23/05/12

A doutrina dos dois séculos


E Jesus, respondendo, disse: Em verdade vos digo que ninguém há,que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna.”
(Marcos 10:29,30)

Éon” é uma adaptação ao português da palavra grega αἰών, traduzida por vezes como “século”. Entretanto, a expressão tem um sentido bastante preciso em grego, e não tem qualquer relação com um período de 'cem anos'. A expressão designa um período de tempo indeterminado, uma era, mas por metonímia designa também o estado de coisas durante esse tempo. Daí o adjetivo “secular”, no sentido de mundano. Secular (saeculare) é aquilo que diz respeito ao século, saeculum, ou seja, aquilo que diz respeito a esta era, à era em que vivemos, nosso éon.

No Novo Testamento existe uma tensão entre o século presente e o futuro, e esta tensão norteia toda a doutrina cristã. Toda a mensagem do Evangelho, a proclamação do Reino de Deus, a obra de Jesus Cristo, mesmo a concepção de Satanás, tudo se interpreta por doutrina. É esta a doutrina dos dois éons, uma teologia da história que se projeta em escatologia. Essa doutrina não é propriedade exclusiva do cristianismo; surge no movimento apocalipsista judaico alguns séculos antes de Cristo. Entretanto, o cristianismo deu a tal doutrina um foco diferente ao dado pelo apocalipsismo judaico.

Em que consiste essa tensão? É a oposição entre o século presente (i.e., a era presente), que jaz no maligno, que é dominada por trevas e forças diabólicas, e o século futuro, em que reina paz, justiça e amor, e em que todos os planos de Deus se consumam. Em suma, a oposição entre o Mundo (aqui no sentido neotestamentário, não sendo o mesmo que a Criação, mas o conjunto de poderes diabólicos que subjuga a Criação, ou mesmo a Criação enquanto dominada por esses poderes) e o Reino de Deus. Em algum momento iminente, determinado pela vontade de divina, irromperá o Reino de Deus, em que todos os inimigos de Deus serão destronados e derrubados, e o povo de Deus desfrutará da milenar promessa. Deus reinará, maranata. Essa é a imagem de Daniel 7.

Tal doutrina é tão essencial ao Cristianismo que o apóstolo Paulo descreve o motivo do sacrifício de Jesus Cristo como “para nos livrar do presente século mau” (Gálatas 1:4).

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Podemos notar duas conflitantes interpretações sobre esta iminência do Reino de Deus: a escatologia futurista e a escatologia realizada. Para os proponentes da escatologia futurista (não confundir com o “futurismo” como escola da escatologia sistemática), o Reino de Deus é uma realidade futura, ou seja, o éon futuro ainda aparecerá. Os cristãos devem se preparar para ele. Assim sendo, devemos esperar o momento em que Deus agirá, trazendo seu Reino; trata-se de uma ruptura. Já para os proponentes da escatologia realizada, Jesus já trouxe o éon futuro. Já estamos nele. Se estamos nele, e o Reino de Deus não se faz visivelmente presente, cabe à Igreja a missão de tornar esse Reino visível; trata-se, não de uma ruptura, mas de um progresso, de uma evolução, uma reforma do mundo anterior. Como se observa, há uma oposição acerca da natureza do Reino que se traduz em um comportamento distinto: esperar ou realizar o Reino.

Qual das duas interpretações está correta? Ambas. Mas em aspectos distintos. De fato, o Novo Testamento (escrito depois da morte e ressurreição de Jesus, e, portanto, depois de toda a sua obra) trata o século messiânico sempre como futuro (comparar Mateus 12:32; Marcos 10:30 a Efésios 1:21; 2:7; Hebreus 6:5), em oposição ao século diabólico, o presente (1 Coríntios 1:20; 2 Coríntios 4:4; Gálatas 1:4; Efésios 6:12; 2 Timóteo 4:10; Tito 2:12). Por isso oramos: “Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” (Mateus 6:10)

