Deus, cedendo à idolatria e à impureza.

Diz o profeta:
Por isso, ó Aolibá, assim diz o Senhor Deus:
Eis que eu suscitarei contra ti os teus amantes, dos quais se tinha apartado a tua alma,
e os trarei contra ti de toda a parte em derredor.
E eles te tratarão com ódio,
e levarão todo o fruto do teu trabalho,
e te deixarão nua e despida;
e descobrir-se-á a vergonha da tua prostituição,
e a tua perversidade,
e as tuas devassidões.
Estas coisas se te farão,
porque te prostituíste após os gentios,
e te contaminaste com os seus ídolos.
(Ezequiel 23:22,29,30)

Aolibá (ou Oolibá) é a cidade de Jerusalém (23:4), a qual, em certo sentido, representa todo o povo judeu, por ser a capital, habitação de seus reis e sede de seu único Templo oficial. O povo foi sitiado e exilado de sua terra por ter descumprido o concerto com Deus. Tanto o templo quanto a monarquia estavam arruinados naquele momento, destruídos pela nação estrangeira. O povo, jogado em vergonha, como punição pelo seu pecado.

Entretanto, o profeta também traz uma promessa de grande esperança para o povo judeu. Passados já vários anos desde que Jerusalém fora sitiada, período em que o povo estava no cativeiro, o profeta tem uma visão para transmitir ao povo: uma gloriosa visão de renovação de Israel, sintetizada em 36:16-37.

Então, “no ano vigésimo quinto do nosso cativeiro, no décimo dia do mês, catorze anos depois que a cidade foi ferida” (40:1), o profeta tem uma nova visão. Ele é transportado para a terra de Israel (40:2), e lá tem uma visão de um alto monte, e sobre ele um edifício (40:3). À porta deste edifício estava um 'homem' “cuja aparência era como a aparência do cobre” (40:4). Então este homem lhe diz:

Filho do homem, vê com os teus olhos,
e ouve com os teus ouvidos,
e põe no teu coração tudo quanto eu te fizer ver;
porque para to mostrar foste tu aqui trazido;
anuncia, pois, à casa de Israel tudo quanto vires.
(Ezequiel 40:4)

O texto é seguido por uma descrição desse edifício: o Templo de Jerusalém. É mostrada a Ezequiel toda a medição do templo, bem como sua estrutura interna, nos capítulos que se seguem, assim como sua liturgia de culto, a forma como devem ser feitos os sacrifícios, holocaustos e ofertas. Com que propósito tudo isso é mostrado a Ezequiel?

“Tu, pois, ó filho do homem, mostra à casa de Israel esta casa,
para que se envergonhe das suas maldades,
e meça o modelo.
E, envergonhando-se eles de tudo quanto fizeram,
faze-lhes saber a forma desta casa, e a sua figura,
e as suas saídas, e as suas entradas,
e todas as suas formas, e todos os seus estatutos,
todas as suas formas, e todas as suas leis;
e escreve isto aos seus olhos, para que guardem toda a sua forma,
e todos os seus estatutos, e os cumpram.”
(Ezequiel 43:10,11)

O propósito dessa profecia era anunciar aos judeus aquilo que eles deveriam fazer assim que chegassem a Israel. A promessa de renovação de Israel passava pela promessa de renovação da monarquia e do templo (43:6), as duas estruturas que formavam a unidade do povo de Israel sob a Lei de Deus. Assim sendo, a profecia dos últimos 9 capítulos do profeta Ezequiel não é uma visão do que necessariamente iria ocorrer, mas, antes de tudo, uma lei. Quando retornasse da terra, o povo deveria fazer aquilo que o livro do profeta diz: construir o Templo e realizar nele seu culto sacerdotal. Por isso foi dada a medida do Templo ao povo.

Esse texto, 43:10,11, por si só desmente a interpretação dispensacionalista. Mas, em segundo lugar, há várias trechos no texto de Ezequiel que não condizem com a escatologia cristã, de modo que uma interpretação cristã não poderia colocar esse texto como literalmente o que acontecerá no reino milenial de Cristo, conforme afirmam os dispensacionalistas.

Que trechos são esses? Os que dizem respeito a como deve ser o culto dentro do templo: é um culto sacrificial. Vemos na Lei que os judeus deveriam fazer sacrifícios em expiação pelo seu pecado (Levítico 1:1-4). As normas de Ezequiel, que não são totalmente compatíveis com aquelas da Lei de Moisés, dizem também respeito a sacrifícios: 40:39; 42:13; 43:19, 21, 22, 25; 44:27, 29; 45:17, 19, 22, 23, 25; 46:20. E esses sacrifícios são claramente declarados como por expiação:

E, no dia em que ele entrar no lugar santo,
no átrio interior, para ministrar no lugar santo,
oferecerá a sua expiação pelo pecado, diz o Senhor Deus.
(Ezequiel 44:27)

E estarão a cargo do príncipe os holocaustos,
e as ofertas de alimentos,
e as libações, nas festas,
e nas luas novas,
e nos sábados,
em todas as solenidades da casa de Israel.
Ele preparará a oferta pelo pecado,
e a oferta de alimentos,
e o holocausto,
e os sacrifícios pacíficos,
para fazer expiação pela casa de Israel.
(Ezequiel 45:17)

Entretanto, nos ensina a Escritura que, após o perfeito sacrifício de Jesus, não há mais sacrifício expiatório a ser feito (Hebreus 9:10,16; 10:18). Portanto, uma interpretação cristã de Ezequiel 40-48 não pode colocar esse Templo com sacrifícios expiatórios no Milênio. Como se não bastasse, o próprio príncipe faz expiação por si e pelo povo no Templo (Ezequiel 45:21,22), o que é inaplicável no caso de Jesus.


G. Montenegro

5 comentários:

  1. Verdade! O dispensacionalismo mais atrapalha do que ajuda. Pregam a Cristo ao mesmo tempo que ensinam um conjunto de mentiras anti-bíblicas.

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  2. Bom irmãos...
    A bíblia é muito profunda e harmônica...

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  3. Gostaria muito irmão percorrer pelas páginas da bíblia com os irmãos sobre este tema...

    Mais 1° seria necessário me responderem uma pergunta...

    Qual a o método de interpretação em relação ao reino milenal...???
    O reino milenal se trata de um evento reservado ao passado de Israel ou um evento reservado à Israel no futuro...???

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  4. Gostaria muito irmão percorrer pelas páginas da bíblia com os irmãos sobre este tema...

    Mais 1° seria necessário me responderem uma pergunta...

    Qual a o método de interpretação em relação ao reino milenal...???
    O reino milenal se trata de um evento reservado ao passado de Israel ou um evento reservado à Israel no futuro...???

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  5. Bom irmãos...
    A bíblia é muito profunda e harmônica...

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