11/02/12

O mito do sabatariano sobre o Gênesis


Afirmam os sabatarianos, como suporte para sua crença, que o Sábado houvera sido estabelecido por Deus ainda no princípio, e citam Gênesis 2:1-3 como argumento, texto bíblico que diz que Deus repousou ao sétimo dia após ter completado a criação.

Já de começo o argumento peca por uma falácia: deduzir de um fato (Deus repousou ao sétimo dia) um mandamento (agora todos devem repousar ao sétimo dia). Essa falácia se mostra mais evidente quando percebemos que a Bíblia não mostra uma pessoa sequer guardando o Sábado antes da saída do povo de Israel do Egito. Dizer que isso está implícito ou concluído a partir do que diz o referido texto de Gênesis é argumentar em círculos.

Mas não se trata simplesmente de uma falha formal do argumento. A Bíblia diz positivamente que o Sábado foi dado após a saída do Egito: “Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado.” (Deuteronômio 5:15)

Portanto, o repouso sabático é uma resposta à escravidão sob jugo egípcio; trata-se de uma rememoração coletiva disso (“te lembrarás”, falando a todo o povo). Por isso a Bíblia coloca o Sábado como uma aliança entre o Deus libertador e o povo de Israel liberto (Êxodo 31:12-18).

Os sabatarianos confundem o motivo da escolha do sétimo dia como dia de repouso (ligado à Criação) com o motivo iniciador do mandamento (a saída do Egito).

Esse mito na realidade é reforçado pelo fato de que hoje damos ao sétimo dia da semana o nome de “Sábado” (mesmo os que não guardam o sábado). Mas “Sábado” originalmente não é o nome do dia da semana, mas o repouso especial feito nesse dia conforme se prescreve na Lei. A transferência se dá por metonímia.

G. Montenegro

3 comentários:

  1. Concordo com o que foi dito no post.

    Uma vez, ví certo apologista adventista argumentando que era "dedutível" o mandamento do sábado já na criação, pois Gênesis 2:3 afirma que Deus *santificou* o sétimo dia, e a palavra "santificar", argumentou ele, significa "separar para um serviço religioso" (ou algo assim).
    Não sei se a palavra tem esse significado nesse contexto, mas o problema é que, mesmo que esse raciocínio fosse válido, o fato é que o texto só diz que Deus santificou o sétimo dia da semana da criação. Não diz que Deus santificou o sétimo dia de *toda* semana.
    Então, Adão só seria obrigado a guardar esse sétimo dia, e ainda por cima, teria trabalhado apenas um dia antes de descansar, "violando" assim o Quarto Mandamento.

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  2. O texto seria um ótimo argumento se não fosse o fato de ter cometido o equívoco ao dizer que:

    "Já de começo o argumento peca por uma falácia: deduzir de um fato (Deus repousou ao sétimo dia) um mandamento (agora todos devem repousar ao sétimo dia)."

    Quero acreditar que o autor leu à bíblia, pois é o texto de Êxodo 20:8-11 quem diz que a razão para se guardar o sábado (razão original), embora hajam muitas outras razões, mas a razão original encontra-se em Êxodo 20:8-11 e não em Deuteronômio 5:15 como o autor do texto tenta nos fazer crer.

    Êxodo 20:8-11 diz: "Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou."

    É o texto bíblico quem diz que devemos descansar por Deus ter descansado e não uma suposta "falácia" de quem guarda o sábado.

    Além do mais o autor comete a falácia da qual acusa aos sabatarianos ao afirmar:

    "Essa falácia se mostra mais evidente quando percebemos que a Bíblia não mostra uma pessoa sequer guardando o Sábado antes da saída do povo de Israel do Egito."

    Peraê, se o fato de Deus ter descansado no sábado não significa que devamos descansar, porque alguém deveria procurar personagens bíblicos, que não a pessoa de Deus, guardando-o para ter razões para guardar? Os personagens bíblicos são mais importantes que o próprio Deus?

    Se a ideia é colocar Êxodo 31:12-18 como baluarte da explicação, lamento, mas o autor falhou, pois segundo Paulo: "“nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” Romanos 9:6

    Além do mais se a aliança feita por Deus, segundo o autor, foi apenas com Israel em um remoto passado que não nos atinge hoje, então os versos abaixo não tem sentido:

    “tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus. […] a circuncisão tem valor se praticares a lei; se és, porém, transgressor da lei, a tua circuncisão já se tornou incircuncisão. Se, pois, a incircuncisão (Gentios) observa os preceitos da lei, não será ela, porventura, considerada como circuncisão? […] Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne, Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus. ” Romanos 2:17, 25, 26, 28, 29.

    Me parece que o conceito de Israel para o autor é muito limitado, enquanto que para o Apóstolo Paulo é bastante amplo.

    A conclusão do autor é , portanto, estapafúrdia e de modo algum baseada na evidência bíblica, entretanto, isso não me impede de parabenizá-lo pelo blog e desejar vida longa ao mesmo de modo que aqui possa ser um lugar de discussões produtivas.

    Cordial Abraço,
    Italo Fabian.

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    1. Êxodo 20:8-11 e Deuteronômio 5:15 respondem a perguntas distintas. O que se questiona em Êxodo 20:8-11 é "por que se guarda O SÉTIMO DIA" (ou seja, a causa do dia), ao passo que o que se questiona em Deuteronômio 5:15 é "por que SE GUARDA o sétimo dia" (ou seja, sua causa do repouso). Afirmar que pessoas antes da saída do povo de Israel do Egito guardavam ao Sábado é VIOLAR o que Deuteronômio 5:15 clara e expressamente diz.

      Quanto à guarda do Sábado em Gênesis, novamente se comente a falácia de deduzir um MANDAMENTO de um FATO. O fato de Deus ter, no relato de Gênesis, REPOUSADO não implica em dizer que Deus estava "OBEDECENDO A UM MANDAMENTO", o mandamento que obriga a repousar. Não é por Deus haver repousado em tal dia que 'ipso facto' toda a humanidade deve semanalmente guardar aquele dia; ademais, a Bíblia não diz que Deus "continuou a guardar o sábado". A guarda do Sétimo Dia inicia com a saída do Egito e o fim da ESCRAVIDÃO israelita, como claramente diz o texto de Deuteronômio 5:15. Qualquer outra interpretação é simplesmente RISCAR o que diz o texto deuteronômico. Ficou mais claro?

      Quanto aos textos de Romanos, cumpre ao leitor PARAR DE CONFUNDIR textos bíblicos, como se Êxodo, Deuteronômio e Romanos estivessem falando da mesma coisa. Nos textos do Antigo Testamento "Israel" é uma nação específica, que a rigor inclui os descendentes de Jacó (Israel) e aqueles que a eles se juntarem pelo pacto da circuncisão; em algumas partes do Novo Testamento, "Israel" é todo o povo de Deus, incluindo-se os gentios. Tal polissemia é característica essencial da linguagem, nomeadamente da linguagem bíblica. Não confunda.

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