Por outro lado, há nas Escrituras uma gama de textos que retratam aquilo que diz respeito ao século futuro (o Reino de Deus, o Juízo Divino, a Ressurreição, a Bem-aventurança, a Vida eterna, etc) como uma realidade já presente, ainda quem “em parte”. Embora seja uma tendência forte de textos específicos (como o Evangelho de João), trata-se de um tema geral do Novo Testamento. Já fomos transportados para o Reino (Colossenses 1:13, cf. João 12:36) de modo que já estamos assentados nos céus (Efésios 2:6) na Jerusalém celestial em companhia dos anjos (Hebreus 12:22,23), já morremos e já ressuscitamos (Romanos 6:1-6; Colossenses 2:12; 3:1,2), Cristo já é o Senhor (Mateus 28:18; Romanos 14:9; Efésios 1:21), o Reino já estava entre os apóstolos (Lucas 17:21). Já era, na época de Jesus, o momento do julgamento e da condenação do mundo e da expulsão de Satanás (João 12:31; 16:11; Hebreus 2:14), de modo que já desfrutamos da vida eterna pelo fato de crermos (João 3:36; 5:24; 6:40,47; 1 João 5:13). Trata-se apenas de respingos diante da enormidade com que tal tema se apresenta no Novo Testamento.

A interpretação dessa dualidade é a escatologia inaugurada, segundo a qual, enquanto certos aspectos do Reino de Deus já estão presentes, ainda estamos sujeitos ao século atual, ao mundo. Estamos na travessia do éon presente para o éon futuro; ainda que vivendo no século presente, já fomos transportados para o Reino futuro e já desfrutamos da vida eterna futura, em esperança e pela fé. Somos duais, nesse sentido. O século presente e os séculos passados são os séculos do primeiro Adão, enquanto o século futuro é o século do novo Adão, Cristo. Ainda que sejamos transformados à imagem desse Cristo, estamos, nalgum sentido, presos ao século do primeiro Adão, de modo que o velho homem pode ainda retornar: ao mesmo tempo em que o velho homem já foi crucificado (Romanos 6:6), nós ainda devemos nos desfazer dele (Efésios 4:22-24), mesmo que já o tenhamos feito (Colossenses 3:9). Ainda que já estejamos reconciliados com Cristo, devemos nos reconciliar com Cristo (2 Coríntios 5:18-20; Colossenses 1:21). Ainda que já tenhamos sido gerados em Cristo (1 Pedro 1:3), devemos ser novamente gerados (1 Pedro 1:23).

Nesse sentido, desde muito se observa na ética neotestamentária (especificamente na retórica do apóstolo Paulo) uma forma peculiar de expressar os preceitos éticos, que é a relação indicativo-imperativo, que pode ser exemplificada por Gálatas 5:25: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito”; ou 1 Coríntios 5:7a: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento”. Trata-se de uma conexão lógica entre aquilo que é real (o indicativo) e aquilo que deve ser real (o imperativo). De fato não se trata de algo realmente novo. Poderiamos dizer que toda a mensagem do Antigo Testamento para o povo judeu era um preceito com exatamente essa forma: o povo judeu foi tirado do Egito, e assim deve se comportar como povo santo, um povo que não está mais no Egito. A sua realidade presente, enquanto povo liberto e tirado da casa da escravidão do Egito, indica o modo como deve se comportar diante de Deus (Êxodo 19:4-6; Deuteronômio 4:20). A situação do povo judeu era a mesma dos cristãos: já libertos, mas ainda não desfrutando da plenitude dessa liberdade, por haver ainda algo que o prenda ao seu passado.

Na essência da conexão entre o indicativo e o imperativo está o fato de que, embora já desfrutemos, pelo Espírito Santo, de parte da bem-aventurança do século futuro (e isto é um fato), ainda assim estamos no século presente, e nos comportamos assim. Dessa forma, devemos tornar realidade aquilo que é realidade. Dessa forma se realiza em nós o reino de Deus ainda nessa vida presente.

