12/04/12

Convencer


A evangelização realizada pelo baixo protestantismo brasileiro (e isso não é, aqui, uma detratação, visto ser eu parte também) padece de um erro teórico fundamental. Digo “teórico” porque se trata de um erro sobre como a evangelização é pensada, muito mais do que como ela é praticada.

Podemos resumir tal erro de uma forma usual assim: “Não precisamos convencer as pessoas. O Espírito Santo é responsável por convencê-las. Basta pregar.”

Trata-se de um erro de raciocínio fundamental: afirmamos uma verdade ao ponto que, tirada do seu espaço natural, ela engole outras. A referida verdade é a de que o responsável pela conversão do homem é o Espírito Santo. Tal verdade aparece claramente expressa em João 16:8:

7 Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei.
8 E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo.
(João 16:7,8)

Não há que se negar o que o texto diz tão claramente: por ocasião de sua vinda, o Paracleto inicia esta obra, convencendo o mundo acerca (περί) do pecado, da justiça e do juízo. Mas observe-se: esse não é o único texto que trata de “convencimento”.

E todos os sábados disputava na sinagoga, e convencia a judeus e gregos.”
(Ato 18:4)

Porque com grande veemência, convencia publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo.”
(Ato 18:28)

E, entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, disputando e persuadindo-os acerca do reino de Deus.”
(Atos 19:8)

E, como não podíamos convencê-lo, nos aquietamos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor.”
(Atos 21:14)

E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus, e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde.”
(Atos 28:23)

Assim que, sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens à fé, mas somos manifestos a Deus; e espero que nas vossas consciências sejamos também manifestos.”
(2 Coríntios 5:11)

Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.”
(Tito 1:9)


Os textos são claros. A maioria trata do relato da evangelização como foi feita pelos apóstolos. Note-se que está presente, em um dos versículos (Atos 18:4; 19:8), o elemento da disputa, que também está presente em diversos outros textos (Atos 9:29; 17:2,17; 18:19; 19:19).

Então quem convence? Eu ou o Espírito Santo? Essa é uma pseudo-questão. A Escritura nos diz que é Deus quem alimenta as aves dos céus (Mateus 6:26). Isso significa que elas não saem à procura do alimento? Ou, em algum momento, alguém já viu a mão de Deus colocar esse alimento diretamente na boca delas? É evidente que não.

De fato, toda a capacidade vem de Deus, mesmo aquela que adquirimos com esforço ou estudo. Ao mesmo tempo em que o apóstolo afirma persuadir os homens à fé em Cristo (2 Coríntios 5:11) e declara ser esse o dever do presbítero (Tito 1:9), assevera que toda essa obra é realizada pela graça de Deus (1 Coríntios 3:10; 15:10), que opera em nós o querer e o efetuar (Filipenses 2:13). Assim sendo, esse convencimento é obra total do Espírito Santo, mas também é obra delegada ao evangelizador. Trata-se, portanto, não de uma exclusão, mas de uma cooperação (1 Coríntios 3:9), na qual o Senhor tem sempre o papel iniciador, sustentador e consumador.

A verdade é que nós temos de estar munidos de fortes argumentos bíblicos para que possamos defender a nossa fé (Judas 3) e contestar aquilo que eles acreditam e que não é real.

G. Montenegro.

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