Mas é bom que se note que enquanto a redenção divina se aplica a toda a Criação (Romanos 8:19-23), no presente momento apenas a Igreja (entendida como a totalidade daqueles que comungam da obra salvadora de Jesus Cristo) desfruta do éon futuro. A totalidade da Criação está ainda sujeita ao “deus deste século”, Satanás (1 Coríntios 4:4). Assim sendo, a tensão entre “esperar” e “realizar” o Reino mostra-se como uma relação dual: enquanto a Criação pode apenas esperar, em nós o Reino de Deus já se realiza.

Isso mostra, desde já, a incompatibilidade do Evangelho com todo e qualquer projeto de criação de um mundo melhor. Nos ensina o Evangelho que o problema está no coração do próprio homem (Mateus 15:11,18). Não podemos, portanto, fazer com que o Reino de Deus se torne realidade no mundo; podemos apenas esperar o momento determinado por Deus para o irromper deste Reino. Entretanto, isso não significa que seja um esperar passivo; somos exortados a viver desde já em acordo com a realidade futura. Não devemos nos conformar ao mundo (Romanos 12:2). Mesmo ainda andando no deserto, o povo israelita era já ensinado a viver como um povo redimido.

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A correta compreensão da doutrina dos dois éons nos ajuda a entender alguns aspectos do Novo Testamento que de outra forma pareceriam sem sentido.

Observamos uma diferença gritante entre o Cristianismo e as grandes religiões. Trata-se da provisoriedade (ou mesmo indiferença) com a qual o Cristianismo trata do governo humano e o Estado. De Mateus a Apocalipse não encontramos qualquer pista sobre como construir uma “república cristã” (isto é, como deve ser o governo e o Estado em uma sociedade em que todos ou a maioria sejam cristãos); nos dizem muito sobre como deve ser a igreja, como os cristãos devem se comportar entre si e para com os não-cristãos, mas não encontramos no Novo Testamento normas para o regimento da sociedade. Grandes religiões, como o Islamismo, Judaísmo (ao menos o judaísmo bíblico), Hinduísmo e o Confucianismo, tendem a identificar a comunidade civil com a comunidade religiosa. Por isso, por exemplo, o Islamismo traz preceitos sobre herança e impostos, e o Hinduísmo traz uma divisão de castas que afeta diretamente a sociedade hindu. Essas religiões ensinam como deve ser a sociedade; o cristianismo não!

Nossas ideias sobre governo e política derivam muito mais de uma tradição filosófica clássica (greco-romana) e dos processos históricos pelo qual passou o Ocidente do que de qualquer doutrina bíblica. Quando o Cristianismo ganhou tamanho no Ocidente, e passamos a ser uma sociedade que o professa, o Evangelho nem por isso se tornou lei (isto é, aquilo que é pecado não se tornou imediatamente crime, e damos graças a Deus por isso). Continuamos utilizando o Direito Romano, ainda que passando por transformações que o tornaram mais brando e humano.

Por quê? Simples: o Cristianismo não nos ensina a ser parte deste mundo (2 Timóteo 2:4). O Cristianismo nos ensina a temer as autoridades e tributar-lhes aquilo que for devido, obedecendo a lei, mas jamais confere a tais autoridades o papel de concretizar a vontade divina. A presente ordem de coisas, o nosso século, nosso éon, jaz no maligno. Devemos fazer o bem a todos à nossa volta, mas sabemos que nada podemos fazer pelo mundo em si. Não podemos criar um mundo melhor.

Qualquer tentativa de tornar o Evangelho em lei civil fracassa, porque o Evangelho não foi feito para ser lei. Não pode ser obedecido sob a ameaça de uma punição temporal, mas unicamente sob a promessa do Reino pela fé.

Ademais, qualquer tentativa de tornar de fato o Evangelho em lei civil levaria ao completo desmantelamento de uma sociedade qualquer. O seguidor de Jesus deve oferecer a outra face sem resistir (Mateus 5:39), mas, se isso for usado não como um imperativo para o indivíduo e sim como uma prática de Estado, não se incentivaria o bem, mas o mal! O criminoso simplesmente não seria punido. Semelhantemente, o apóstolo Paulo exortou os coríntios a surportarem a injustiça cometida contra eles mesmos (1 Coríntios 6:7); mas seria desastroso para todos guiar o Estado conforme esse princípio; o Estado não pode tolerar a injustiça. Jesus determina ainda que os seus discípulos deveriam renunciar a todas as posses (Lucas 14:33); se renunciar às posses for uma obrigação legal de origem estatal, não podemos esperar nada além da miséria total e coletiva.

Por outro ângulo, identificar “pecado” com “crime” (isto é, tornar aquilo que é pecado em crime) nos colocaria em um regime totalitario em que a vida seria intolerável. Não nos seria permitido errar. Isso vai contra o coração do Evangelho, a crença na graça redentora de Deus.

Ao longo da história, muitas foram as tentativas de criar uma sociedade perfeita e que encarnasse o Evangelho. Savonarola, os taboritas, a Genebra de Calvino, a Rebelião Taiping, e muitos outros; todas fracassaram violentamente, por melhores que fossem as intenções de seus proponentes. Ocorre que esse tipo de sociedade viola um princípio fundamental ensinado por Jesus na Parábola do Joio e do Trigo (Mateus 13:24-30), e este princípio é de que somente o Juizo de Deus pode separar os justos dos injustos. Aos servos de Deus é proibido fazê-lo: à pergunta dos bem-intencionados servos, “Queres pois que vamos arrancá-lo?”, o seu Senhor responde: “Não”. A explicação da parábola (Mateus 13:36-43) esclarece esse juízo. Não se pode, portanto, constituir uma sociedade que faça essa distinção entre os justos e os ímpios com base no Evangelho. Não se pode confundir a comunidade civil com a comunidade religiosa. Não se pode confundir o éon presente e o éon futuro. Não se pode antecipar o Juízo Divino.

Isso se aplica às relações sociais. Veja o que o apóstolo Paulo nos diz:

Porque todos quantos fostes batizados em Cristo
já vos revestistes de Cristo.
Nisto não há judeu nem grego;
não há servo nem livre;
não há macho nem fêmea;
porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”
(Gálatas 3:27,28)

O batismo, essa realidade que introduz os servos de Deus no éon futuro inaugurado em Cristo (Romanos 6:4-6; 1 Pedro 3:21), anula todas as distinções sociais existentes: a distinção entre judeu e grego, entre escravo e livre, entre macho e fêmea. Mas isso significa que o apóstolo pregava que tais distinções não tinham efeito algum, e deveriam ser atacadas pela Igreja? De maneira nenhuma. Ocorre exatamente o contrário: Paulo exige que os senhores sejam humanos e bondosos e que os maridos sejam amorosos e dêem a vida por suas esposas, mas, para que o Evangelho não seja blasfemado, exige também que as mulheres sejam submissas e os escravos obedeçam em tudo aos seus senhores. Não ataca à submissão e à escravidão, diferente do que querem os modernos pregadores da Teologia da Libertação e do Evangelho Social. No éon futuro, tais distinções não terão mais nenhum sentido; no éon presente, para que o Evangelho não seja blasfemado, a Igreja as tolera.

Todos os servos que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores por dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados.
(1 Timóteo 6:1)

3 As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem;
4 Para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos,
5 A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada.
(Tito 2:3-5)

Como dito acima, a doutrina dos dois éons é como que uma Teologia da História. É uma narrativa que explica o lugar em que estamos e para onde estamos indo. Somada à Doutrina da Criação, forma a totalidade da compreensão cristã sobre a existência, passado, presente e futuro. É nessa narrativa, que vai do Gênesis ao Eschaton que nos localizamos, como cristãos. Nenhuma outra narrativa é compatível com essa. Deve-se rejeitar o catastrofismo ecológico, o progressismo iluminista (progresso evolucionário), o materialismo dialético, ou qualquer outra narrativa como interpretação da história e do futuro. Não fazemos parte de duas narrativas.


G. Montenegro

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